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Conflito de Interesses

Summary:

"Você é desprezível." Kiyoomi rosnou entre dentes.
"Você é odioso." Atsumu devolveu na mesma intensidade.
E então eles chocaram seus corpos e bocas em um beijo desesperado.
Eles não se suportavam e não escondiam isso de ninguém.
Mas também estavam apaixonados e não conseguiam mais esconder isso um do outro.

Notes:

Long fic de 14 capítulos que já está toda escrita =)

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Capítulo 1 - Ok, me processe

Chapter Text

Kiyoomi não aguentava mais.

Todos os dias pela manhã, ele era recebido aos berros quando chegava no vestiário do MSBY. Agora que Hinata havia se juntado ao circo já armado por Bokuto e Atsumu, qualquer sonho de ter um dia de paz se tornava inalcançável.

Ele não conseguia lidar com eles, especialmente com aquele que aparentemente era o dono do picadeiro. Miya Atsumu era talvez a única criatura no mundo tão detestável quanto ele, mas de uma maneira exatamente oposta. E isso revirava os nervos de Kiyoomi.

"Omi-Omi, cortou o cabelo, hein! Isso significa que você vai na confraternização hoje?" Atsumu estava perto demais, falando alto demais e supondo demais. Como sempre .

"Sim, talvez, e uma coisa não tem nada com a outra, Miya." Ele respondeu apenas o necessário, apenas por educação.

Infelizmente ele era profissionalmente obrigado a estar na confraternização daquela noite. O MSBY havia acabado de se classificar para o campeonato nacional e seria um evento em benefício deles com patrocinadores e imprensa, cheio de gente teoricamente importante. Do jeitinho que ele odiava .

Todos aqueles apertos de mão, conversas fúteis, poses para fotos, falsos sorrisos, comidas desagradáveis em porções pequenas e sim, uma mesa com o time todo gritando a noite inteira. Tudo isso orquestrava o cenário que fazia com que Kiyoomi considerasse mais de uma vez inventar qualquer desculpa que o livrasse do compromisso. Porém, ele tinha que fazer sua parte, afinal já havia aprendido que até mesmo isso também era vôlei.

Atsumu por outro lado parecia vívido com a oportunidade de mostrar seu sorriso e físico para as câmeras da imprensa e seus fãs, que sempre lotavam a entrada de eventos desse tipo. Ele era naturalmente o galã do time e cumpria seu papel com maestria. Talvez não por muito mais tempo, agora que Hinata poderia se candidatar para tomar seu lugar.

Dentro de quadra todas essas diferenças desapareciam. Eles jogavam como uma unidade e se respeitavam além de qualquer diferença. Kiyoomi talvez nunca pontuasse isso em voz alta, mas Atsumu havia se tornado o melhor levantador para ele . Em linhas gerais Kageyama ainda era o mais habilidoso mas apenas Atsumu entregava todos os levantamentos que ele pedia. E isso era ótimo. Ele poderia suportar essa conexão.

Apesar de julgar que Kiyoomi era muitas vezes um grosso sem tato fora de quadra, dentro dela, Miya Atsumu tinha vontade de literalmente gritar o nome dele a cada jogada perfeita executada. E de fato, às vezes ele fazia isso, mesmo que recebesse um olhar de desgosto vez ou outra quando seus gritos eram acompanhados de qualquer tentativa de contato físico.

O treino havia sido excelente. O time estava se adaptando a Hinata e encontrando uma nova dinâmica de jogo que com certeza elevaria sua performance nas partidas que estavam por vir. O clima geral no vestiário era de celebração por aquele fato e pela comemoração que teriam mais tarde. Claro que alguém tinha que estragar isso, e era quase sempre a mesma pessoa.

"Shou, você foi tão bem hoje! Quero ver a cara de orgulho do Tsukki no amistoso entre divisões contra os Frogs!" Bokuto pontuou sorrindo para ele e completou, infelizmente se dirigindo a pessoa mais próxima. "Não é verdade, Omi-Omi?"

"Até onde sei a escalação desse jogo é com o Barnes, mas claro, sempre existem substituições e saques de emergência." Ele estava apenas colocando os fatos mas recebeu um olhar horrorizado de Atsumu que lógico, ia se meter na conversa mesmo sem ser chamado.

"Você tem sempre algo desagradável pra dizer né, Omi-kun?"

"Se a verdade é desagradável pra você, Miya-san, sim ."

Eles se encararam sérios, todo o clima de comemoração anterior agora transformado em uma atmosfera tensa. Hinata tinha acabado de chegar e não queria que o time se desentendesse por uma besteira como aquela, então ele se colocou entre eles, explicando que de fato, Kiyoomi estava certo e de que ele não tinha pressa em estrear pois queria merecer sua posição.

Isso encerrou a discussão em voz alta mas não mudou o fato de que Atsumu e Kiyoomi praguejavam um para o outro em suas mentes, ocasionalmente trocando viradas de olho e se perguntando porque um jogador tão talentoso tinha que ser também um grande idiota.

*

Conforme combinado, o time chegou na confraternização praticamente no mesmo horário, todos vestidos de social da cabeça aos pés, o que era de fato uma visão rara e em muitos pontos agradável . Atsumu aproveitou as vantagens desse momento ao olhar Kiyoomi descaradamente da cabeça aos pés. Não era sem motivo que ele carregava oficialmente a posição de segundo galã do time, usando o ranking informal pela quantidade de presentes e cartas de amor encaminhadas em seu nome à sede do MSBY. Atsumu assobiou ao passar por ele, jurando a si mesmo que era apenas pelo prazer de vê-lo fazer uma cara de nojo horrorizada. Kiyoomi deveria aceitar melhor um elogio, afinal ele combinava mesmo com um bom traje a rigor. 

Atsumu calculava o bônus e ônus de arriscar dar um tapa na bunda dele quando os flashes o lembraram de que estava em público e no centro das atenções. Uma pena, ele tinha certeza que conseguiria ouvi-lo soltar um palavrão.

Eles então começaram a cumprir os seus papéis. Falaram com os fãs, fizeram seus primeiros comentários para a imprensa e posaram para algumas fotos. Por razões difíceis de digerir, Kiyoomi e Atsumu eram constantemente colocados lado a lado nas fotos. Talvez pelo contraste, eles gostariam de dizer, mas era na verdade porque a imprensa e crítica tinha eles no centro dos holofotes e os considerava uma dupla devido a sua dinâmica esmagadora em quadra durante as jogadas combinadas nas eliminatórias.

Então lá estavam eles, lado a lado no centro da foto em grupo, conforme os patrocinadores haviam solicitado. Kiyoomi podia jurar que tinha sentido Atsumu roçar a mão em sua bunda e naquele momento, se não estivessem em público, ele se permitiria esmagar a mão dele. O pensamento de fazer aquele sorriso sacana emoldurado em um rosto quase perfeito se contorcer em dor, pintou um sorriso amigável em seus lábios que com certeza ficou ótimo nas fotos.

Depois das fotos principais, cada "dupla" teve seu momento de destaque, e agora era o deles. "Miya-san pode se aproximar um pouco mais e colocar a mão no ombro do Sakusa-san?" Uma fotógrafa sugeriu. Kiyoomi quase abriu a boca para dizer ' não, ele não pode ' mas apenas engoliu as palavras, aceitando seu destino. Atsumu claro, não evitou um flerte.

"Claro, tudo para a fotografa mais bonita e talentosa da noite." Ele finalizou com uma piscadinha antes de colar seu corpo ao de Kiyoomi envolvendo o ombro dele com o braço, enquanto a profissional corava fotografando-os. Quando ela pediu para fazer mais algumas fotos apenas de Atsumu, Kiyoomi suspirou aliviado, colocando a máscara e seguindo seu rumo grato por ambos terem conseguido exatamente o que queriam.

Depois de todas essas formalidades, Bokuto e Atsumu ficaram para trás falando com fãs, e o restante do time entrou e tomou assento na mesa principal reservada para eles. Por bondade do destino, Meian se sentou ao lado de Kiyoomi e eles conseguiram trocar dois dedos de conversa fiada e um largo silêncio acolhedor que ele sabia, estava com os minutos contados quando Bokuto e Atsumu chegaram até eles.

Hinata não estava naquela comemoração pois o técnico planejava apresentá-lo de outra maneira em algum momento no futuro e ele agora era o tópico. O time estava combinando sair da festa um pouco mais cedo para encontrá-lo e fazer uma surpresa. Infelizmente Tomas e Inunaki já tinham outros compromissos marcados, mas Atsumu, Bokuto, Meian e Barnes seguiriam com o plano.

"E então está combinado! Você vai, Omi-Omi?" Bokuto perguntou incerto.

Apesar de tudo, Kiyoomi não era um monstro sem sentimentos e Hinata ainda não havia o irritado suficiente para que decidisse que não merecia sua consideração. Sem ter nada melhor para fazer naquela noite e apostando que Meian e Barnes manteriam o resto dos malucos sob controle, ele concordou. "Claro."

A resposta afirmativa e curta sem nenhum tipo de reclamação ou condição, fez Bokuto e Atsumu engolirem todos os protestos que já tinham preparado para convencê-lo. Quase morrendo engasgados, eles proporcionaram um doce silêncio incomum na mesa. Kiyoomi fez uma nota mental para tentar aquilo mais vezes.

Discursos, jantares, fofocas, conversa fiada e meio quilo de paciência depois, eles estavam agora espalhados pelo salão fazendo seu dever de socializar com os convidados até que alcançassem um horário aceitável para ir embora usando a justificativa de que afinal, atletas precisam manter a rotina. Uma rápida troca de olhares na hora marcada e eles despejaram suas desculpas seguindo um a um para o estacionamento.

Kiyoomi e Atsumu entraram juntos no elevador, um silêncio agradável e incomum entre eles até que o chão sob seus pés chacoalhou e o elevador parou, a luz apagou e voltou em seguida. Não era grande coisa. Eles estavam a apenas um andar do subsolo e sabiam que todo evento tinha bombeiros de plantão. Mantendo a calma, eles acionaram o botão de emergência e se organizaram. 

"Eu aviso Bokuto que ficamos presos e que alcançamos eles depois." Atsumu pontuou e pegou o celular.

"Vou pedir ao gerente do time para falar com os bombeiros, nem sempre esses botões de emergência estão funcionando." Kiyoomi esclareceu.

Eles cumpriram suas tarefas e suspiraram encostando cada um em um lado do elevador. Atsumu tirou o terno e afrouxou a gravata, em seguida, se apoiou com ambas as mãos nas paredes do elevador e fechou os olhos. Kiyoomi olhou para ele e precisou de pouca reflexão para entender a situação. "Miya, você é claustrofóbico?"

"Isso lá é hora pra me xingar, Omi?" Atsumu respondeu sorrindo ainda de olhos fechados. Ele engoliu seco e completou: "Sim, eu sou. Mas está tudo bem."

A testa dele suando e suas mãos tremendo indicavam o completo oposto daquela afirmação. Felizmente pouco tempo depois, eles ouviram a voz de um dos bombeiros vindo do interfone de emergência. Ele confirmou quantas pessoas estavam presas, se estavam bem e avisou que o problema já estava sendo investigado. Mas nem mesmo isso acalmou Atsumu que inspirava e expirava cada vez mais fundo.

"Eu vou me sentar, ok?" Atsumu avisou e se moveu lentamente até o chão. Ele apertava os próprios joelhos agora e sua respiração continuava acelerada. Kiyoomi não tinha nenhum conhecimento do que fazer naquele tipo de situação e ficar só assistindo era quase doloroso.

"Tem algo que eu possa fazer pra ajudar?" Ele tentou.

"Se… puder me distrair, conversar. Qualquer coisa." Atsumu pediu com a voz meio trêmula.

Essa não era exatamente a especialidade de Kiyoomi mas ele poderia tentar. "Você precisa melhorar o seu corte, toda vez que temos um levantamento de emergência em sua direção você faz uma finta. Ser tão previsível vai prejudicar o time."

Atsumu conseguiu sorrir. "Qualquer coisa boa , Omi!" Ele implorou, mas no fundo sua vaidade brilhou por ter uma pista de que Kiyoomi observava seu estilo de jogo tão de perto.

Os desafios nossos de cada dia, Kiyoomi pensou consigo mesmo vasculhando sua mente. "Seus saques melhoraram muito nessa temporada, uma taxa de erro de apenas 10% é algo excelente."

"Omi-kun me notou, estou no paraíso ." Atsumu respondeu abrindo um pouco os olhos e sorrindo para ele.

Kiyoomi fez seu melhor para não revirar os olhos. Aquela porcentagem havia sido revelada pelo técnico para todo o time. "Ouvir as reuniões poderia trazer benefícios para a sua carreira."

Quando Atsumu estava quase conseguindo respirar normalmente, o elevador balançou de novo. Dessa vez até Kiyoomi se segurou. As luzes apagaram e não voltaram mais. Atsumu quase engasgou tentando puxar algum ar. Ele ofegava alto e Kiyoomi estava começando a se desesperar por causa dele.

Ele tirou a máscara, pensando se talvez aquilo ofereceria algum apoio extra e tentou ser positivo. "Miya, está tudo bem. Pense que não estamos tão longe do chão." Apesar de saber que o ponto não era esse, Kiyoomi não sabia muito mais o que dizer.

Atsumu apenas meneou a cabeça em afirmação um pouco rápido demais, a testa franzida e os olhos fechados. Não parecia que ele era capaz de conversar agora. Felizmente o interfone ainda funcionava e o bombeiro falou com eles de novo, explicando que estavam lidando com uma pane de energia nos elevadores. Ele pediu que se sentassem, evitando o risco de quedas e lesões caso o elevador voltasse a balançar. 

Kiyoomi seguiu a orientação e se sentou ao lado de Atsumu que limpava o rosto com o terno. Ele pensava no que mais poderia dizer de agradável quando o elevador subiu um pouco e desceu alguns centímetros balançando com toda a força. Atsumu buscou algo para se segurar e acabou encontrando a mão de Kiyoomi, agarrando-a em desespero.

Mesmo naquela situação, Atsumu começou a abrir e fechar a boca tentando se desculpar apesar de não soltar a mão de Kiyoomi. A respiração dele se ordenando muito mais rápido do que das outras vezes. Não era preciso ser nenhum gênio.

"Se isso ajuda, tudo bem. Só não aperte tanto ."

Atsumu aliviou um pouco a força e balançou a cabeça em afirmação. Aquilo era tão diferente do Atsumu que Kiyoomi conhecia que ele estava quase comovido e realmente preocupado. A luz voltou e o bombeiro falou com eles avisando que iriam descer a cabine lentamente para resgatá-los no subsolo. Enquanto o elevador descia, Atsumu seguiu segurando a mão dele com força, aliviando aos poucos quando chegaram à terra firme e começaram a ouvir os bombeiros trabalhando para abrir a porta.

Eles ainda estavam de mãos dadas quando a porta se abriu até a metade e vários flashes se lançaram sobre eles. Kiyoomi se levantou primeiro, seus olhos focando aos poucos na multidão do lado de fora que agora batia palmas para os bombeiros. Como aquilo havia virado um evento, ainda era um mistério.

O pensamento de que se ele estava em choque Atsumu deveria estar ainda pior cruzou sua mente. Kiyoomi então virou para ele, que estava ainda sentado com um braço na frente dos olhos se defendendo dos flashes. Ele agachou em frente a ele, bloqueando as luzes. Quando Atsumu finalmente abaixou o braço e abriu os olhos, Kiyoomi ofereceu sua mão e o ajudou a levantar aos poucos. Eles trocaram um pequeno sorriso em alívio.

Os bombeiros entraram logo em seguida e eles foram conduzidos de maneira segura para o lado de fora. Guiados até uma das salas de staff, eles se sentaram e beberam água gelada para acalmar os nervos. O gerente do time que cuidou deles até ali, se despediu com a missão de dispersar a imprensa para que pudessem ir embora em paz.

"Melhor agora?" Kiyoomi questionou higienizando suas mãos com álcool em gel.

"Claro, assistir você limpando as mãos depois de tocar em mim é sempre revigorante." Atsumu afirmou tentando parecer debochado, mas sua cara ainda pálida mostrava o oposto. "Vou ver onde Bokuto e os outros estão, assim podemos ir direto até eles o mais rápido possível."

Quando Atsumu se levantou puxando as chaves do carro, Kiyoomi invocou seu bom senso e decidiu agraciar-lo com um conselho e uma oferta que ele mesmo sabia que iria se arrepender depois. "Você não deveria dirigir assim, eu te dou uma carona."

A ideia de dever algo, mesmo que fosse uma carona para Sakusa Kiyoomi quase formou uma careta no rosto de Atsumu. Ele queria negar e soltar algum deboche, mas para seu azar, ele estava certo. E no final ele poderia voltar para casa de carona com qualquer um dos outros membros do time ou até mesmo de táxi. Não era como se tivesse que depender dele a noite toda. Completamente a contragosto, ele aceitou.

"Se eu não tiver que pagar a higienização por entrar no seu carro imaculado, eu aceito." Depois da piada, Atsumu notou que realmente não estava no auge da sua boa higiene. Ter suado vestido de social da cabeça aos pés fazia ele se sentir pegajoso e desesperado por um banho. Sensação horrível suficiente para fazê-lo incluir um pedido a Kiyoomi, amaldiçoando a si mesmo pelo tamanho do seu azar.

"Podemos parar no meu prédio por uns 10 minutos? Eu preciso de uma ducha e roupas limpas."

Se teria que lidar com Miya Atsumu em seu carro seria no mínimo mandatório que ele estivesse limpo , nem que fosse por metade do percurso. Eles analisaram a rota até o bar onde o resto do time esperava por eles e por Hinata, e era possível fazer um pequeno desvio sem grandes prejuízos.

Depois de espiar e ver que o gerente tinha cumprido sua promessa e dispersado a imprensa, eles seguiram até o carro de Kiyoomi. Só agora Atsumu refletia o que exatamente faria com seu próprio veículo. Ele parou no meio do caminho e olhou o carro com as duas mãos na cintura.

Kiyoomi estava exausto de ter que fazer tudo por ali. Ele apontou para uma placa gigante logo atrás deles com o aviso de que o centro de convenções funcionava 24h e assistiu Atsumu fazer uma cara de surpresa seguida de uma carranca.

*

Como se tivesse que compensar os quase 15 minutos em que ficou de boca fechada, Atsumu agora falava sem parar. Sobre o modelo do carro, os bancos, a comida horrível da festa, a chegada de Hinata e qualquer outra coisa para preencher o silêncio. Lá pela terceira informação não solicitada sobre seu próprio sistema de direção, Kiyoomi simplesmente desligou a audição e começou a pensar em todos os erros que o levaram até ali. 

Na entrada do prédio, Atsumu baixou o vidro e acionou o interfone para falar com o porteiro e autorizar a entrada de um carro que não era o dele. "Miya do 618, pode por favor liberar a entrada?"

Kiyoomi tinha ficado quieto o caminho todo, era justo ter direito a uma pergunta. "Você mora no sexto andar? O que você faz, usa as escadas?" No fundo Kiyoomi quase considerou essa opção real já que de longe, Atsumu tinha o maior par de coxas do time.

"Delicado e jeitoso igual coice de mula, como sempre!" Antes que recebesse um xingamento, Atsumu completou meio a contragosto mais uma vez: "Faz anos que não tenho uma crise, eu achei que tinha isso sob controle."

Sem ter a mínima vontade de ouvir mais grosserias, Kiyoomi apenas confirmou com a cabeça que tinha entendido. "Você tem 10 minutos, Miya." Foram suas únicas palavras ao estacionar na vaga que Atsumu indicou e destravar as portas do carro.

Atsumu saiu e ficou parado do lado de fora olhando para ele. Baixando o vidro Kiyoomi o encarou com uma expressão irritada questionando o que mais ele queria afinal.

"Você não vai subir?"

"E por que eu faria isso?"

"Hmm, tá. Eu vou precisar de uns 20 minutos então."

Vendo que Atsumu se dirigia para as escadas e não para o elevador, Kiyoomi entendeu o problema. Ele amaldiçoou a si mesmo por estar usando toda sua benevolência em uma noite e buzinou chamando a atenção de Atsumu para o fato de que ele estava saindo do carro e iria com ele até o apartamento. 

Ao entrar no elevador, ele esclareceu: "Eu não vou te deixar pegar na minha mão de novo." Atsumu, que já se agarrava nas barras laterais, fez uma cara feia e mostrou a língua para ele. Isso era positivo, estava sendo ele mesmo de novo e provavelmente se recuperaria completamente em breve.

"Fique à vontade, o controle da TV está na mesa de centro, tem água gelada no filtro, etc, etc, etc, volto o mais rápido possível." Com essas boas vindas e instruções quase calorosas, Atsumu seguiu para o interior do pequeno apartamento. O lugar até que era bem arrumado, dentro de um padrão aceitável para um homem que morava sozinho, e dentro das exigências básicas para que Kiyoomi se sentisse confortável sem luvas e sem máscara.

Ele sentou no sofá, manteve as luzes apagadas e começou a passear pelos canais da TV, parando em um documentário sobre assassinos em série americanos, o exato tipo de entretenimento que ele apreciava. Era sempre bom lembrar do quanto seres humanos eram naturalmente perigosos e sádicos e de que ele não era assim tão estranho, por tomar uma boa distância de sua própria espécie. 

Ele checou o celular e viu várias mensagens em um grupo composto apenas dos membros do time que estariam na tal surpresa. Bokuto confirmou que Hinata estava a caminho e chegaria em cerca de meia hora. Se Atsumu não fosse rápido, a surpresa extra seria que Kiyoomi iria para a própria casa e ele pegaria um táxi.

Kiyoomi ouviu o chuveiro desligar, mas depois acabou tão absorto no episódio 137 que mostrava um caso que ele ainda não havia assistido, que perdeu a noção do tempo. Quase xingou um palavrão alto quando Atsumu pulou do corredor para o lado dele no sofá gritando que aquele caso tinha um final surpreendente. 

Percebendo que tinha quase matado o outro do coração, Atsumu escolheu dentre todas as opções possíveis, começar a rir . Kiyoomi estava muito perto de fornecer material de primeira qualidade para aquele tipo de documentário.

"A sua cara, Omi, eu-" Ele se torcia de rir. "Me desculpe! Juro que quase não foi de propósito." Kiyoomi não tinha palavras, ele o odiava de formas inexplicáveis naquele momento. Odiava mais ainda que ao rever toda a situação, precisava se segurar para não rir junto.

"Eu vou, de propósito , te fazer protagonista do próximo episódio, Miya." Ele disse se aproximando de maneira que julgava intimidadora.

"Isso é uma ameaça?" Atsumu não se subjugou, encurtando ainda mais a distância se esticando para parecer mais alto. 

"É uma promessa . E sua blusa está do avesso."

Com uma expressão de ' ah que inconveniente ,' Atsumu simplesmente se levantou e tirou a blusa na frente dele. O abdômen completamente esculpido não era grande novidade, afinal eles se viam quase 100% pelados todo santo dia. A diferença ali, é que ele estava a um palmo de distância de seu rosto, apenas a meia luz da TV iluminando cada músculo enquanto Atsumu ajustava a blusa e a vestia novamente. Para todos os efeitos e admitindo isso apenas para si mesmo, aquela era uma boa recompensa por todos os seus serviços naquela noite. 

Ele queria muito espantar o pensamento de que só ficaria melhor se ele também tivesse vestido as calças ao contrário, mas tudo que Kiyoomi conseguia fazer era observar bem de perto enquanto Atsumu acabava de colocar a cabeça para fora da gola da blusa. Assim que seus olhos abriram, encontraram os dele que encaravam atentos. Ótimo, tudo o que Kiyoomi precisava era daquela troca de olhares constrangedora. E só piorou.

"Impressão minha ou você está encarando o meu abdômen?"

"Ok, me processe ."

"Nós podemos terminar de ver o episódio se quiser, o final é realmente bom ." Atsumu respondeu com um meio sorriso atrevido e se sentou de volta no sofá ao lado dele, mais próximo que antes. Kiyoomi inclinou a cabeça na direção dele, um pouco incrédulo pela proposta. 

"Está sugerindo deixar os seus amigos esperando? Você é desprezível." Kiyoomi rosnou entre dentes. 

Atsumu sorriu e se aproximou ainda mais, suas bocas se alinhando. Era difícil acreditar nisso. Eles estavam de alguma maneira muito peculiar e horrenda, flertando .

"E você é odioso." Atsumu devolveu na mesma intensidade.

E então eles chocaram seus corpos e bocas em um beijo desesperado.