Chapter Text
2 de abril de 1988
Essa é minha primeira anotação em você diário! Ainda não sei muito bem sobre o que iscrever nas suas páginas. Foi um presente especial dos meus pais. Eles disseram que é bom poder botar no papel as coisas que a gente sente. Eu ainda preferi o jogo que Papai Alde trouxe lá da Grecia. Ontem jogamos um monte depois da festinha. Foi muito legal! Eles ainda tentaram me enganar. Finjiram que não tinha nada preparado só pra me pegar de surpresa. Eu gostei muito da surpresa. Fiz oito anos ontem. Estou feliz que os dois puderam estar aqui jumto comigo no meu aniversário. Papai Mu estava muito feliz de ver o Papai Alde também. Eles se gostam muito e eu gosto deles, mas o Papai Alde trabalha lomge daqui. Eles estão deitados no chão da sala de muzica agora. O Papai Mu está tocando viola lemuriana com a cabeça deitada no colo do Papai Alde que está acariciando os cabelos do Papai Mu. Decidi usar você aqui na frente deles pra eles verem que gostei de te ganhar também. Você é um presente diferente. Ainda prefiro o jogo já disse isso. Eles disseram que devo iscrever em você quando estiver sozinho. Mas eu não gosto de estar sozinho. Eu e Papai Mu passamos tempo demais sozinhos. Por mais que eu goste dele e ele de mim, ficar os dois sozinho é meio triste. Papai Mu diz que um dia nós vamos morar na Grecia jumto com o Papai Alde e que lá no tal santumbário tem mais crianças pra mim fazer amizade. Mas ele diz que por enquanto não dá então a gente tem que ficar aqui e o Papai Alde vir de vez em quando. Por isso gosto mais do jogo. No jogo eles ficam perto de mim. A gente já fica separado tempo demais.
Meus pais foram tão amorosos e preocupados quanto o desta criança. Também me deram uma boa educação. Ensinaram-me, por exemplo, que é falta de respeito ler o diário alheio. Ora, mas estamos no Santuário! Grécia, sol e mar! Muita festa! O respeito fica pra depois. Ou, melhor dizendo, para os grandes Deuses e seus lacaios! Oh, esses sim! Fazem o que querem, como bem entendem, inclusive desaparecer sem dar notícias. Apesar de portar uma Armadura, sou parte da ralé. Não mereço respeito. Existo para ser tirado do meu desassossego privado e ser jogado no desassossego do sol escaldante de Athenas. “Compareça ao Santuário. Urgente”. Quatro míseras palavras são o suficiente para que eu abandone tudo e venha correndo, tal qual um cãozinho adestrado. Não por vontade, mas por obrigação. Vida de merda. Tudo para chegar aqui e ser recebido por um soldado raso qualquer que, gaguejando, avisa-me que houve um problema com o voo e, por isso, meu compromisso foi adiado para amanhã de manhã. Até o grande Tatsumi, o lambe-botas da querida deusa Athena, senhora do chá de sumiç – ops, ato falho!, eu queria dizer, senhora da justiça!, tem o direito de se atrasar, mas eu não. Como sou egoísta! Afinal, mesmo sem estar investido em uma Armadura, ele desempenha funções demasiado importantes, como carregar as sacolas de compras da Deusa pela Champs Elysée, tentar encontrar gelo para o coquetel da distinta senhora no meio do deserto do Saara, ou faz qualquer porcaria no raio que o parta onde essa mulher se enfiou! (Ela, Seiya e os outros... por vezes, pego-me pensando se Shiryu também teria desaparecido caso não tivesse voltado todo arrebentado da batalha contra Mars). Enquanto isso, eu fico aqui, nessa acomodação decadente, sem nem mesmo uma revista para folhear. O que me resta é este diário, que encontrei em uma gaveta.
De certa forma, é revigorante ler confissões tão doces nessa caligrafia feia e cheia de erros. As crianças têm uma inocência única que, uma vez perdida, é impossível de ser recuperada. Com certeza, o jovenzinho imaginava um final feliz para sua história. É o que todos nós queremos, não é verdade? Superar os problemas, viver junto dos pais como uma família feliz. Mas não existem finais felizes – o final, para todos, é a morte. E foi o que aconteceu com esse garoto: os pais morreram na última Guerra Santa contra Hades, enquanto ele durou uns poucos anos a mais (capengando, mas durou!), até sucumbir ao desgosto e à tristeza. Pobre menino! Não sabia que as tragédias seriam frequentes em sua vida, tal qual acontece com qualquer soldado. Se ele ainda existisse, com certeza estranharia a decadência da Casa de Áries. Este quarto, que uma dia guardou brinquedos novos e roupas limpas, hoje mais parece o de uma casa mal-assombrada. Poeira, móveis velhos, teias de aranha, cheiro de mofo... e as gavetas estão cheias de recordações que saltam como fantasmas assim que as abro. Nada da alegria que o menino estava planejando em seu final feliz. Por isso mesmo, é melhor que ele esteja bem morto, apesar de não totalmente enterrado.
Estou sujando o nome dos soldados de Áries ao permanecer neste Templo, porém, as opções são passar a noite aqui ou aceitar o quarto que me reservaram em um luxuoso hotel no centro da cidade. E eles bem sabem que eu preferiria morrer a aceitar qualquer benefício que venha do Santuário. E, quem diria!, que depois de todos os problemas envolvendo Saga, os imbecis insistiriam no erro de conceder privilégios mundanos aos soldados de elite... Esse local está virando uma zona e, por isso mesmo, me mantenho bem longe daqui. As coisas não mudaram muito apesar de todas as lições do passado – somos péssimos alunos do professor Tempo ou estamos presos em algum universo literário de má qualidade. Marx estava certo. A História se repete como tragédia e como farsa. Por enquanto, as tragédias estão ganhando com folga. Novamente temos um Santuário sem liderança, uma Deusa desaparecida (ou melhor dizendo, isolada em sua ilha, mas ei, para que usar eufemismos, não é mesmo?) e Casas Zodiacais ocupadas por homens de moral questionável. O que dizer daquele Touro insolente?! Aquilo lá era jeito de me tratar?! E de tratar a memória de... de Aldebaran. E o abandono do Templo de Áries? Nenhum dos dois merecia isso, nem p- nem Mu, nem Aldebaran. Mas ninguém quer saber de homens valorosos nos dias atuais. Se, até aqui, o local responsável pela manutenção da paz na Terra, aceitam um delinquente qualquer como soldado de elite, exigir respeito pelos que se foram é apenas dar murro em ponta de faca. Jamais haveria lugar para Mu e Aldebaran no Santuário, muito menos para o menino. Ainda que tenha tentado apagá-lo de minha memória, posso descrevê-lo como inocente. Uma criança tão doce e pura quanto relapsa. Caso tivesse algum juízo, sabe-se lá como as coisas teriam se desenrolado. No entanto, ignorou todos os ensinamentos de seus pais em nome viver o sonho de ter uma família feliz por toda a eternidade. Quando tudo ruiu, o pobrezinho não suportou. A guerra matou seus pais e sua a alegria de viver, deixando o restante para ser consumido pelo desgosto. O que sobrou do garoto foi muito pouco. E eu o terminei de assassinar com minhas próprias mãos.
Foi algo lento e doloroso. Houve muito sangue e lágrimas, mesmo que só eu pudesse ver esses fluídos jorrando de seu coração. O pobrezinho agonizou muito. Em um ambiente militar, uma criança não devia ser acostumada com tantas regalias. Virou um moleque mimado justamente por ter aquilo que a maioria dos outros não tinham: uma família. Não foi de todo culpa dos pais. Eles lhe ensinaram a ser um soldado divino, lhe falaram sobre a importância dos sacrifícios, sobre cumprir a missão, sobre salvar o mundo e a humanidade... As mesmas drogas de mundo e de humanidade que sequer reconhecem os sacrifícios desses soldados! Essa merda toda... O errado foi o menino, que não quis ouvir. No alto de sua inocência, acreditou piamente que nada de ruim aconteceria à sua família. Ledo engano. Os pais morreram e aí ele soube o que era ficar sozinho de verdade. No começo, até tentou buscou alternativas. Agarrou-se nos fios de esperança que os outros lhe ofereciam. Shiryu, Shunrei, Seiya, Hyoga, Shun... Foram muitas as opções às quais recorrer. Ele até mesmo recorreu à Deusa. No auge de sua tristeza infantil, caiu diante de Athena, de joelhos, e implorou a ela que lhe trouxesse os pais de volta. A reação da senhorita fonte-de-toda-luz-e-sapiência-meu-Zeus-que-título-pomposo? “Sinto muito pela sua perda. Por favor, aceite meus sentimentos blablabla eles foram heróis, homens de grande valor blablablabla estaremos aqui para lhe dar o apoio que você precisar”. Blablabla. O menino se fodeu. Apoio. Ao inferno com o apoio! O apoio não traria seus pais de volta! E ele queria seus pais, não os heróis da Guerra Santa!, não os soldados valorosos! Queria apenas seus pais... Mas isso foi tudo culpa dele. Devia ter sido mais inteligente, mais atento, devia ter aprendido as lições que os pais lhe ensinaram. Eram soldados afinal de contas! Os três! O menino pagou por sua ingenuidade. Como eu disse, o que a Guerra não destruiu dele, eu assassinei. Foi o melhor caminho para nós dois. Hoje, não existe um só pedaço do garoto dentro de mim.
Não sei como pude ser tão burro... Pensar que, depois da morte de Papai Mu e Papai Alde, eu poderia encontrar uma família junto ao grande herói de uma figa, o pato com complexo de Édipo e o chorão do Santuário. As três belezas simplesmente engataram o foda-se e sumiram. “Hoje não posso conversar, estou me preparando para uma missão”. “Estou longe agora, mas quando eu voltar”. “Podemos nos ver mais tarde?” Sim, todos soldados exemplares, colocando suas missões acima daquele que vinha lhe implorar por um pouco de atenção. Por fim, o menino viu que suas únicas alternativas concretas eram um soldado à beira da morte e uma jovem grávida tendo que se virar sozinha em um ambiente hostil. Ele então compreendeu que não poderia se tornar um fardo para os dois e decidiu que era hora de parar de agir como um pirralho mimado para se portar como um homem, como um Cavaleiro de verdade, seja lá o que isso quer dizer. Treinei duro para ser o melhor, pois não aceitaria mais ninguém trajando a Armadura de Áries, a vestimenta sagrada de Papai Mu. Lógico que houve acusações de nepotismo, mas minha constelação sempre me disse que o fiz por merecer e, ao menos nela, eu posso confiar. Infelizmente, não pude fazer muito com relação à Armadura de Touro. Ninguém está aos pés de Papai Alde, assim como não passo de uma sombra pálida perante legado de Papai Mu. Triste geração esta, que tem de se virar com uma elite tão patética. Tornar-me Áries também relegou a mim o ofício – ou o peso – de todo defensor da Primeira Casa Zodiacal: o trabalho como ferreiro da tropa. Ao menos pude partir definitivamente para Jamiel e ficar longe desse inferno. Bem longe. Quando precisam de seus serviços, vão atrás. Por anos, o menino sonhou com o retorno à montanha. Mesmo quando não era preciso, ia para Jamiel, a fim de poder ficar sozinho. Ele sabia que lá, nos confins do mundo, poderia tentar encontrar alguma paz nas memórias espalhadas pela Torre. Difícil, muito difícil. O pensamento de tirar a própria vida lhe passou muitas vezes pela cabeça. Não o fez porque seria uma desonra para Papai Alde e Papai Mu e eu... ele não queria trazer mais vergonha para a família. Deve ser por isso que a deusa aceitou a decisão sem grandes dramas, apenas recomendando que alguns soldados o visitassem mensalmente a fim de reparar as Armaduras danificadas e, talvez, verificar se ele ainda estava respirando. No fundo, era basicamente a mesma estratégia que Saga utilizou para manter meus pais sob controle durante os anos que esteve à frente do Santuário.
18 de outubro de 1989
Hoje o Papai Alde veio nos visitar! Estamos muito felizes! Ele trouxe presemtes para mim e para o Papai Mu. Um dos presente é uma máquina de fazer fotografias. Ele ensinou o Papai Mu como usar o tal do filme e tiramos várias fotos hoje. Ele disse que amanhã vai ensinar a gente a montar uma coisa chamada quarto iscuro, que é onde a gente revela as fotos. Ele trouxe uns negócios e uns produtos pra gente fazer isso. Ele disse pra que não mexer nos produtos porque são perigosos pra criança. Mesmo ficando feliz, o Papai Mu pediu pra ele não ficar trasendo um monte de coisas toda vez que vem cá porque o importante é ele chegar em seguransa e o peso das coisas pode atrapalhar ele na travesia pela montanha. O Papai Alde disse pro Papai Mu não se preocupar, que ele gostava de trazer presemtes pra gente porque a gente fica feliz. O Papai Mu então deu um beijo nele. Os beijos deles são esquisitos, uma boca encostando na outra. Eles disseram que é o tipo de beijo que a gente dá quando encontra alguém que a gente ama assim pra casar. Eles devem se amar muito porque é um tipo de beijo bem babento e eles vivem se beijando.
Até que escreveram bastante nesse diário. Nem ao menos lembrava da existência dele até encontrá-lo em meu antigo quarto aqui na Casa de Áries. Quero deitá-lo de lado, mas parece que cola em minhas mãos como um imã ao metal. Exagero. Basta fechá-lo e colocá-lo de volta em seu lugar. É errado ler o diário de outra pessoa. De outra pessoa sim, pois já não posso considerá-lo meu. O Kiki que escreveu com essa caligrafia torta é um ser que já não mais existe. Jurei que retornaria ao Santuário somente em caso de extrema necessidade. Convenceram-me que havia um assunto urgente a ser tratado, porém, chego aqui e nada encontro. Ordenaram-me que eu esperasse. A contragosto, espero. Não sei muito bem por que quis visitar as Casas Zodiacais que pertenceram a meus pais. O encarregado que me recebeu não fez objeção e me disponibilizou algumas caixas caso eu queira recolher alguns objetos pessoais para levar comigo. “Ordens da Deusa Athena”, explicou-se. Parece até uma piada! O Templo de Áries está abandonado, coberto de poeira, teias de aranha e o raio que o parta. Bela forma de demonstrar respeito pela memória de um soldado valoroso que, por anos, foi tratado como um traidor! -um pária! -um merda! enquanto na verdade era um dos únicos soldados leais em toda essa porcaria! E o pior foi... a Casa de Touro. Nada ali lembrava o lar que Papai Alde construiu. Tudo havia sumido. Seus móveis, seus livros, suas fotos... Ele tinha muitas fotos nossas. E aquele ogro do novo Cavaleiro me xingando. Aquele filho da puta! (filho da puta! filho da puta!) Quem ele pensa que é! Sumiu com as coisas do meu pai e acha que podia me tratar daquele jeito! Eu ainda mato aquele desgraçado! Como ele pôde jogar tudo fora?! E ainda me disse isso com um sorriso no rosto, que tinha que se livrado de toda a tranqueira (dói, dói até machucar, até sangrar) QUEM ELE PENSA QUE É! MALDITO! DESGRAÇADO! Aquele filho da puta jogou as coisas do meu pai fora!
Ahn... ah... (dói dói dói) ah... nhu... Porque?
Não é pelos objetos /fotografias, papéis, canetas/, mas é pelo valor que eles trazem: eram os objetos do meu Papai Alde. Os objetos por si só não são importantes /o chapéu de passeio, a gravata favorita/, afinal, tudo o que é sólido se desmancha no ar. Meus pais se desmancharam no ar. Eu queria poder me desmanchar no ar... Eu queria- /os livros rabiscados, grifados, plenos de marcadores improvisados entre as páginas amareladas/ - tanta, tanta coisa dele. Pedaços dele. O pedaço do chifre que Seiya cortou da Armadura... e um filho da puta qualquer vai e joga tudo fora! Coisas que sequer eram dele! /as panelas gastas de tanto cozinhar, os livros de receita repletos de recortes e da caligrafia muito, muito bem cuidada / Aquilo foi demais para mim. Larguei o filho da puta falando sozinho. Foda-se a etiqueta e cortesia entre Cavaleiros. Não voltamos aos anos 80, afinal? Nada mais natural que dois Cavaleiros se estranhando. Na verdade, é até um crime que me considerem um homem à altura de um Cavaleiro de Ouro. Tenho poder e habilidades incontestáveis / não tenho as quinquilharias de viagem que Papai Alde comprava para levar ao Papai Mu em Jamiel, não tenho as fitas K-7 com gravações próprias, não tenho as fitas de vídeo que sequer sei se conseguirei vê-las / mas é um verdadeiro crime. Um pecado. Não chego aos pés do Papai Mu – sou no máximo um ferreiro esforçado, e olhe lá!, assim como aquele babaca NÃO É TOURO! Ainda está para nascer alguém que venha ocupar esses postos com a mesma dignidade. E se a Armadura de Touro escolheu aquele merda como portador, só posso pensar que a energia do meteorito avariou os sentidos dela. Parece que Athena não aprendeu nada com os acontecimentos que antecederam a última Guerra Santa. O Santuário continua cheio de idiotas. Entre voltar para minha solidão ou ficar aqui nesse hospício, mil vezes Jamiel. Ao menos lá posso trabalhar sem ser incomodado. E devia receber um salário ainda maior por aceitar consertar as Armaduras divinas apesar de todos os disparates que eles cometem.
/E eu não tenho nada do Papai Aldebaran. Nem uma mísera coisa. Tudo se desmanchou no ar. Restou a imagem do beijo babento entre ele e Papai Mu, o beijo que eu já não consigo lembrar exatamente como era justamente porque desviava o olhar na maioria das vezes. Começo a esquecer, aos poucos. Não tenho mais o cheiro, nem o sorriso, nem o toque ou o calor. Não tenho. Simplesmente não tenho. O menino tinha. O menino morreu. As memórias do menino estão morrendo. São apenas vaga-lumes/
Sou uma carcaça de adulto.
Ouço vozes. Estou delirando. Ah, não. São apenas algumas servas que vem se propor para limpar o Templo e trocar a cama. Bem a cara do Santuário isso – deixar para amanhã o que se poderia ter feito ontem. Tapar o sol com a peneira. [As senhoras não precisam se incomodar. (vão! apenas sumam, sumam!) Eu me ajeito. Fiquem tranquilas. Eu entendo. É uma ordem superior (superiores de merda) mas eu me ajeito. Sei fazer a cama. Aprendi com pa-... (o menino aprendeu, você não) Aprendi a me virar. Não, não, nenhum incômodo. Até mais. Efcharistó polý] Se foram. Melhor assim. Não entram nessa casa há meses – anos? – e não é agora que precisam vir. Mesmo que tentassem fazer algo, o Templo não ficaria limpo em um único dia e eu não quero ninguém circulando por aqui. Nem mesmo eu, que segundo a Armadura, sou Áries, devo estar aqui. Sou e não sou Áries. Papai Mu era Áries, assim como meu avô Shion e os que vieram antes deles. Eu sou uma carcaça de adulto. Um vaga-lume na noite, prestes ser engolido pela escuridão. Os lençóis são brancos. Vão ficar empoeirados e malcheirosos nessa cama abandonada. De todo modo, é isso ou o hotel e para o hotel eu não vou. Essa cama é o que há para hoje. E espero que seja apenas por hoje, por esta noite. Os lençóis... eu lembro de algo... onde está? Este... não... este... ah, aqui!
22 de agosto de 1988
Ontem aconteceu uma coisa muito istranha. Eu tive um sonho ruim e eu fui até o quarto dos meus Papais pra durmir com eles. Quando cheguei na porta, tava tudo bem escurão. Eu abri e entrei e ouvi eles gemendo. Eu gritei bem alto pra saber se eles estava machucados. Eles ficaram bem asustados. No escurão, eu não via nada e comecei a chorar. O Papai Mu pediu pra eu isperar e logo me pegou no colo. Ele tava todo suado. O Papai Alde ainda demorou pra assender a vela. Ele tava suado também e todo descabelado. Eu contei meu sonho ruim pra eles. Eles ouviram tudinho e disseram que eu podia dormir ali mas que antes precizavam mudar de lençol. Eu não entendo pra que mudar de lençol. Lençol sempre fica sujo. Se pudesse, tinha um lençol só.
HAHAHAHAHAHA Ó CÉUS! A CARA DOS DOIS. EU ACHO QUE LEMBRO. O CONSTRANGIMENTO. HAHAHAHahahaha. Eu queria ter sido mais velho para poder entender. Depois que compreendi, várias vezes me peguei morhahahato de vergonha pelo ocorrido. Ah... deve ter sido muito engraçadohaha. Muito mesmo. Eu... eu lembro. Eu acho. Um vagalume é só um lampejo. Eu acho que lembro. Ou me forço a lembrar. Talvez seja apenas a projeção do meu desejo. Não sou mais um menino. Não mais aquele menino. O menino dormiu muitas vezes nesta cama quando veio de Jamiel. Era o único entre os demais aprendizes do Santuário que tinha pais. Dois pais. Tivera uma mãe, da qual ele pouco se lembrava. Valia-se das palavras dos pais e do que lhe restava de memória para recriar sua imagem na mente. Uma mulher alta, de pele branca, corpo muito magro e cabelos muito vermelhos. Uma mulher forte que, vencendo o esgotamento da doença que lhe consumia, atravessou a cordilheira com o filho único nos braços na esperança de encontrar os últimos sobreviventes da raça lemuriana – sua família, seu passado, um refúgio. Encontrou apenas o último deles, que não estava entregue à própria solidão pois, naquele dia, gozava estava junto de seu companheiro. Os dois acudiram os recém-chegados – a mãe, frágil e cansada, o menino, com pouco mais de quatro anos, assustado. Tentaram de tudo para salvá-la, mas ela faleceu alguns dias depois, com um sorriso de alívio no rosto. Não me recordo de muito daquela época, porém, lembro-me do sorriso. Lembro de estar nos braços de Papai Mu, diante do leito limpo. Lembro de ele se inclinar para que eu pudesse beijá-la como forma de me despedir. Lembro (acho que lembro) de ter clamado por mamãe ao menos uma vez. O resto nada mais é que um conjunto de imagens febris em minhas memórias. Eles a sepultaram no antigo cemitério lemuriano, num túmulo preservado com o máximo de cuidado ao longo dos anos e o qual visitávamos com frequência. Meus pais sempre fizeram questão de dizer o quanto mamãe me amava, ainda que eu, uma criança, fosse incapaz de compreender esse amor. Penso que foi melhor assim – foi doloroso demais dizer adeus a um amor que eu não entendia, foi ainda mais cruel quando perdi meus dois pais, o amor que eu vivi em plenitude. Talvez eu não tivesse sobrevivido a tantos adeuses.
O menino teve dois pais. Eu tive dois pais. A maioria dos meninos que treinam no Santuário não tem nenhum. E ainda assim, me ridicularizaram por ter dois. Nada diziam diante deles, mas sempre havia cochichos e sussurros pelos corredores, meias-palavras que diziam muito. Aberrações. Bichas. Viados. De nada importava serem soldados de elite. Mesmo após a guerra, mesmo após tudo o que Papai Mu e Papai Alde sacrificaram, esses vermes continuavam a tratá-los como lixo. Diversas vezes, o menino treinou arduamente apenas pelo prazer de dar uma surra naqueles idiotas. Chegava a tal ponto que precisavam interromper a luta, tamanho o ódio que sentia. Eu queria matá-los. Ninguém tinha o direito de ofender os meus pais por causa da vida pessoal deles! Muito menos aqueles merdas corruptos que fariam de tudo pra conseguir a droga de uma Armadura! Voltava para casa com o rosto sujo de terra e as vestes cobertas de sangue – meu e dos outros. Meus pais me repreendiam, embora, no fundo, eu acreditasse que eles gostavam de me ver tão disposto a defendê-los. Afinal, como soldados de elite, não pegaria nada bem punir adolescentes imbecis. Por outro lado, eu, o menino, tinha passe livre para fazer isso sob a desculpa de que estava treinando. Por diversas vezes, acreditei ter visto um sorriso misterioso nos lábios de Papai Mu sempre que eu abusava da força. Ou talvez isso seja coisa da minha cabeça, coisa da cabeça do menino, que busca aprovação o tempo todo, mesmo se valendo da violência.
No fundo, éramos todos meninos – eu e os outros aprendizes. Meninos preparados para a guerra, exércitos de crianças-soldados num ciclo infinito e triste. Talvez, os outros fossem apenas invejosos, já que nenhum deles tinha um pai ou uma mãe. Muitos vinham de orfanatos. Creio que esse era o desejo da maioria: ter uma família e viver normalmente, longe do Santuário, longe de qualquer perspectiva da vida militar. Muito se falava de glórias e grandes feitos, de podermos escrever nossos nomes na História como guerreiros valorosos da Deusa Athena. Muito se oculta sobre o real significado de todas essas coisas. Do caminhar sobre a corda bamba que é a linha que separa a vida da morte. Para se tornar um grande homem, é necessário morrer. Meus pais jamais esconderam isso de mim, no entanto, não quis ouvi-los. Quando nos juntávamos, ao cair da noite, era como se os dias de treinamento e trabalho árduo não passassem de poeira carregada pelo vento para muito, muito longe. Papai Alde cozinhava, Papai Mu preparava a mesa, eu corria em torno dos dois, mais atrapalhando do que ajudando. Após jantar, assistíamos televisão ou jogávamos alguma coisa juntos. Era como se todo dia fosse o dia do meu aniversário de oito anos, quando eu, o menino, ganhei esse diário. Na minha cabeça de criança, pouco importavam os dias difíceis, se todas as noites repetissem o mesmo ritual. Não era pedir muito. Ou, ao menos, eu acreditava que não.
08 de maio de 1990
Não escrevi nada aqui ontem. Passei o dia ao lado de Papai Mu na forja. Ele está bem calado. Esses dias atrás, chegou uma carta do Papai Alde. Ele não vai poder vir por enquanto porque tem uma missão pra cumprir. O Papai Mu me explicou isso com calma, mais de uma vez. Eu não sou mais criança e sei como as coisas são. Eu fico triste que o Papai Alde não veio, mas não choro mais. Não na frente do Papai Mu. O Papai Mu disse que eu podia brincar se eu quizesse, mas eu disse que queria treinar. Não queria de verdade, mas queria que o Papai Mu não se sentisse sozinho. De noite, escutei ele chorando no quarto e fui até lá. Ele me abraçou com força e chorou até dormir. Então, foi minha vez de chorar. Papai Mu sempre tenta mostrar que é forte pra não chorar na minha frente. Mas tem vezes que a saudade é grande demais.
Papai Alde dizia que embora a palavra “saudade” exista apenas na Língua Portuguesa, trata-se de um sentimento capaz de nascer no coração de qualquer pessoa. Quem não conhece a palavra talvez se assuste com uma emoção tão difícil de definir. Mesmo alguém como eu, que conheço o real significado do termo, não está imune a qualquer estranhamento. Afinal, saudades são boas ou ruins? Eu sinto saudades de ser o menino que morreu. Sinto saudades dos meus pais. Sinto saudades de nossos primeiros anos aqui na Grécia como uma família de verdade, vivendo debaixo do mesmo teto, sem quilômetros de distância se colocando entre nós. Sinto saudades de acreditar que tudo fosse durar para sempre. É gostoso poder me lembrar de tudo. Então, abro meus olhos e percebo que tudo passou. A vida é um caminho sem volta. Sinto um gosto amargo na boca, meu coração pesa, o chão desaparece debaixo de meus pés. Dor, pura e simples. Desejo esquecer-me de tudo, pois o esquecimento me livrará da dor. Logo em seguida, me arrependo e sinto ódio de mim. A saudade é uma faca-de-dois-gumes: a tristeza da perda está intrinsecamente associada à felicidade das lembranças. Uma não existe sem a outra. Assim, prefiro viver com essa dor, pois ela ajuda a manter vivas as memórias do tempo que vivi com meus pais. É contraditório, eu sei. Talvez, por isso, seja impossível existir qualquer outra palavra parecida com “saudade” em outro idioma. Saudade não se explica: se experimenta. Ela nos consome, devora cada pedaço do coração, para então cuspir. Em seguida, como se munida de linha e agulha, remenda cada farrapo do que sobrou, de maneira torta, cobrindo com retalhos os vãos que nunca se fecham.
Não sei mais do que estou falando. Estou cansado, divagando. Sinto pena do menino e ódio de mim. Não se sabe o que é um lar até se viver em um lar de verdade. Por anos, chamei Jamiel de lar, pois era a única casa que eu conhecia. Na Grécia, minha concepção mudou totalmente. Eu chegava do treino e encontrava meus pais conversando, cozinhando, namorando, discutindo, dançando... Não havia mais noites em claro porque Papai Alde partiria no dia seguinte. Não havia mais dias de luto durante sua ausência. Se ele não estava em casa, é porque tinha coisas importantes a fazer, mas chegaria logo ao cair da noite. Pela primeira vez, entendi que uma casa precisa de alicerces mais firmes, os quais só se conquistam pelo amor dos que ali vivem. Casa. Esta Casa Zodiacal, hoje abandonada, suja e repleta de velharias. Este teto sob a minha cabeça, que por tantas noites me protegeu do calor e da chuva. Estas colunas, ao lado das quais eu gostava de me sentar para admirar o pôr-do-sol ou brincar de esconde-esconde com meus amigos. Esta casa, que sempre me fez sentir tão pequeno, e hoje potencializa esse sentimento a um patamar impossível de descrever. Sinto-me insignificante. Sufocado. Não pelo cheiro de mofo, mas pelas lembranças. Esta casa, lugar que me fez entender verdadeiramente o que é um lar. Hoje eu não tenho mais lar algum. Tenho a solidão de Jamiel, que é mais uma fortaleza do que uma casa. Tenho esse antigo lar, abandonado. Tudo por culpa deles. De todos eles!
Minha culpa.
Deito-me na cama, pequena demais para o meu tamanho, e encaro o teto. É o mesmo teto que eu ficava observando quando Papai Mu me contava histórias de ninar. Parece que vai desabar sobre minha cabeça. É minha culpa que esteja assim. Papai Mu sempre dizia que, um dia, eu seria o guardião deste Templo. Por isso, deveria cuidar dele com esmero. Eu balançava a cabeça, indicando que sim, que havia aprendido a lição. Aprendi porra nenhuma! Olha o estado desse lugar! Sinto vergonha. O menino jamais deixaria uma situação dessas acontecer. Ele era orgulhoso, queria ser um Cavaleiro exemplar, levar adiante a digníssima tarefa de ser o guardião da Primeira Casa Zodiacal, aquele que decide quem pode ou não adentrar os domínios de Athena. Ele entendia, ou pensava entender, como funciona a vida militar. Seu erro foi acreditar que Papai Mu ainda estaria vivo para lhe transferir a Armadura de Áries. Para o menino, tudo ocorreria ao seu tempo, com uma belíssima cerimônia perante todo o Santuário, na qual Papai Mu lhe outorgaria a vestimenta sagrada mediante uma merecida aposentadoria após anos de dedicação à Deusa. Haveria muita pompa e festa, pois ele não seria o único a receber sua Armadura – Papai Alde passaria Touro a um novato e assim por diante, Cavaleiro após Cavaleiro. Ele simplesmente assumiu que as coisas seriam assim, convertendo essa utopia em crença. Afinal, os Santos Dourados de Athena já haviam enfrentado batalhas cruéis por diversas vezes. O que significava uma Guerra Santa perto de tantos outros conflitos? Mais ainda: como convencê-lo de que seus pais, dois heróis capazes de operar milagres, não sobreviveriam a mais um árduo combate? Quando se deparou com a verdade, o menino viu seu mundo ruir. Tomei seu lugar. O menino queria ser muita coisa. Já eu, não tenho ambição alguma. Apenas solidão, medo e culpa. E saudade, a única coisa boa que restou dentro de mim.
Tudo o que eu faço é culpar alguém, qualquer pessoa, exceto a mim. Jogo nas costas dos outros as razões das minhas dores, pois tenho medo de encarar meu reflexo no espelho. Culpei Athena por ter demorado a derrotar Hades. Culpei Shun por ter se deixado possuir pelo Deus da Morte. Culpei Seiya por não ter feito o suficiente – mas o que mais ele poderia fazer? Distribuí entre todos os meus conhecidos uma culpa que não deveria existir, pois, ao fim e ao cabo, este sempre foi o destino dos meus pais: morrer para salvar o mundo. Ambos sempre deixaram claro que se tratava de uma escolha deles, feita quando receberam suas Armaduras de Ouro. O menino ouvia a tudo, sem entender a real dimensão daquelas palavras. Sabia que seus pais eram heróis. Queria que ambos entrassem para a História. Mas, na sua cabecinha inocente, era um exagero pensar a morte como algo palpável. Seus pais... meus pais eram poderosos, capazes de vencer qualquer inimigo. Eles poderiam morrer algum dia, claro, todos morremos afinal, mas isso levaria muito tempo. Eles partiriam já bem idosos, após muitos anos felizes, após assistir o menino se tornar um soldado valoroso, capaz de levar a missão adiante. Gostava de pensar que a morte os levaria na mesma noite, durante um sono profundo. E que ambos teriam um sorriso tranquilo ao partir, pois adentrariam o paraíso juntos.
24 de fevereiro de 1989
Papai Alde nos ajudou com os treinamentos hoge. Foi divertido porque ele me ensinou alguns golpes usando força bruta. Achei super legal. Depois fizemos um piquenique debaixo dumas árvores. Papai Alde trousse um monte de coizas gostosas e diferentes da Grécia. Ele tá com umas cicatriz diferentes por causa de uma missão. Papai Mu ficou todo preocupado mas eles não falam disso na minha frente. Papai Alde diz que em todas as missões, a gente ganha alguma cicatriz. Eu não gostei disso. Não quero que eles se machuquem. Então eu perguntei pra eles se eles falam serio quando falam de morrer pela missão. Os dois ficaram bem serios e se olhando. Eles então disseram que a missão é um ato de amor. Disseram que a deusa os ama e abenssoa o amor deles e a nossa familia. Por isso, eles protejem o mundo que a deusa ama tanto. Também falaram que protejem o mundo por mim. Eles querem que eu tenha uma vida feliz e vão se sacrificar por isso se precisar. Eu fiquei assustado e comecei a chorar. Não quero que eles morram. Eles me abrassaram e disseram que vão fazer de tudo para vencer todas as batalhas porque me amam muito. Eu também amo eles demais. Não gosto nem de pensar que podem morrer.
Ironicamente, a única parte do meu desejo que se cumpriu é que meus pais morreram no mesmo dia. Não foi a morte tranquila que eu imaginei, muito pelo contrário, mas o amor que sentiam um pelo outro esteve presente até o fim. Papai Alde morreu para salvar Papai Mu, ainda ao início dos combates. Shiryu me confidenciou que Papai Mu lutou com uma força jamais. “O cosmos dele queimava, arrasador. Era como se os cosmos de Aioria e Milo não passassem de meras fagulhas perante um grande incêndio”. Foi o suficiente para eu entender que Papai Mu lutou por algo muito maior do que meras convicções militares. O que alguns viram como amor, para outros, não passava de egoísmo. Detratores procuraram jogar os nomes de meus pais na lama, alegando que eles teriam colocado interesses pessoais acima da missão. “Se Touro não tivesse se sacrificado, poderíamos ter alcançando uma vitória fácil”. “Áries foi imprudente, colocando tudo a perder”. E eu, o menino, que jamais havia sido um exemplo de bom comportamento, mandei a disciplina às favas. Ignorando todos os ensinamentos de meus pais, desci a mão em todos os filhos da puta que abriam a boca para falar mal deles. Coloquei em prática todos os golpes baseados na força bruta que Papai Alde me ensinou, me tornando a ovelha negra do Santuário. Os traidores se tornaram mais ardilosos, armando emboscadas para me atacar em bandos. Logo, meus hematomas ficaram conhecidos por todo o Santuário, porém, muito maiores, eram as cicatrizes que eu deixava em meus inimigos.
Certo dia, após mais uma dessas surras, eu descia as escadarias de volta para os aposentos dos aprendizes. Nariz sangrando, camiseta branca tingida de vermelho e sujeira, cortes nos braços. Apenas desejava voltar ao meu alojamento o mais rápido possível quando um dos lacaios da Deusa disse que ela solicitava minha presença imediatamente. O pobre homem ficou branco como um fantasma quando eu virei para encará-lo, tão assustadora devia ser a minha aparência. Subimos as escadarias sem trocar uma só palavra. Eu apenas pensava se, finalmente, seria punido pela minha indisciplina. No fundo, era o que eu desejava, eu acho. Estava sendo um mau garoto, uma criança birrenta. Talvez um castigo me fizesse bem. Talvez fosse a forma de me fazer notar num Santuário que começava a se reerguer após a carnificina da Guerra. Ainda hoje sou assombrado pela expressão no rosto de Athena quando adentrei sua sala privativa. Ela pediu que eu me sentasse e então se retirou da sala. Voltou algum tempo depois, trazendo uma bacia com água, toalhas, curativos. Em silêncio, ela puxou uma banqueta para se sentar ao meu lado. Suas mãos delicadas tomaram um dos meus braços sujos e, com uma gentileza impossível, usaram a toalha umedecida em água morna para limpá-los. Senti vergonha. Vontade de chorar. Lutei contra esses sentimentos. A Deusa me olhava de quando em quando, rosto pleno de preocupação. O silêncio era sufocante, assim como a gentileza dela. “Por que a senhora está fazendo isso?” Eu, o menino mimado, o mau soldado, sempre oferecendo provas da minha indisciplina. Ela então me olhou, com um meio-sorriso, e baixou os olhos como se carregasse um fardo de culpa sob os ombros. “Os seus pais viveram e lutaram por amor. Amor a mim, a você, um pelo outro. Eu aprendi muito com eles. Gostaria de cultivar ao menos um pouco desse amor”. Caímos em total silêncio mais uma vez. A Deusa continuou o seu gesto, tratando de minhas feridas tal qual uma mãe... tal qual meus pais faziam quando eu me machucava brincando ou durante os treinamentos. Quando ela terminou, pousou a palma da mão em meu rosto e pediu, em tom de súplica “cuide-se Kiki”. O castigo que eu tanto ansiava nunca veio. Fui embora sem nem ao menos dizer obrigado.
30 de março de 1991
Hoje estamos de partida para a Grécia para sempre! Papai Alde e mais um pessoal do Santuario vieram ajudar com a mudança. Vou fazer muitos amigos e viver muitas aventuras! E vamos estar juntos pra sempre, eu e meus pais! Mal posso esperar para escrever sobre tudo.
Ironicamente, esta é a última anotação em meu diário. Em Jamiel, o tempo não passava, logo, eu escrevia sobre toda e qualquer coisa. Na Grécia, tudo mudou. Para mim, viver se tornou mais importante do que escrever. Por que eu haveria de contar sobre o jantar, se eu podia saborear a comida e rir sobre as fofocas que meus pais compartilhavam à mesa? Por que eu descreveria o meu treinamento se, após as atividades diárias, eu tinha amigos para correr por todo o Santuário? As páginas deste diário ficaram pequenas demais para a minha vida. Ainda que a Guerra fosse uma sombra pairando no horizonte, ela parecia muito pequena e distante se comparada ao fato de que não precisaríamos mais lidar com a dor da partida. Se Papai Alde deixava nossa Casa Zodiacal, por qualquer motivo que fosse, bastava olhar escadaria acima para vê-lo acenar e dizer “eu já volto!” Se Papai Mu precisava retornar a Jamiel, não demorava mais do que algumas poucas horas, tempo o suficiente para encontrar alguma ferramenta esquecida ou renovar o estoque de Pó de Estrelas. Ainda por alguns meses, antes de me deitar, eu lembrava de meu pobre diário, porém, eu tinha tantas coisas em minha cabeça que o deixava de lado. “Amanhã escrevo algo!” Chegava o amanhã e eu me ocupava com tantas outras coisas, abandonando-o novamente. Acabei por esquecê-lo. Sequer lembro se fui eu ou Papai Mu quem o guardou nessa gaveta. E, se não fosse a minha curiosidade, meu diário estaria repousando ali para sempre, como num pequeno túmulo.
Eu não me tornei nada do que meus pais me ensinaram. Falaram-me de honra, de tradição, falaram-me sobretudo de amor. Não sou um soldado valoroso, não sou um homem digno de vestir uma Armadura de Ouro ou de preservar as tradições lemurianas. Sou incapaz de amar. E ainda assim, dói (dói dói dói demais). Eu choro. É o que me resta. Choro choro choro choro. Sou mesquinho e cruel. Afastei de mim todos os que se preocupavam comigo. Choro choro e a dor não passa. Dói dói dói dói ainda mais. Eu neguei a bondade da Deusa. Eu ignorei quando Seiya defendeu, tantas vezes, a honra de meus pais. Eu abandonei Shiryu e Shunrei, deixei de lado minhas obrigações. Choro choro ainda mais por que não consigo parar? Dói até quando vai doer? Eu sou um grande bosta. Uma carcaça de adulto. Meus pais devem estar envergonhados com o que me tornei. Joguei os ensinamentos deles fora. Só queria eles de volta. Apenas isso. E isso eu não posso ter. Nem mesmo a Deusa pode desafiar o ciclo da vida ao seu bel-prazer. Choro choro choro logo eu que acreditava não restar mais uma lágrima dentro de mim choro. Só queria pedir perdão. À deusa, a Shiryu, aos outros... Aos meus pais. Eu os envergonhei. Por isso, dói dói dói dói. É mais fácil jogar a culpa nos outros, não é mesmo? Eu só queria me desmanchar no ar, pois aí não haveria mais dor, nem choro choro choro. Eu queria poder fugir, mas ainda estou aqui. Estou vivo. Como me tornei esta coisa? O menino iria se assustar com o adulto que me tornei.
