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Falta de Si

Summary:

“Dara não sente que habita o próprio corpo. É como se tivesse sido separada entre carne e alma, e nenhuma das suas parcelas conseguiam se reunir – agora destinadas a viver para sempre sentindo falta da outra. O acesso à vida está bloqueado por uma sólida parede de concreto, e, ao tentar arranhar o muro, ela consegue apenas quebrar as próprias unhas”.

Dara Venturini pondera sobre a sua situação, e toda a mudança indesejada que o século 21 trouxe consigo.

Notes:

Bom dia! Sou o Jokki, e essa tecnicamente é a minha primeira fic de comunidade, então vamos ver como vai dar. A Dara é uma das minhas personagens favoritas de Ordem todo, então eu tô muito feliz de escrever um pouco sobre ela.

Talvez eu até continue algum dia, sei lá. Aproveita aí e me dá o feedback. Gosto de dar recomendações de música relacionadas à fic, então vai ser “You Can Always Come Home” de Toby Fox – instrumental sem letras – ou “Juliet” de Cavetown – com letras.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Dara se concentra na estrada, dirigindo a van vagarosamente pelas ruas vazias de São Paulo. A cidade, geralmente caótica e barulhenta, está o mais silenciosa que ela consegue ser. O resto dos Cinco – ou, mais precisamente, dos “Três” – dorme pacificamente nos bancos de trás.

A mulher não aprecia a claustrofobia da cidade, preferindo mil vezes mais a solidão e o ar limpo do Interior. Ela pensa nas cidades pequenas em que os Cinco costumavam atuar, que ainda tinham um quê de calma e tranquilidade, mas talvez seja só a falta de Minas falando.

Dara sente falta de muitas coisas – mais do que ela jamais poderia descrever. Ela sente falta dos Cinco, do Morato, do Xande, do Guizo… Ela sente falta da simplicidade e da inocência. Ela sente falta da sua cidade, dos seus amigos, do seu tempo que foi tirado dela.

Ela sente falta de si.

Todos perderam muito. Ela nota quando os seus amigos saíam de perto dos outros para poder chorar sozinhos.

Ela sabe o porque que Chico pausa às vezes ao mexer no computador, quando ele não consegue assimilar todas as intrínsecas novas regras da tecnologia – sua coisa favorita –, agora distante e desconexa.

Ela sabe o porque Lírio a evita, e porque faz caras tão machucadas simplesmente ao conversar com ela.

Todos estão em luto, e todos estão seguindo a sua vida. Seus companheiros choram e riem. Apesar de terem perdido todo esse tempo, a história dos Cinco continua. Todos menos ela.

Dara não sente que habita o próprio corpo. É como se tivesse sido separada entre carne e alma, e nenhuma das suas parcelas conseguiam se reunir – agora destinadas a viver para sempre sentindo falta da outra. O acesso à vida está bloqueado por uma sólida parede de concreto, e, ao tentar arranhar o muro, ela consegue apenas quebrar as próprias unhas.

Já faz alguns minutos que a motorista havia estacionado na frente do Suvaco Seco, mas ela não consegue se motivar a fazer mais nada. Já são 5 da manhã, e há trabalho a ser feito.

Ela acorda os passageiros, e, enquanto os outros dois se levantam, ela entra no bar e senta numa cadeira. Não é a mesma senhora gentil de sempre que a atende, e sim um funcionário que ela nunca havia visto antes.

“Vai querer um cafezinho, moça?”.

Dara encara-o por vários segundos seguidos, e ela não consegue responder ao jovem. Ela não é burra e nem normalmente teria dificuldades com uma interação simples, mas a quebra de expectativa a deixou completamente atordoada.

“Três cafés, por favor”. A voz do Chico ecoa atrás dela. Lírio está junto a ele, e sussurra algo no seu ouvido. “Dois cafés e um suco, por favor”.

Uma onda de alívio é expelida pelo peito da mulher, e o atendente sai para pegar os produtos. Enquanto isso, seus amigos sentam junto a ela na mesa de plástico da Icapibara, e Chico começa a apontar algo em seu “Smartphone”.

“É que nem o da nossa época, mas ele consegue portar tipo, 10 vezes mais jogos. Sem cartão de memória”.

“Chico, a gente não têm condição nenhuma de comprar um console agora”.

“Eu deixo você jogar! Além do mais, a Ordem tá pagando a gente, então dinheiro não vai ser tanto problema”.

“Não é questão de dinheiro. Esse não é o momento”.

“Olha, esse jogo aqui é tipo uma Tamagotchi, mas você toma conta de uma cidade inteira”.

“Chico, vai passar o dia todo jogando quando a gente têm trabalho pra fazer, porra”. Acrescenta Lírio.

Enquanto o homem continua seu discurso sobre todas as qualidades de um jogo a “1080p e 60 fps”, Dara avança até o balcão e paga pelo café. O atendente olha estranho para ela, mas nenhum dos dois fala nada – ela somente desliza o dinheiro na madeira.

Mudança. Antigamente, Dara não se importava com ela. Como parte da “nova geração”, ela sabia que tudo estava fadado a mudar, e que ela estaria mudando junto. Somente os velhos chatos e os idiotas mais conservadores eram contra o avançar da história.

Mas… Hoje em dia, seu pensamento era diferente. A mudança e o tempo levaram tudo que ela já amou, e levaram o seu próprio amor junto. Talvez ela ainda estaria junto de Chico, divagando sobre jogos a 120 frames por segundo, mas o coração dela estava estagnado.

Não nos anos 90, mas na TV Varminho, onde ela deixou todas as suas emoções para nunca mais poder recuperá-las. Essa nova tecnologia só representa algo interior que Dara atualmente teme: a inevitabilidade do Conhecimento, sempre a avançar, deixando todos os outros para trás.

E ela havia ficado para trás.

Quando se dá por si, Dara se vê de volta na van sem seus amigos, com a cabeça contra o volante. Diferente de Chico e Lírio, ela não havia ido lá para chorar e nem para quebrar nada. Ela não conseguia mais chorar. Ela não conseguia mais gritar e espernear.

Ao invés disso, ela encara o rádio desligado como se o dispositivo fosse lhe dar novas respostas. Não faz sentido que a Transmissão esteja por perto, mas, no fundo, ela deseja que o rádio comece a chiar. Que ele comece a levá-la para um mundo em que ela não sinta falta de nada.

Devia ter sido ela.

Dara cria pressão nos seus olhos, mas nenhuma lágrima cai. Ela abre a pálpebra e passa o seu dedo nu contra a sua íris, e as gotas começam a sair.

Mas não é o suficiente.

Dara saca o primeiro item que encontra no veículo: um skate pendurado na parede em homenagem. Ela começa a bater o plástico contra o seu rosto, criando machucados e sangramentos cada vez mais sérios. Tudo que ela sente é dor, mas nada mais.

Mas não é o suficiente.

As lágrimas são vazias. A dor é vazia. Sua vida é vazia. Ela nunca deveria ter sido salva, não – não havia mais ninguém para salvar. Ela se pergunta se talvez a solução fosse se machucar ainda mais. Talvez, se os ferimentos se tornarem piores, a intensidade finalmente vai permitir que ela sinta.

Se ela acabasse morrendo como resultado, não seria um resultado indesejado.

Dara sente muita falta de si.

“Darinha?”. Chico bate na porta da van. “Posso entrar?”.

Ela pensa em esconder seus machucados, mas não havia tempo para ela fazê-lo sem que ele percebesse.

“Entra”.

Chico abre a porta, e seu rosto entra em desespero ao olhar para o rosto ferido da companheira.

“Dara? O que aconteceu?”.

“Eu caí”. Ela saca seu espelho e começa a tratar os machucados. “Acha que esse queixo vai precisar de costura?”.

“Dara, você não caiu”.

“Uma Criatura me atacou”.

“Que? Você acha que… Olha, Dara eu não sou burro”.

“Não importa Chico. O que nós somos agora?”.

“Você fez isso consigo mesma? Com esse skate?”.

“Nós somos os 5, né? Eu, você, Lírio, Guizo e Xande”.

“Do que você tá falando?”.

“Nós somos felizes. Nós somos família. Mais que família, na verdade?”.

“Dara, como assim?”.

“Isso acabou, Chico”. Seu rosto é triste, mas ela teme que não haja nenhuma tristeza verdadeira. “Os Cinco não existem mais”.

“Esse é o problema? Você sente falta deles? Dara, eu também sinto, muito mesmo. Você sempre pode falar comigo”.

“Agora é como se eu não soubesse mais conversar. Toda comunicação que sai da minha boca… É mal-entendida”. Ela deixa o amigo sem palavras. “Chico, a Dara merecia ser salva, mas essa Dara não existe mais. Resta apenas essa casca vazia, e, por ela, o Xande se sacrificou. Foi tudo por nada”.

“...”.

“O Cinco acabou. A Dara acabou. Era melhor que vocês tivessem me esquecido”.

“Eu nunca poderia te esquecer”.

“Infelizmente”.

“Felizmente”. Chico está chorando copiosamente, e a mulher se sente desconfortável pela inveja de algo que ela não têm. “Felizmente, eu nunca vou esquecer você. Eu nunca vou esquecer o Xande. Eu nunca vou esquecer o Guizo”.

“Todas essas pessoas estão mortas”.

O som do silêncio é interrompido somente pelos soluços de Chico e pelos barulhos de uma cidade que está acordando. “Tá… Entendi”.

“...”.

“Você não é mais a Dara”.

A mulher faz um sorriso, mas ela rapidamente nota que este é forçado.

“Qual é o seu nome?”.

“Que? Como assim”.

“Você não é a Dara, então qual é o seu nome?”.

“Chico, não seja tonso”.

“Não é isso. A Dara pode ter morrido, mas essa pessoa que eu estou olhando. Ela existe. E eu amo ela tanto quanto eu amava a Dara”.

“...”.

Ele abraça a mulher. “Você não precisa chorar. Mas, você também me ama como a Dara nos amava. Você ainda sente como a Dara sentida. A falta que você sofre, ela prova que ainda há alguém aí”.

Ela inconscientemente limpa as lágrimas de Chico.

“Todos nós sentimos algo parecido. Eu sei que você passou por muita coisa, mas estamos todos deslocados. Estamos todos solitários. A única coisa que nós temos é você, e que você têm é a gente.

“Desculpa, Chico”.

“Não se desculpa. Você não é vazia, Dara. Ninguém precisa chorar para ter sentimentos. Como for que você expresse eles, eu vou estar aqui para te apoiar”.

Ela pausa por alguns segundos. Não é o vazio que ela sente. Na verdade, existe algo nas profundezas do seu coração. Ela não sabe o que é, e nem consegue identificá-lo através das centenas de camadas que seu cérebro colocou na passagem. “Não é fps que indica a qualidade de um jogo”.

“Quê?”.

“O jogo pode ter 60, 600, 6.000 fps, tanto faz. No fundo, é o mesmo que na nossa época. No fundo, o jogo precisa ter paixão. Essa regra nunca mudou.

Chico sorri para ela, e, apesar dela não sorrir de volta, ele se sente satisfeito. Os dois voltam para terminar o café no Suvaco Seco.

“Ei Chico!”. Lírio está com um grande sorriso. “Eu acertei o dardo bem no meio do alvo, olha só!”.

A mudança pode ter levado muita coisa, mas, no fundo, algumas coisas continuavam as mesmas.

Notes:

Já falei que eu amo a Dara? Rapaz, eu amo muito a Dara. Juro que não é uma obsessão. Por sinal, eu amo muito a Dara.

Enfim, não têm muito segredo e nem nada que eu possa te contar sobre a fic, então não sei se vai ter algo de muito especial nas notas. Vou eventualmente escrever mais sobre o fandom de Ordem, e talvez Deltarune, em breve? Sei lá.

Mais atualizações sobre fics como essa vão sempre sair no Tumblr e Twitter abaixo. Por enquanto eu tô com pouquinhos seguidores, então, se vc quiser ser moot comigo, é só me seguir. Por favor, ignore minhas obsessões malucas.
https://www.tumblr.com/jjjoki
https://x.com/Jokki_J21

Números são muito bonitinhos, mas, se você está lendo isso, dá um feedback! Tô tentando melhorar meu estilo e a minha escrita, então eu preciso da sua ajudinha sobre como o meu texto tá. Eu escrevo sobre uma campanha original, “Saga das Profecias”, então dá uma olhada lá se você se interessar.

IA generativa não foi usada de nenhuma forma em nenhuma etapa da criação desse texto. Eu não cedo nenhum consentimento para o uso das minhas palavras em qualquer espécie de treinamento de IA generativa.