Chapter Text
Eloy aprendeu cedo que a vida não avisa quando vai virar de cabeça para baixo, basta estar de pé quando acontecer.
A noite em São Paulo estava quente e úmida, típico de dezembro. O Allianz Parque lotado pulsava com milhares de vozes em sincronia com a música, a banda que dominava as paradas de rock nacional há quase uma década. No palco, Eloy batia nas baquetas com a precisão de quem nasceu para aquilo. Suor escorrendo pelo rosto, cabelo castanho comprido grudado na nuca, olhos fechados enquanto conduzia o ritmo frenético de "Portal".
De repente, um estrondo seco cortou o ar. Não era parte da música. Uma bombinha caseira explodiu perto dos amplificadores, espalhando fumaça e estilhaços inofensivos, mas o suficiente para causar pânico na plateia. Gritos, correria, luzes de segurança acendendo.
A banda parou no meio do refrão com o susto.
—QUE ISSO MEO? — Cindy deu um salto para o lado oposto de onde a bombinha estourou. — Caio! — Buscou pelo namorado imediatamente.
Eloy se afastou da sua bateria olhando para a plateia desesperada, viu os seguranças interceptarem o trombadinha responsável e arrastarem para a lateral do palco. Era alguém jovem, muito provavelmente adolescente, ele ria como se o que tivesse feito fosse hilário. Viu alguém da produção subir no palco para falar com a Cindy que acena e fala no palco tentando acalmar a multidão de fãs.
Nos bastidores, a produção chamou a policia imediatamente, em poucos minutos a viatura chega na arena e o show seguia seu ritmo. Uma dupla de policiais entrou e seguiram a segurança até o adolescente.
No palco Eloy batia nos pratos da bateria com força até interceptar uma silhueta familiar na lateral, como poderia não reconhecer a menina por quem se apaixonou e sente falta por mais de uma década? Sua mão fraqueja e deixa baqueta cair, chamando a atenção de Ale que vira para ele preocupado.
Pegou rápido a baqueta para voltar a tocar, mas agora contando com a memória muscular para continuar a música, sua atenção estava focado em seguir a mulher com os olhos até onde ela vai.
Kemi estava ali.
Não era uma lembrança.
Não era uma fantasia.
Era ela, de farda, com as tranças prateadas presas em um rabo de cavalo e o rosto lindo mais maduro de quando ele a viu pela ultima vez.
Kemi seguia um dos segurança da arena junto do seu colega, estando alerta aos arredores não demorou para enxergar no palco de quem tratava o show e não pôde deixar de sentir uma acelerada no coração.
Concentra Kemi. Pensou consigo mesma.
Chegaram no adolescente, era um menino muito jovem, estava sentado com cara emburrada meio chateada ao lado de um segurança. Kemi, toma a frente.
—Foi ele?
—Sim Sargento.
—Qual o seu nome guri? — O garoto se encolheu na cadeira. — O que você jogou no palco? Entende o risco do que poderia ter acontecido?
O tom não era grosseiro, mas firme. Tal qual o tom de uma mãe.
—Eu... Foi só uma bombinha! Não machuca nem machucou ninguém!
—Pode não ter machucado, mas quem disse que não machuca? Poderia ter causado queimaduras nos artistas, se acertasse o rosto de algum deles? Poderia ter causado até danos a visão. — O bico do garoto cresce mais. — Por que você fez isso?
—Foi um desafio.. estava com os meus amigos...
—E onde estão esses amigos agora?
—Fugiram.
—Olha, você não precisa me ouvir se quiser, mas esses amigos não vão te levar a um bom caminho. Bora lá garoto, vou te levar para delegacia e acionar os seus pais.
O garoto agora com olhos marejados levantou e seguiu sem resistência o segundo policial presente, antes que Kemi seguisse atrás deles:
—Kemi? — Uma voz rouca soou na sua retaguarda, quase um sussurro, como se tivesse medo de assustar.
Os olhos castanhos dela encontraram os dele. Por um segundo, nenhum dos dois respirou. Kemi, tentando manter a compostura profissional, se vira totalmente na direção do outro.
O homem na sua frente não era exatamente o mesmo garoto por quem se apaixonou e quebrou o coração. Esse tinha muitos músculos a mais, mais alto, mais velho e olhos melancólicos que a olhavam com saudades e receio.
—Eloy. — Disse simples, Firme... e mentiroso.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno e incrédulo. O silêncio a seguir foi pesado, cheio de coisas não ditas e de anos acumulados.
—Você... — Ele começou, mas então parou, como se não tivesse certeza do que diria e o que deveria dizer. Só sabia que não podia deixar passar. — Você virou uma policial.
—Sargento. —Ela corrige no automático, depois tentou suavizar a tensão na voz. —E Você virou exatamente o que disse que seria. —Disse com um sorriso contido. —Um músico famoso.
—Eu procurei por você. —Ele deixa escapar.
O instinto de defesa da Kemi é acionado involuntariamente. —Não era para procurar.
— Eu sei — ele assentiu, os olhos nela o tempo todo. — Mas nunca esqueci.
Ela engoliu em seco.
— Também não — confessou, e aquilo pareceu arrancar algo dos dois. — Eu preciso ir, estou em serviço.
Então seguiu pelo caminho por onde veio até a viatura onde recebeu um chamado do parceiro pela demora, se desculpou e entrou na viatura para prosseguir com o seu trabalho tentando não se ocupar com pensamentos não importantes agora.
...
A casa estava quieta demais quando Kemi chegou.
Não era um silêncio ruim. Era o tipo que se constrói com rotina, respeito e cansaço compartilhado. A luz da cozinha estava acesa, suave, e o cheiro de arroz recém-feito ainda pairava no ar. Junior tinha deixado a panela tampada, como sempre fazia quando ela se atrasava.
Kemi pousou as chaves no balcão com cuidado excessivo, como se qualquer ruído mais alto pudesse denunciá-la. Tirou o coturno devagar. O uniforme parecia pesar o dobro do habitual.
Ela encostou na pia, respirou fundo… e percebeu que estava tremula.
A imagem dele voltava sem pedir licença. O sorriso contido. A voz dizendo seu nome como se fosse algo frágil demais.
— Mãe?
A voz veio do corredor, baixa, quase tímida.
Kemi virou-se rápido demais.
— Oi, pombinha.
Junior apareceu na porta da cozinha usando uma camiseta larga demais e o cabelo caindo nos olhos, como sempre. Tinha o corpo ainda em transição entre menino e quase adulto, e aquele jeito calmo que fazia o mundo parecer menos barulhento só por existir.
— Você demorou — ele comentou, sem cobrança.
— Ocorrência — ela respondeu automaticamente.
Junior a observou em silêncio. Ele tinha aprendido cedo a ler as pausas da mãe. Os pequenos desvios, respostas automáticas. O olhar que demorava mais do que devia em lugar nenhum.
— Você tá… estranha. Aconteceu algo sério? — disse por fim, com cuidado.
Kemi soltou um ar pelo nariz, quase rindo.
Ela se sentou à mesa, passando a mão pelo rosto. Aquele menino… sempre atento. Sempre gentil demais para alguém da idade dele.
— Vem cá, paçoca — chamou, puxando uma cadeira.
Junior se sentou de frente para ela, na cadeira ao lado dela.
— Aconteceu alguma coisa ruim?
— Não — ela disse rápido demais. Depois respirou. — Não ruim. Só… inesperada.
Ela pensou em mentir. Pensou em dizer que era cansaço, ou mais um dia difícil de trabalho. Mas nunca foi esse tipo de mãe.
— Hoje eu encontrei alguém — começou, escolhendo as palavras com cuidado.
Os olhos de Junior se arregalaram um pouco.
— Alguém tipo… alguém?
— Tipo alguém do passado — corrigiu. — Bem do passado.
Ele inclinou a cabeça, curioso.
— Da época da escola?
Kemi sorriu de leve.
— Do ensino médio.
— Nossa — ele murmurou.
Ela riu, dessa vez de verdade.
— Alguém que foi importante pra você? — perguntou, sem olhar direto.
Kemi sentiu o peito apertar.
— Foi meu primeiro amor.
Junior levantou o olhar, surpreso.
— Primeiro… tipo primeiro primeiro?
— Tipo esse mesmo — confirmou. — Aquele que a gente acha que vai durar pra sempre porque ainda não sabe que o mundo é grande demais.
Ele absorveu a informação em silêncio.
— E vocês… brigaram?
— Eu terminei — ela disse. — Por medo.
Junior franziu o cenho.
— Medo de quê?
Ela pensou antes de responder.
— De perder. De não ser suficiente. De não saber amar do jeito certo. Eu era imatura como todo jovem, eu também era ciumenta e paranoica demais para conseguir manter um relacionamento saudável diante todas as mudanças da vida de adolescente para a vida adulta. Especialmente com a escolha de carreira que ele quis seguir.
Ele ficou quieto por alguns segundos, depois disse:
— Você ama do jeito certo.
A frase simples quase a desarmou.
— Obrigada, pomba.
— Você ainda gosta dele?
A pergunta era direta. Honesta. Sem julgamento.
Kemi olhou para o filho e decidiu não fugir.
— Eu nunca deixei de gostar — disse baixinho. — Só aprendi a guardar.
Junior assentiu, sério demais para os quinze anos que tinha.
— Guardar às vezes cansa, né?
Kemi estendeu a mão e apertou a dele.
— Cansa.
Eles ficaram ali por um tempo, em silêncio. Dois mundos diferentes, unidos por um cuidado silencioso.
— Você vai ver ele de novo? — Junior perguntou.
Kemi pensou no olhar de Eloy. No convite não feito. No que ainda estava suspenso no ar.
— Não sei — respondeu com honestidade. — Mas, se ver… vou tentar não fugir dessa vez.
Junior deu um meio sorriso tímido.
— Só não esquece que você já é suficiente.
Kemi sentiu os olhos arderem.
— Nunca esqueço, paçoca. Por sua causa. Só que agora é diferente, não somos mais os dois adolescentes de antes, as coisas mudaram. Eu tenho você agora. E você, para mim, é mais importante que tudo na vida.
O sorriso do menino permanece e abraça a mais velha com força.
Ela se levantou para aquecer a janta, tudo o que Junior conseguia fazer: Arroz e calabresa, mas o passado continuava ali, sentado à mesa com eles, esperando a hora certa.
