Chapter Text
Não existem registros de como você descobre estar sob a maldição Imperius, assim como não existem registros de pessoas que conseguiram se livrar da maldição por própria vontade. Alguns dizem que após o fim desse encantamento, todo o período que você estava sob o controle de outra pessoa desaparece da sua mente, como se tivesse sofrido amnésia em um acidente. Outros dizem que você consegue lembrar de tudo que foi feito sem seu consentimento.
Qualquer que fosse a verdade, Sirius Black viu seu corpo inteiro fraquejar e ceder no meio da sala de estar, derrubando-o no chão ao lado do sofá. Sua cabeça zunia e as luzes pareciam fortes demais. Ele ouviu passos rápidos se aproximando, mas sua visão escureceu antes que ele pudesse identificar o homem que se ajoelhou ao seu lado.
- Sirius! - alguém chamou ao longe. Mãos mornas seguravam no seu rosto, mas ele não conseguia abrir os olhos, as luzes ainda estavam fortes demais - Pads...
- As luzes... Apaga as luzes - manejou falar, sua voz sem força nenhuma e sua cabeça pulsando, quase ao ponto de explodir. As mãos em seu rosto desapareceram, assim como as luzes, porém agora tudo estava mais claro do que nunca.
A sala estava em completo silêncio e a única imagem que Sirius via, ainda de olhos fechados, era uma lembrança de Peter com a varinha apontada diretamente para seu rosto.
Eles estavam voltando de uma missão no norte de Londres, que se transformou em um duelo surpresa com Comensais da Morte. Sirius estava incapaz de aparatar graças aos machucados e sabia que não conseguiria chegar em Godric's Hollow em tempo para o aniversário de Harry.
O novo plano era que ele voltasse para casa e Remus o ajudasse com os machucados, para que, no próximo dia, ele pudesse ir até a casa dos Potter, sozinho. Porém Peter claramente tinha outros planos, pois tirou proveito da situação de Sirius e o puxou para um beco, onde pôde desarmar seu amigo e apontar a varinha diretamente para ele.
- O que é isso? O que você está fazendo? - Sirius soou mais desesperado do que gostaria. Algo amarelo brilhava na ponta da varinha de Peter, mas ele não poderia fazer nada, pois a sua própria varinha estava longe demais. O garoto de feições demasiadas parecidas a um roedor não parecia estar hesitando.
- Eu preciso fazer isso, Sirius. Você não entenderia...
- Ele ameaçou sua família? Peter, a gente pode proteger eles!
- Não tem nada a ver com a minha família, seu babaca! - Peter gritou, se aproximando mais ainda, raios verdes se misturando com os brilhos amarelos na ponta da varinha. Sirius sentiu seu corpo inteiro tremer, e, pela primeira vez desde o início da guerra, ele sentiu medo. James, Lily, Remus e Harry confiavam em Peter, e se ele morresse ali, seu amigo poderia alegar que foi uma morte em duelo e ninguém nunca saberia que, na verdade, ele era um traidor.
- Peter...
- Nós estamos perdendo, Sirius. E eu não quero ficar do lado fraco. As armas que Lorde Voldemort tem...
- Você está falando como um verdadeiro Comensal da Morte.
Peter levantou a manga da sua capa para mostrar a marca negra tatuada.
- Eu já sou um, Sirius... - ele pareceu hesitar pela primeira vez - Eu sempre acreditei que você, James e Remus fossem os melhores. Que, desde que eu estivesse com vocês, tudo estaria bem, tudo daria certo. Mas a verdade é que vocês são fracos, não têm habilidade nenhuma, a não ser de encher o ego uns dos outros.
- E o que você vai fazer? Vai me matar? Matar Remus, James, Lily... Por que somos humanos? - Sirius sentiu sua garganta fechar, enjoado.
- Ah não, você não. Para mim é mais fácil te ter vivo... - Peter sorriu com maldade. A pessoa que Sirius conhecia por quase 10 anos não existia mais. - Pelo menos, por enquanto. Imperio!
Foi a última coisa que Sirius lembrava ouvir com clareza antes da sua mente apagar. Mas ele não desmaiou naquele momento, na verdade ele continuou de pé, encostado na parede do beco escuro, olhando para Peter com seus olhos cinzas, sem nenhuma expressão.
- Eu sempre quis ser você, Sirius. Mas depois de te conhecer bem, entendi que ter você é muito melhor. Eis o que vai acontecer: Remus é o espião e você vai convencer os Potter a confiar seu paradeiro em mim, já que, como você mesmo diz, eu sou inofensivo e nunca seria um alvo para Voldemort...
Aquela imagem se apagou. Sirius levantou do chão, encostando suas costas no sofá. O apartamento inteiro estava escuro a não ser pelas luzes da rua, mas agora isso não era mais um problema. Seu peito doía com arrependimento, pelo que fez e disse sem controle, e ansiedade, pelas possíveis consequências.
Ele tentou ficar de pé, mas foi impedido por alguém na sua frente.
- Calma, eu te ajudo - Remus falou baixo, oferecendo seus ombros para Sirius se apoiar - O que houve?
- Eu... não sei... Eu desmaiei, e tudo doía. Quando você desligou as luzes, eu lembrei de uma coisa...
Ele não sabia o que falar para seu namorado, claramente preocupado na sua frente. Apesar de tudo, pensou.
Como ouviu falar, depois que a maldição se desfazia algumas memórias desse período voltavam e as dele não eram nada boas. Peter fez Sirius arruinar seu relacionamento com Remus, para que nenhuma confiança restasse. E ele foi muito bem sucedido. Sabia disso. Só não entendia como Remus podia ainda estar aí, suas mãos mornas de pós banho agarrando os pulsos de Sirius.
Uma onda de amor o atingiu, mas não foi tão forte para o salvar do arrependimento que o afogava. Ele sentiu seus olhos marejarem e não conseguiu segurar um soluço. Remus continuava extremamente confuso.
- Peter é o espião, Moony.
Um segundo de silêncio, e então:
- Como?
Sirius engoliu em seco. Ele pensou em começar com um 'me desculpa', mas talvez não tivesse tempo. Sabia que agora que a maldição tinha se quebrado, ele tinha muito para explicar. Mas a possibilidade de James e Lily estarem em perigo era a única coisa racional que passava pela sua cabeça.
- Remus... Sei que pode ser um pouco difícil, mas eu preciso que você confie em mim, - Sirius falou, segurando firme as mãos do seu namorado - James e Lily podem estar em perigo e... E eu posso ter causado isso.
Remus não estava conseguindo processar tão bem quanto gostaria. Faziam semanas que ele e Sirius não estavam mais na mesma sintonia. Eles não conversavam mais como normalmente, mal se tocavam. Sirius passava a maior parte do tempo fora do apartamento que eles dividiam e nunca dava muita explicação além de 'estava em uma missão' ou 'estava fazendo meu trabalho como padrinho'.
Obviamente ele suspeitava que algo muito errado estava acontecendo, e todos já sabiam que existia um espião dentro da Ordem. Mas a ideia de que essa pessoa fosse Sirius não fazia nenhum sentido para Remus, mesmo com a mudança de comportamento. Ele conhecia aquele garoto por 10 anos e sabia que a chance de ele ser um Comensal era tão baixa quanto a de ele voltar para Grimmauld Place.
- O que você fez? - Remus conseguiu perguntar, sua voz inaudível, torcendo que não soasse acusatório.
- Confiei na pessoa errada. E isso pode ter colocado tudo que lutamos até agora em risco. Todas as mortes até agora... - ele parou, lembrando de sua melhor amiga, morta há meses atrás. Quando voltou a falar, sentia o amargo no fundo da língua. - Prometo te explicar tudo quando voltar para casa.
Ele levantou do sofá, deixando seu namorado ainda confuso sentado na mesinha de centro. Pegou a jaqueta atrás da porta e procurou pelas chaves da sua moto.
- Vou para Godric's Hollow. Se até a meia noite eu não voltar, preciso que você envie uma carta para Dumbledore falando que Peter era o espião e que eu estava sob a maldição Imperius.
- O quê? - Remus agora estava em pé, parado no meio da sala. Um misto de sentimentos que só apareciam para Sirius no seu rosto.
- Por favor, Remus. Faz isso? - o homem assentiu - Você sabe que eu te amo, né? - ele assentiu de novo, mas não falou nada. E foi a deixa para Sirius ir embora.
Quando pousou na frente da casa dos Potter, em Godric's Hollow, Sirius sentiu seus olhos encherem de lágrimas. Uma multidão se mantinha a uma distância segura da casa destruída que só Sirius conseguia ver. Para qualquer um, aquele terreno baldio pareceria em chamas. E nenhum trouxa ousaria chegar perto, muito menos um bruxo, afinal eles saberiam dizer exatamente o que tinha acabado de acontecer.
Quando Sirius conseguiu descer da moto, lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto, mas ele não sentia nada, a não ser uma enorme vontade de vomitar. Ele caminhou cego pelas lágrimas até a cerca da entrada da casa e se virou para a multidão, levantando sua varinha.
- Protego totalum - sussurrou algumas vezes. Uma névoa cinza cobriu a propriedade, oferecendo aos seus amigos a privacidade que eles mereciam.
Sirius não sabia dizer a última vez que se sentiu tão sozinho, mas nada se comparava ao que sentia no momento que entrou pela porta aberta da casa, a varinha estendida e firme entre seus dedos.
- Lumos.
O que viu, graças à meia luz que sua varinha projetava, o fez cair de joelhos no chão. Estendido no pé da escada, estava o corpo de James Potter. Sua varinha não estava em nenhum lugar, mas ele segurava em uma das mãos um pedaço de espelho.
Sirius se arrastou sem forças até seu melhor amigo. Ele sentiu bile no fundo da garganta de novo, mas respirou fundo, lutando contra as lágrimas. Suas mãos puxaram James para perto, até que a cabeça dele pudesse descansar em seu ombro esquerdo.
- Me desculpa. - foi a única coisa que Sirius conseguiu falar entre um soluço e outro, segurando James firme no seu abraço, na esperança de que ele pudesse corresponder.
Ele se manteve naquela posição pelo que pareceram horas, até ouvir um choro fraco e desregular no andar de cima. Com muita relutância, Sirius colocou James de volta no chão acarpetado da casa. Ele se curvou em cima do corpo do outro homem e encostou sua testa na dele, suas lágrimas pingando na pele ainda quente de James.
- Eu volto para você... - falou e se afastou, subindo a escada devagar, tentando se preparar para o que quer que fosse encontrar. O choro era mais alto conforme ele se aproximava do quarto de Harry.
Ao chegar lá, Sirius sentiu suas pernas fraquejarem novamente, pois, entre as lágrimas grossas que não paravam de escorrer por seu rosto, ele pôde ver Lilian Potter caída na frente do berço de Harry.
Mesmo morta, seus dedos estavam agarrados na grade do berço. Seus olhos verdes sempre tão brilhantes estavam vazios, olhando diretamente para Sirius na porta. Dessa vez, ele não conseguiu segurar quando sentiu bile na ponta da língua, se virando para o batente da porta e cuspindo ali toda sua janta.
Ele queria gritar, mas nada saía. Queria encontrar Peter e torturá-lo até a morte. A raiva que crescia dentro do seu peito era tão ensurdecedora que quase o fez esquecer do choro desolado de Harry Potter.
Quando Sirius finalmente teve forças para se levantar, caminhou até o berço, onde um garoto, de pouco mais de um ano de idade, chorava, suas mãozinhas agarradas no cabelo ruivo da mãe.
Sirius soltou os dedos de Lily do berço, permitindo que ela enfim pudesse descansar sobre o tapete do quarto. Ele passou sua mão sobre os olhos verde esmeralda da mulher, fechando-os.
- Pafoo... - Harry chamou. Sirius já não chorava mais, as lágrimas já tinham secado na sua bochecha graças ao vento frio de fim de outubro que circulava pela casa, com telhado destruído.
Ele se levantou de onde estava ao lado de Lily e se virou em direção a Harry, mil perguntas passando pela sua cabeça. Antes de pegá-lo do berço, Sirius viu um fio de sangue escorrendo por sua testa, originário de uma cicatriz em forma de raio.
- Mas que merda aconteceu aqui? - falou, encostando na cicatriz com o dedo indicador. Harry se desvencilhou e começou a chorar de dor novamente, o que fez com que Sirius voltasse a chorar também, finalmente tendo noção do que estava acontecendo.
Voldemort matou os Potter com ajuda de Peter, mas ele não matou Harry. Sirius sabia que precisava tirar seu afilhado de lá antes que alguém viesse terminar o trabalho. Pegou Harry no colo e o cobriu com uma cobertinha de pomos de ouro, que sabia ser de James.
- Tudo bem, vai ficar tudo bem. - falou mais para si mesmo do que para Harry. Ele desceu as escadas, deixando Lily no quarto, deitada rente ao berço. Ao chegar no primeiro andar, se agachou para pegar o espelho que James segurava e apressou o passo até a entrada da casa. - Eu volto buscar vocês... Eu prometo. - falou novamente para si mesmo.
As lágrimas de Harry encharcavam a jaqueta de Sirius, mas ele ignorava, assim como os chamados do garoto pela sua mãe. Quando Sirius cruzou a névoa que cobria a propriedade, não tinha mais ninguém na rua a não ser um homem três vezes seu tamanho parado ao lado da sua moto.
- Sirius! Graças a Merlin!
- Hagrid... - conseguiu falar, sua voz rouca e embargada.
- Sirius, me entregue o menino. Preciso levar ele para Dumbledore.
- O quê? - ele segurou Harry mais firme contra seu peito.
- Dumbledore pediu que eu o levasse para Surrey. Ele tem uma família lá.
Sirius riu amargo. Harry Potter não iria para Surrey, nem por cima do seu cadáver.
- Meu... Foda-se o Dumbledore! Estou levando Harry comigo para Londres.
- Sirius, não dificulte as coisas. Você sabe o que é certo.
- Sei, é certo que Harry fique comigo. James e Lily me escolheram para cuidar dele, não aqueles trouxas. Eles nunca entenderam Lily! Nunca entenderiam Harry... Agora, me dá licença... - mas Hagrid não se mexeu - Preciso tirar ele daqui. - falou mais firme, mas o gigante não se mexeu novamente. Sirius puxou a varinha do bolso e apontou para o rosto de Hagrid.
- Sirius Black, o que...
- Me desculpa... Estupefaça!
Um raio vermelho atingiu a testa de Hagrid, o que o fez cambalear e cair duro na calçada. Sirius sabia que aquilo não resolveria seus problemas. Ele sabia que teria que encarar Dumbledore ainda aquela noite, mas a única coisa que pensava naquele momento é que precisava garantir que Harry ficasse seguro pelo maior tempo que conseguisse.
