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O Assassinato de Leonardo da Vinci

Summary:

Universidade Dom Pedro II—1886. A única instituição no hemisfério autorizada a realizar o Ritual do Retorno, onde figuras históricas ressucitadas percorrem os corredores como professores—ainda carregando as marcas indeléveis de suas mortes.

Lancelote Arthur Pendragon, órfão de Maragônia, de dezesseis anos, sonha em se tornar um Cavaleiro Arcano. Seus dias são uma mistura caótica da rotina inesperada da Universidade e as lições engenhosas de seu mentor, Leonardo da Vinci—que acredita que o garoto está destinado a algo maior.

Mas quando a sirene do Luctus Funebris rasga a noite, um som que jamais deveria soar para os já mortos, o corpo de Da Vinci é encontrado no observatório. Seu núcleo foi roubado, sua eterna segunda vida encerrada por um assassinato.

Agora, sob a Lua Sorridente, uma conspiração começa a se desvendar. E Lancelote deseja desvendar: quem matou Leonardo da Vinci?

Chapter 1: O Assassinato de Leonardo da Vinci (4,233k words)

Chapter Text

"Sabe qual é a pior coisa de se estudar em uma universidade onde eles revivem figuras históricas? Ter que aguentar os monólogos longos do JFK."

Universidade Dom Pedro II — Século 19

Lancelote contava os segundos, não os do relógio, aquele coelho roxo de madeira pendurado na parede, cujo olhos iam de um lado para o outro conforme os ponteiros. Esses eram fáceis demais, ele contava os segundos desde que John Fitzgerald Kennedy, 35º presidente dos Estados Unidos, abrira a boca pela última vez.

Trinta e sete segundos. E o homem simplesmente ainda não havia inspirado.

Isso era algo que os professores nunca mencionavam no primeiro dia de aula, quando apresentavam os Ressucitados aos alunos novos que chegavam.

Eles falavam sobre o privilégio de aprender com mentes que moldaram civilizações, o peso da história trazido de volta em carne e osso, e principalmente, a ponte entre eras que aquela instituição—a única no mundo com autorização legal para realizar o Ritual do Retorno—havia construído.

O que eles não mencionavam era que os Ressucitados traziam consigo a marca indelével da morte.

Era por isso que nenhum dos trinta alunos na Classe VII olhava diretamente para o rosto de JFK, não por maldade, é claro.

A marca se manifestava de formas diferentes em cada um.

Joana d'Arc por exemplo, estava sentada três fileiras à frente, ela tinha uma grande queimadura de terceiro grau na região de seu pescoço, por milagre eles não ressucitaram ela com uma aparência ainda pior.

Quanto à Kennedy... bem, Kennedy tinha seu rosto...

Lancelote já cometera o erro de olhar diretamente para ele na primeira semana de aula.

Vira o instantâneo exato do impacto, seu crânio era aberto como uma flor deformada, o olhar que se apagava antes mesmo do corpo começar a cair.

Após isso, como todos os outros, aprendera a focalizar um ponto além do ombro do homem, aquele broche de bandeira americana na lapela de seu terno, ou o gesto hipnótico de suas mãos cortando o ar enquanto discursava.

— ...e assim, meus jovens, quando perguntarem à vós o que podeis fazer pelo vosso país, lembrai-vos de que o sacrifício não é o fim, mas o começo da verdadeira servi...

*cutucão*

*cutucão*

— Que foi, Andere?

O cutucão veio duas vezes. A primeira, discreta como um terremoto. A segunda, nem tanto.

Lancelote virou a cabeça para o lado, encontrando o rosto largo e de ossos protuberantes de seu melhor amigo.

Andere era um meio-gigante—o que significava, na prática, que ele tinha dois metros e vinte aos dezesseis anos, ombros que mal cabiam na cadeira de madeira de carvalho, e o tipo de sorriso que prometia encrenca antes mesmo das palavras saírem de sua boca.

Sua pele tinha o tom moreno bronzeado característico de sua linhagem, dentes pequenos que se enfileiravam dentro de sua larga mandíbula.

— Essa aula tá mó chata, cara. — Andere tentou sussurrar.

O problema é que o conceito de "sussurro" para alguém cujos pulmões tinham o tamanho de foles de gaita, era um conceito bem ambíguo.

O som que saiu da garganta do meio-gigante poderia ser descrito como um trovão envergonhado. Três cabeças viraram-se quase em uníssono.

Joana d'Arc, também, talvez amiga, ou melhor, "responsável involuntária" dos dois, seu olhar atravessou a fileira com a precisão de uma flecha. Sua pele pálida francesa, iluminada pela luz mistica que flutuava acima no teto da aula, Joana tinha um cabelo chanel loiro que caía sobre sua nuca.

— O que vocês tão tramando? — perguntou ela, e mesmo o tom materno não conseguia esconder a centelha de guerreira que ardia em suas pupilas.

Bianca Borgia, sentada ao lado de Joana, nem sequer virou o rosto. Seus olhos permaneceram fixos em algum ponto no quadro-negro, mas seus dedos pararam de mover a caneta que ela segurava.

E Constança também virou-se por completo, seus cachos castanhos saltando sobre os ombros. Havia algo no rosto dela que lembrava as pinturas oficiais de seu pai—Simón Bolívar—mas suavizado, com sardas espalhadas pelo nariz como constelações particulares.

— Ué, eu nem disse nada. — Andere ergueu as mãos enormes em defesa.

— Andere tem razão. — Lancelote interveio, ajustando o cabelo loiro para trás das orelhas. O gesto era automático, quase um tique nervoso. — Nós só estávamos... contemplando. A eloquência. Do senhor presidente.

Bianca finalmente virou o rosto — apenas o suficiente para que a luz pegasse o contorno de seu maxilar, e Lancelote observou nela o que todos viam quando olhavam para a filha dos Bórgia: uma beleza fria, calculista e perigosa. Dizia-se que ela havia herdado de seu pai a habilidade de sorrir enquanto planejava sua próxima apunhalada.

— Tô sabendo legal. — disse Joana, de forma sarcástica.

— Mas, sair assim do nada talvez não seja muito elegante... — continuou Lancelote, ignorando o tom dela.

— Olha quem tá falando. — Joana zombou, fazendo beicinho. — O garotinho que quer entrar pros Cavaleiros Arcanos.

O sangue subiu às bochechas de Lancelote. Ela tinha apenas dois anos a mais que ele, mas falava como se fosse uma matrona romana e ele uma criança chorosa. E pior: ela acertara em cheio.

Os Cavaleiros Arcanos eram a elite da elite. A ordem de combatentes mágicos mais antiga do continente, fundada nos primeiros dias da Universidade, quando ainda se acreditava que feitiços e pólvora não podiam coexistir.

Eles haviam lutado na Independência, na Confederação, na Guerra dos Farrapos. Eram lendas vivas, exatamente o que Lancelote sonhava em ser desde os sete anos, quando viu um deles—uma mulher de armadura prateada e olhos de fogo—derrubar um basilisco no pátio central com um único movimento de sua lança.

— Tá, grande merda. — Lancelote cruzou os braços, com cara de tédio que não enganava ninguém.

Andere riu baixo—uma vibração que subiu pelo ar. Joana abriu a boca para retrucar, mas foi interrompida por um som que todos os alunos conheciam melhor que o hino da Universidade.

*Triiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmmm*

A sirene.

O barulho vinha de um mecanismo instalado no campanário central—um artefato de bronze e cristal que exigia três magos especializados para operar. Seu som perfurava a realidade como uma agulha, ecoando não apenas nos tímpanos mas em toda a universidade.

Kennedy parou no meio de uma palavra. Por um momento, seu rosto pareceu hesitar entre continuar e reconhecer o fim. Depois, lentamente, seus ombros caíram.

— Retomaremos na próxima quinzena. — disse ele, tristemente, havia algo de profundamente cansado em sua voz. Como se mesmo na ressurreição, o homem ainda estivesse tentando terminar um discurso que o mundo interrompeu.

Os alunos se levantaram em desordem elegante. Mochilas foram fechadas, varinhas guardadas em coldres de couro, adagas embanhadas, grimórios empilhados em braços. A Classe VII, assim como as outras trinta e duas classes do Ensino Médio da Universidade Dom Pedro II, estava livre até o anoitecer—quando os estudos com os mestres particulares começariam.

Lancelote pegou sua bolsa a tiracolo e seguiu o fluxo dos corpos em direção à porta dupla de carvalho entalhado. Andere caminhava ao seu lado. Joana e Constança os alcançaram no corredor, Bianca flutuando alguns passos atrás como uma sombra perfumada a almíscar.

— Para onde vocês vão agora? — perguntou Constança, ajustando a alça de seu bandolim — ela era uma das poucas alunas que preferia música arcana a varinhas tradicionais.

— Biblioteca Central. — respondeu Lancelote. — Tenho que revisar a teoria das transformações antes da aula com o mestre Da Vinci.

— Sortudo você. — Joana sorriu de lado. — Leonardo da Vinci é um bom homem, as vezes seriamente me pergunto porque ele ensinara um garoto tão travesso como você enquanto eu...

— Isso foi porque você pronunciou o terceto na ordem errada. — Bianca finalmente falou, em tom de voz melíflua, como seda sobre uma lâmina.

Joana lançou-lhe um olhar que prometia fogueiras, ironicamente. Mas nada disse. Até mesmo a Donzela de Orléans sabia quando era melhor não discutir com uma Bórgia.

O grupo se separou no átrio principal, onde as estátuas dos quatro fundadores da Universidade vigiavam em silêncio.

Lancelote e Andere viraram à esquerda, em direção ao corredor que levava à ala oeste, e foi ali—caminhando sob os arcos góticos cobertos de hera fluorescente, passando por vitrais que contavam a história da Independência em fragmentos de luz colorida—que a verdadeira magnitude do lugar se impôs sobre eles.

A Universidade Dom Pedro II não era apenas uma escola.

Era uma cidade dentro da cidade. Um país dentro do país.

Fundada em 1842 por decreto imperial, quando D. Pedro II havia sido reeleito pela Ordem dos Arquimagos Imperiais, com olhos de sonhador e uma obsessão pelo conhecimento que beirava a loucura, a instituição começara como um pequeno colégio para jovens bruxos e bruxas da corte. Mas cresceu. Alimentada pelo descobrimento do Vazio Eterno—uma fenda na realidade onde a morte perdia seu significado absoluto—a Universidade se expandiu como um organismo vivo, engolindo quarteirões inteiros e distorcendo o espaço para caber torres que não deveriam caber.

Agora, em 1886, a Universidade Dom Pedro II era o maior centro de ensino arcano do Hemisfério Vaticano. Seus domínios se estendiam por quase um quilômetro quadrado de território extradimensional, abrigando ao todo:

— Sete faculdades principais (Arcanos Aplicados, Alquimia Histórica, Bestiologia Comparada, Necro-Magia Ritualística, Engenharia de Realidades, Medicina de Sombras e, a mais nova e controversa, Política Espectral).
— Trinta e duas classes de ensino médio, cada uma com quarenta alunos em média.
— Um total de 1.280 estudantes, vindos de todas as províncias do Império e de reinos vizinhos.
— Um número desconhecido de Ressucitados—figuras históricas trazidas de volta para servir como professores e mentores.
— E inúmeras outras criaturas, entidades e seres que desafiavam qualquer classificação taxonômica.

Enquanto Lancelote e Andere passavam ao lado da Taverna da Caveira Boêmia (onde um grupo de alunos mais velhos já começava a beber hidromel das canecas de estanho), o interior da Universidade já era estúpidamente grande, mas o lado de fora podia ser ainda maior.

Um centauro com uniforme de segurança montava guarda perto dos portões secundários, sua lança cerimonial brilhando com feitiços de alerta.

Duas gárgulas descansavam em pedestais de mármore, petrificadas temporariamente enquanto cochilavam sob o sol filtrado pelos encantamentos. Um grupo de fadas-livres—pequenas criaturas translúcidas com asas de libélula—voava em círculos ao redor de um globo terrestre flutuante, atualizando as fronteiras políticas com pinceladas de luz prateada.

E então, claro, havia os alunos, a diversidade ali era presente.

Elfos das florestas com suas marcas faciais pintadas de azul.

Anões das minas de Ouro Preto com suas barbas trançadas e carregando martelos nas costas.

Sátiros de pernas felpudas tocando flautas improvisadas nos corredores.

Vampiros da corte europeia, enviados para estudar no exílio, com seus guarda-sóis de seda negra e sorrisos que mostravam presas delicadas.

Lobisomens com uniformes ajustados para acomodar suas caudas.

E humanos, muitos humanos, aqueles seres de potencial ilimitado, todos com suas próprias histórias, técnicas e tragédias.

Lancelote se sentia pequeno ali. Não no sentido físico—seus 1,75 metro e seus ombros estreitos eram medianos para um humano de dezesseis anos—mas no sentido espiritual. Como se a Universidade inteira fosse uma criatura gigante e ele fosse apenas uma célula correndo por suas veias.

— Ei. — Andere cutucou-o novamente, dessa vez mais suavemente. O que significava que Lancelote quase tropeçou. — Você tá fazendo aquela cara de novo.

— Que cara?

— A cara de "eu quero ser herói mas não sei como começar".

Lancelote suspirou. Andere o conhecia bem demais. Eram amigos desde os oito anos, quando Lancelote chegara à Universidade vindo de uma pequena vila do interior de Maragônia, órfão de pai, filho de uma mãe que mal conseguia pagar as mensalidades. Andere fora seu primeiro amigo, talvez por também ser um forasteiro—meio-gigantes eram raros na corte, geralmente tratados como curiosidades ou ferramentas de trabalho pesado.

— Não é isso. — mentiu Lancelote. — É só... você já parou para pensar em como tudo isso é estranho?

— O que exatamente?

— Isso. — Lancelote gesticulou amplamente com as mãos, abrangendo o corredor e tudo mais.

— Essa universidade. Os Ressucitados. O fato de que eu tenho uma aula com Thomas Jefferson amanhã sobre Democracia e Encantamentos de Vínculo. O fato de que Dom Pedro II — o imperador — às vezes aparece no meio das aulas para "ouvir as opiniões dos jovens". É... muito.

Andere coçou a cabeça, fazendo uma careta de pura confusão, arqueando as sobrancelhae largas.

— Você pensa demais, cara. — concluiu ele, com a sabedoria simples de quem tinha inteligência suficiente para saber que pensar demais bagunçava a mente, e a inteligência excessiva era uma maldição. — É uma escola. Tem professores chatos, provas difíceis, e uma cantina que serve bolo de cenoura maravilhoso. O resto é... vamos dizer, decoração.

Lancelote riu, um riso curto, quase involuntário. E talvez Andere tivesse razão. Talvez ele estivesse complicando demais...

— LANCELOTE ARTHUR PENDRAGON!

O grito veio de trás deles, cortando o burburinho do corredor como uma espada através de seda. Era uma voz masculina, autoritária, com sotaque italiano puxado e um tom que sugeria que seu dono não estava acostumado a ser ignorado.

— Ah, não. — murmurou Lancelote, fechando os olhos.

— Ah, sim. — Andere sorriu, afastando-se um passo. A covardia traiçoeira de um melhor amigo.

Lancelote sentiu o nome ecoar como um feitiço de convocação malfeito, daqueles que prendem o alvo no lugar antes de arrastá-lo. Virou-se devagar, já sabendo o que encontraria.

Leonardo da Vinci marchava pelo corredor com a capa salpicada de tinta e giz, os olhos cinzentos faiscando sob as sobrancelhas espessas. O homem não envelhecia—ou melhor, a ressurreição o mantinha preso em algum ponto entre os cinquenta e os sessenta anos, com sua barba longa e branca na altura do peito, ele mantinha consigo uma boina em sua cabeça.

— Lancelote Arthur Pendragon! — repetiu, a voz cortando o ar. — Cinco minutos, rapaz. Cinco. Desde que a sirene parou de uivar e você ainda estava trocando confidências no corredor como se o tempo fosse um luxo que eu pudesse lhe conceder.

Mãos firmes, manchadas de óleo e pigmentos, agarraram o ombro de Lancelote e o puxaram para frente, alguns alunos mais adiante pararam para observar, bocas curvadas em sorrisos discretos ou risadas abafadas que morriam rápido sob o olhar do mestre.

Lancelote tropeçou no ritmo apressado do inventor, subindo as escadas de pedra espiraladas que rangiam como ossos antigos.

— Mestre, eu só...

— Só nada. — Da Vinci o interrompera sem diminuir o passo. — Os estudos astrológicos não espera por burburinhos de corredor.

No patamar, o inventor tocou um painel de bronze polido. O ar ondulou, um elevador de teletransporte materializou-se com um zumbido baixo e frio. Entraram. Um instante de escuridão giratória, e o mundo se recompôs no Andar do Observatório.

O cômodo era amplo, circular, dominado por uma cúpula de vidro encantado que mostrava o céu noturno mesmo durante o dia. Mapas estelares eram desenhados nas paredes, no laboratório de Da Vinci, máquinas de engrenagens bronzeadas giravam sozinhas em cantos escuros, e o cheiro de pergaminho velho misturava-se ao ozônio de feitiços recentes.

Da Vinci soltou o ombro dele e gesticulou para uma cadeira perto da mesa central.

— Sente-se. E fale o que realmente o incomoda antes que eu perca a paciência com essa sua cara de quem carrega o peso do mundo nas costas.

Lancelote sentou-se, hesitante. As palavras saíram baixas no início, depois ganharam força.

— Eu quero ser um Cavaleiro Arcano. De verdade. Não só sonhar com isso. Quero estar lá fora, enfrentando o que quer que venha do Vazio, protegendo o Império como eles fazem. Mas parece que toda vez que penso nisso, alguém me lembra que sou só um órfão de Maragônia. Que não tenho linhagem forte o suficiente.

Da Vinci ficou em silêncio por um momento, de costas para ele, ajustando um astrolábio sobre a mesa. Quando falou, sua voz tinha o peso de séculos que ele realmente vivera.

— Sonhos não pedem permissão, Lancelote. Eles nascem teimosos, como ervas daninhas em solo rachado. Eu passei anos desenhando máquinas que o mundo dizia impossíveis. Voar? Ridículo. Pintar almas em tela? Blasfêmia. E ainda assim aqui estou, respirando de novo, ensinando garotos que sonham alto demais.

Lancelote dizia, agora mais calmo, em um tom quase paternal. — Você é único Lancelote. Eu sei disso. Portanto, vá trás. Não deixem que tentem segurar. O atrito só afia a lâmina. Se o caminho for bloqueado, construa outro. É o que sempre fiz.

Lancelote sentiu algo soltar no peito. Respirou fundo e se levantou, caminhando até um quadro grande coberto por um pano escuro. Puxou o tecido sem pensar.

O espaço onde deveria estar a Mona Lisa estava vazio. Apenas a moldura dourada e um fundo de paisagem enevoada.

— Ela... sumiu? — perguntou, surpreso.

Da Vinci deu de ombros, um sorriso cansado nos lábios.

— Foi embora. Saiu da tela uma noite dessas, disse que estava cansada de sorrir para sempre. Despediu-se educamente e deixou um bilhete educado. Estou bem com isso. Algumas criações precisam voar sozinhas.

O mestre mudou de assunto com a fluidez de quem já vira muitas coisas estranhas.

— Agora, venha cá ver isto. É meu novo projeto.

Ele puxou um aparato metálico coberto de runas, algo entre uma caixa de relógio e um coração mecânico. Dentro, pulsava uma luz fraca instável.

— Estou estudando a transferência do núcleo de um Ressuscitado para objetos inanimados. Imagina: preservar a essência de uma mente brilhante sem o corpo frágil que a morte marcou. Mas é muito perigoso. O núcleo rejeita o receptáculo na maioria das vezes. Já perdi dois autômatos esta semana. Explosões pequenas, mas... memoráveis. Ainda não está pronto.

Ele suspirou profundamente.

— Talvez eu nunca termine isto... a morte realmente não gosta de ser negociada.

Conversaram por horas. Da Vinci corrigiu exercícios, demonstrou gestos precisos de transformação, contou anedotas de Florença que pareciam ter ocorrido ontem.

Quando Lancelote finalmente desceu as escadas, o céu além dos vitrais já escurecera para um roxo profundo.

Nos dormitórios, o corredor cheirava a incenso e cera de vela. Abriu a porta do quarto compartilhado e encontrou Joana d’Arc já deitada na cama larga que dividiam—um arranjo imposto pela superlotação e pela insistência dela em "manter o garoto fora de encrenca".

Ela lia um grimório à luz de uma vela flutuante, o cabelo loiro solto sobre os ombros.

— Chegou tarde, hein — murmurou ela, sem erguer os olhos. — Andere já foi se lamentar com o JFK. Azar o dele.

Lancelote sorriu de leve, tirando as botas.

— Pelo menos o seu monólogo de hoje já acabou.

Joana bufou uma risada baixa, fechando o livro. A escuridão do quarto os envolveu.
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Era uma daquelas madrugadas em que a Universidade Dom Pedro II parecia engolir o próprio tempo.

A lua sorridente, um crescente oblíquo e perpétuo que rasgava o manto negro do céu, pendia-se como um espelho rachado. Seus raios prateados e frios atravessavam as altas janelas ogivais do edifício principal, filtravam-se pelos vitrais que narravam grandes feitos alquímicos, e finalmente se derramavam, pálidos e líquidos, pelo andar do Departamento de Maquinaria Inteligente.

As outras sirenes doíam nos tímpanos, arranhavam os nervos, anunciavam o fim da aula ou o início de um simulado de invasão. Esta não. Esta perfurava algo mais fundo — o osso, a medula, o lugar onde a alma se encostava para descansar.

Lancelote acordou com o som vibrando em seus dentes.

Por um momento, não entendeu onde estava. O teto com manchas de umidade. A cama vazia ao lado. O biombo de seda balançando como se uma brisa invisível o tocasse.

— Joana?

Ninguém respondeu.

Ele sentou-se tão rápido que o sangue desceu latejante para as mãos. O quarto estava escuro, exceto pela luz que entrava pela janela, um clarão laranja e intermitente, como tochas carregadas às pressas.

A sirene continuava sem parar, agora mais baixa, mas ainda assim alta o suficiente para que vibre pelas paredes, as luzes piscavam em vermelho.

Lancelote colocou os pés no chão frio. A pedra parecia mais gelada que o normal, como se a Universidade inteira estivesse entrando em choque.

A porta do dormitório estava entreaberta.

Ele não se lembrava de ter deixado assim.

Do lado de fora do quarto, o corredor feria os olhos. Tochas que nunca queimavam tão alto agora crepitavam em labaredas azuis—fogo-fátuo de emergência, o tipo que só se acendia quando algo havia morrido dentro dos muros sagrados.

Alunos em pijamas se aglomeravam em pequenos grupos, sussurrando, ele vira ao longe, Joana estava apoiada na parede oposta.

Seu pijama era uma camisola branca, fina demais para a noite, e a queimadura de seu pescoço parecia mais escura do que Lancelote jamais vira.

— Joana.

Ela não olhou para ele. Seus olhos estavam fixos em algum ponto distante do corredor, onde o fluxo de pessoas se tornava mais denso.

— O que houve? — Lancelote agarrou o ombro dela. — o Luctus Funebris. É um Ressuscitado, não é? Alguém morreu.

Joana finalmente desviou o olhar. Havia algo em seu rosto que Lancelote nunca vira nos olhos da Donzela de Orléans, Era um vazio. Como se ela já soubesse o que ele ainda estava prestes a descobrir.

— Vai, Lancelote. — A voz dela saiu estranha... plana. — Você precisa ver.

— Ver o quê?

Ela não respondeu. Apenas afastou-se da parede e apontou para o fim do corredor, onde uma multidão se formava como água acumulando em uma represa.

Lancelote correu.

Seus pés descalços batiam na pedra fria, e cada passo ecoava como um tambor funerário. Ele passou por grupos de alunos que se afastavam para deixá-lo passar—alguns por reconhecimento, outros por medo da expressão que ele carregava no rosto.

Um centauro de uniforme tentou bloqueá-lo com a lança.

— Ei, aluno! Você não pode—

Lancelote desviou sem pensar. Seu ombro roçou a barriga peluda do centauro, e ele seguiu em frente.

O corredor se alargou. As tochas azuis se multiplicaram. E então ele chegou à escadaria principal.

Os duzentos e quarenta e três degraus.

Dessa vez, não havia música sob seus pés. A pedra estava muda. Silenciosa. Como se os degraus também estivessem de luto.

Lancelote subia dois—três de uma vez. Suas panturrilhas queimavam, mas ele não sentia. Seus pulmões pediam ar, mas ele não respirava. Havia apenas a subida, a tocha azul no topo da escada, e a certeza crescendo em seu peito como uma flor venenosa.

Não...

Não.

Não!

O átrio do elevador de teletransporte estava vazio. A plataforma de bronze oscilava fracamente, suas runas piscando em vermelho—código de interdição.

Alguém havia bloqueado a passagem.

Lancelote não pensou duas vezes. Correu rapidamente para a escada de serviço, um estreito caracol de pedra que os funcionários usavam quando os elevadores falhavam. As paredes suavam umidade, e o ar cheirava a mofo e ferrugem.

O último andar.

A porta do observatório estava aberta, como se alguém tivesse entrado como quem volta para casa.

A luz que vinha de dentro não era azul.

Era branca. Prateada. A luz da lua sorridente, oblíqua e perpétua—derramando-se pelas claraboias do teto abobadado, iluminando cada fragmento de vidro, engrenagem, cada frasco esquecido sobre as prateleiras.

E o corpo.

Lancelote entrou.

Seus pés descalços tocaram o chão de madeira, e ele ouviu o rangido—o mesmo rangido do banco desconfortável onde sentara horas atrás.

O mestre estava deitado no centro da sala.

Braços abertos. Pernas ligeiramente separadas. A cabeça inclinada para a esquerda, os olhos semicerrados como se contemplasse algo muito distante.

O corpo estava na posição do Homem Vitruano.

E abaixo dele, desenhado no assoalho em giz vermelho, o círculo e o quadrado perfeitos, a figura humana inscrita na geometria sagrada. O desenho estava lá antes? Lancelote não sabia. Talvez sempre estivesse, e agora...

A túnica de Leonardo estava aberta no centro do peito, entre as costelas que se desenhavam sob a pele enrugada, havia um buraco.

Não era um ferimento sangrento. Não escorria nenhum sangue dali, o buraco era negro, como uma ravina, a cor por si só era estranha—como um pedaço de noite recortado e colocado sobre o esterno. Suas bordas eram limpas, quase cirúrgicas, e a pele ao redor estava intacta.

Apenas o vazio.

Onde deveria estar o núcleo, a essência que mantinha um Ressucitado ancorado no mundo—não havia nada.

Lancelote caiu de joelhos, a madeira lascada cortando sua pele dos joelhos, ele nem sentira. Seus olhos estavam fixos no rosto de Leonardo, na expressão que o mestre carregava na morte.

Era... surpresa. Como se, nos últimos segundos, Da Vinci tivesse descoberto algo extraordinário.

Os olhos de Lancelote encheram-se de água quente, mas o choro não veio. Apenas o soluço que se recusava a escapar, preso em sua garganta.

A lua sorridente banhava o corpo de Da Vinci.

Eryk, o guarda, era um homem magro com tatuagens de proteção nos braços e uma cicatriz que dividia sua sobrancelha esquerda—ainda estava encostado na parede, seu rosto estava pálido como giz, não ousando se aproximar de Lancelote.

— Eu estava fazendo a ronda — disse ele, a voz trêmula. — A sirene tocou sozinha. Não... não era pra tocar. Os Ressucitados não disparam o Luctus. E-eles já estão mortos. Não podem morrer de novo.

— Podem, sim — sussurrou Lancelote, e sua própria voz soou estranha aos seus ouvidos. Distante. Como se viesse de outro lugar. — Se roubarem o núcleo.

Eryk empalideceu mais ainda.

— Quem faria uma coisa dessas?

Lancelote não respondeu. Suas mãos tremiam abertas sobre os joelhos.

Ele não ousou tocar o corpo, os legistas chegariam depois, ele agora apenas podia observar o corpo de Leonardo, aquele homem que o arrastara pelos corredores, pedindo que ele vá atrás do seu sonho.

E então seus olhos fecharam-se com força, ele permaneceu ali de joelhos.

Lancelote fechou os punhos com tanta força que as unhas abriram cortes em suas palmas.