Chapter Text
O som de água fervente era audível por toda a cozinha. Dante estava cozinhando macarrão hoje, seus filhos gostam e quem é ele para negar algo a suas crianças?
Na frente do fogão, depois de colocar os dois pacotes de macarrão na água com sal e tampar a panela, ele solta um longo suspiro. Cansado é eufemismo para explicar o estado dele nesse momento. Trabalhar como médico sempre foi tudo o que ele desejou, mesmo sabendo que em alguns dias seria cansativo, ele não esperava que fosse sugar tanto sua energia. Ao menos ele está de férias e pode aproveitar o tempo com sua família.
Dois braços musculosos circundam sua cintura, cabelos negros cercam sua visão periférica e um peso leve aparece em sua cabeça.
“Gal?”
O peso de cima da cabeça de Dante some reaparecendo em seus ombros. Os braços de Gal puxam o loiro para mais perto, depositando alguns beijos na pele exposta antes de demorar mais na curva do pescoço de seu marido.
“Você ‘tá bem, amor?”
O abraço aperta novamente, eles estão ainda mais próximos, se é que isso é possível. Não que ele não goste, por Dante seus dias seriam passados nos braços de seu marido com seus filhos, mas Gal, apesar de ser uma pessoa muito afetuosa, não é tão…grudento a alguns anos.
“Sim.” a voz abafada responde, os lábios sem deixar a pele do doutor “Só 'tô com saudades de você, Dante.”
Isso é cruel. Dante nunca quis ser ausente para a família que ele sempre quis ter, mas o trabalho quase nunca o deixa ficar com ela. Com um gosto amargo na boca, uma careta se forma no rosto do pseudo-chefe.
“Desculpa, é o–”
“Trabalho, eu sei.”
“Oh.”
O silêncio se estende por alguns segundos, ambos os corpos pressionados enquanto Gal traça trilhas e trilhas de beijos pelo pescoço e ombros do loiro – que visivelmente relaxa com esse tratamento.
“Não é sua culpa, tudo bem?”
“Mas eu escolhi esse trabalho e–”
“Você nunca escolheu ter turnos de 14 horas, ‘tá tudo bem amor.”
Esse foi o estopim, lágrimas começaram a manchar o rosto de Dante e suspiros trêmulos junto ao som de água fervendo preencheram o silêncio da cozinha. Gal o virou para frente, ainda com um das mãos em sua cintura ele fazia movimentos circulares e a outra mão acariciava o rosto choroso do seu amante.
“Eu-Eu amo você e amo nossos filhos mas… eu não consigo ter tempo pra tudo, me perdoa amor, me desculpa, eu juro que eu tento mas–”
“‘Tá tudo bem, príncipe, você não fez nada de errado okay?”
“Mas a gente mora junto e eu não sirvo nem pra–”
Lábios macios impedem ele de continuar com esses pensamentos. É incrível como um desses beijos castos sempre relaxam e acalmam Dante, sempre parece melhor que os outros.
“Dante, eu te amo, nossos filhos te amam, não tem nada de errado em trabalhar, eu só sinto saudades de acordar com você no meu peito, ou acabar dormindo na sexta do cinema, eu sinto saudades de te mimar também…”
Mais beijos são aplicados, um na testa, um em cada olho, um no nariz, um em cada bochecha e, finalmente, um mais longo nos lábios.
“Mas e o trabalho?”
“Não é o problema, meu príncipe, nenhum de nós acha que você não serve pra nada nem é um fardo, tudo bem?”
“Tudo bem…”
“Bom, você não quer que eu cozinhe? Eu posso deixar o almoço deles feito.”
Ele não responde verbalmente, apenas acena com a cabeça e se afunda no abraço do marido. O casal tem quase a mesma altura, isso resulta em um Dante amuado descansando a cabeça nos ombros de parceiro, Gal, que por sua vez, continua a acariciar os cabelos loiros e a fazer movimentos circulares nas costas dele.
O tempo parece não passar. O afeto de Gal sempre deixa Dante sem palavras, não de um jeito ruim – nunca de um jeito ruim – mas é simplesmente demais para alguém como ele. Gal sempre esteve lá por Dante. Ele sempre o protegeu no orfanato, sempre fez questão de ser o único que levaria a responsabilidade por tudo. Na adolescência trabalhava mais do que estudava unicamente para proporcionar alguns momentos de lazer para os outros em meio ao inferno que viviam e agora, mesmo quando não conseguiu ver o marido por mais de 2 horas, está confortando ele em vez de se irritar.
Ele sempre foi assim.
Enquanto isso, Dante nunca fez nada por Gal.
Na infância ficava em um quarto separado dos outros, quase nunca os via, e às vezes – sem querer – acabava denunciando o que faziam para as irmãs. Na adolescência foi adotado por Fritz, mas, mesmo sabendo que por vezes os gritos no orfanato não eram por causa das brincadeiras e vendo Gal e Henri com inúmeros hematomas depois de serem levados para “ter uma conversa” com o padre, ele nunca denunciou isso.
E agora, aos 27 anos, não consegue passar mais tempo com sua família.
Ele é um fardo, ele sabe disso.
Mas porque todos negam? Porque a pessoa mais afetada ainda abraça ele com ternura e afeto?
Não faz o menor sentido.
“Dante, descansa um pouco amor, eu termino pra você.”
O afago nos cabelos nunca parou, o aperto na cintura só se tornou mais forte.
“Tudo bem, eu vou pro quarto, tá bom?"
“Tá bom.”
Segundos se passam mas eles não se separam. O calor que estão envolvidos parece um pântano, os afoga em algo quente e profundo, e, mesmo assim, não há um único sinal de que vão se separar.
Gal quebra o abraço, se afasta o suficiente apenas para conseguir olhar o rosto manchado de lágrimas do outro.
“Você precisa descansar.”
Dois olhos de cores opostas o encaram, ambos estão repletos de amor. A mão que estava no cabelo dourado se fixou no pescoço de Dante, fazendo movimentos circulares gentilmente.
“Eu sei.”
Como os astros que se circundam, algo atrai eles. Os lábios a milímetros tortuosos longe dos outros.
Dante quebra essa distância.
É, inicialmente, casto como os de mais cedo, entretanto o médico precisa sentir melhor seu parceiro. Pedindo permissão e sentindo o sorriso do outro dentre os lábios, ele aprofunda o beijo.
Beijos castos são os preferidos de Dante não porque ele não gosta dos outros, mas porque passa muito mais a sensação de preocupação e afeto para ele. Isso não significa que ele não goste do calor ou da dança suave entre suas línguas.
Sempre que Gal e ele se beijam, o que acontece muito, ele sente as tão famosas borboletas. Essa sensação só piora quando o moreno aperta levemente a cintura do loiro.
Eles são casados a 5 anos, mesmo assim sempre parece o primeiro beijo deles. Até a expressão sorridente de Gal e o rosto sutilmente rosa de Dante são os mesmos.
“Agora é sério, vai descansar.”
“Já ‘tô indo, já ‘tô indo!”
Um pouco mais leve do que quando foi para a cozinha, Dante se deita na cama de casal no quarto escuro e tenta adormecer.
