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Por que eles? Por que não eu?

Summary:

Com o ritual de troca de corpos finalizados, Remi decide ter uma conversa com o ocultista que serviu de receptáculo para ele.

Ou,

Labirinto descobre que o corpo de Aguiar se foi, e não reage bem.

Notes:

Essa fic foi inspirada em uma fanart da saturn willow, no X, e eu não pude deixar de querer escrever sobre.

Não sabemos se os assassinos realmente estão vivos nos corpos, mas como ainda n foi revelado, nada me impede de escrever hehe

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Os passos de Remi ecoavam pelo corredor, unidos a outras duas presenças atrás dele, que murmuravam entre si sem que ele nem prestasse atenção no que diziam. Seu coração palpitava com força, sua mente girava a mil por hora, a cada segundo se perguntando se isso era mesmo uma boa ideia. Mas, seu orgulho falava mais alto, ainda firme mesmo depois de todos os acontecimentos recentes.

Claro, falar com a pessoa que serviu como seu corpo durante dias poderia terminar em um desastre, mas ele não voltaria atrás em uma decisão. Ele já passou por pior.

Nada poderia ser mais horrível do que olhar nos olhos da pessoa que você um dia amou, e saber que era alguém completamente diferente agora. Comparado a isso? Seria moleza. Era o que ele tentava se convencer em sua cabeça.

Assim que a cela aparece em seu campo de visão, Remi finalmente interrompe a conversa atrás de si:

– Me fala, ele realmente se lembra de tudo? Vocês não disseram que... ele tinha apagado a própria memória ou algo assim?

Agatha e Arthur, que estavam logo atrás dele, dão um leve pulo quando a voz do homem os interrompe depois de muito tempo quieto, antes da garota assentir e dar alguns passos para ficar ao seu lado.

– Não, ele não apagou a memória. Ele a deixou guardada na própria cabeça, em uma espécie de labirinto. É como uma caixinha em que só ele tinha a chave.

– Mas, aparentemente, esse ritual não era permanente. – Arthur diz com seriedade, também estando lado a lado com os outros dois. – Durou exatamente o tempo em que vocês ficaram no Hexatombe... É quase como se ele soubesse.

Remi franze a testa para si mesmo com as informações, uma dor de cabeça aguda o forçando a manter a compostura, o lembrando de que deveria estar descansando e não buscando coisas onde não tinha. Isso só o faria mal, ele sabia. Talvez seja por isso mesmo que esteja fazendo isso.

"Você definitivamente não é a mesma pessoa de antes."

Ele se lembra das palavras de Giovanni. De como o homem disse que descobriria tudo depois que saíssem de lá. Mas no final, nada mudou. Eles não sabiam nada.

Quem era ele? Como não tinham nada sobre esse cara?

– Remi? Remi, ei. – A mão de Arthur pousa no ombro dele, o tirando do transe. – Tem certeza de que quer fazer isso? Já foi difícil pra você, com o Jasper... Eu não quero que—

– Eu tô bem. – A voz dele sai bruscamente, desvencilhando o ombro da mão do outro homem e ignorando os olhares preocupados que recebe enquanto chegam perto da cela. – Quero fazer isso sozinho.

Os dois se entre olham. Agatha está prestes a falar algo, antes que Arthur a impeça, balançando a cabeça.

– Tudo bem, Remi. Mas não podemos te deixar totalmente sozinho com ele. Vamos estar aqui perto, ok?

Ele assente.

– Chama se precisar de ajuda, por favor. – A voz de Agatha diz, de maneira preocupada, antes que ele escute seus passos se afastando um pouco.

Com uma respiração profunda, Remi se permite dar alguns passos para frente em direção a cela, o suficiente para avistar a figura com quem buscava conversar.

Labirinto. Ou, pelo menos era assim que ele continuava o chamando em sua cabeça, já que ninguém sabia seu verdadeiro nome. Ele estava no canto, de costas como se nem tivesse percebido a presença de Remi, ou se importado. Conseguia ouvir murmuros baixos e incompreensíveis vindo do homem, enquanto arrastava os dedos pelas marcas cicatrizadas de labirintos em seu próprio braço.

– Ei, você. – A voz de Remi ecoa pelas paredes da cela, firme, tentando esconder um tremor que ele fingia não existir. – Estou aqui para conversar.

O homem, no entanto, nem se deu o trabalho de se virar. Remi não sabia se ele estava em uma espécie de transe, ou se o ignorava de propósito, mas já podia sentir uma raiva começando a se acumular em seu peito. Ele odeia ser ignorado.

– Você ouviu o que eu disse, careca? – Ele bate o braço contra a grade, mais uma vez não vendo nenhum tipo de reação.

Mas antes que a fúria tomasse conta, Remi se força a respirar, enchendo seus pulmões de ar antes de solta-lo em um suspiro profundo. Ele precisava se concentrar. Arthur e Agatha estavam a alguns passos para trás e provavelmente já reconsiderando a situação, ele não podia deixar isso acontecer.

– ... Eu sou o agente que trocou de corpo com você.

No momento em que as palavras saem de sua boca, os murmuros incessantes param, e a cabeça de Labirinto se move lentamente para olha-lo por cima dos ombros. Então, ele começa a caminhar em passos lentos até finalmente estarem frente a frente, através das grades.

Remi não pode deixar de engolir em seco quando seus olhos se encontram. Era como... Olhar para um espelho, com um reflexo que ele pensou por algum tempo ser seu. Ainda assim, ele foi essa pessoa. Viveu em sua pele, andou com seus pés, possuía seus dois braços. E agora, estavam aqui, um de frente para o outro.

Os olhos de Labirinto o percorrem dos pés a cabeça, em um silêncio ensurdecedor e quase desconfortável. De alguma forma, o ocultista parecia ainda pior. Não que sua aparência exalasse normalidade, mas Remi podia notar as fortes olheiras, os trapos bagunçados, sem contar a maneira como estava quando ele chegou. Será que ele poderia estar pensando em uma maneira de escapar?

Remi não fazia ideia de como esse homem era. De que jeito agia, se era alguém sério, ou tinha a mesma personalidade de quando colocava aquela máscara. Um lunático completo.

De vez em quando, ele ainda conseguia escutar o som da própria risada dentro da cabeça. Ou era a risada dele? Não sabia dizer.

– ... Eu vejo. – A voz de Labirinto ressoa, os olhos se demorando um pouco demais no braço protético. – Bem que eu me lembro da sensação de algo faltando.

Remi estremece, o braço direito instintivamente se estendendo para segurar a prótese contra o próprio peito. O que era isso, vergonha? Medo? Não. Nada disso.

– Conversar, você disse? – O homem volta a encara-lo. – Acha que vai tirar alguma informação de mim, porque compartilhamos um corpo?

Remi deixa escapar um riso abafado.

– Não que eu precisasse disso pra tirar alguma coisa de você. Mas, como eu disse, quero apenas conversar. – Ele cruza os braços, pensando nas melhores palavras para usar. – Apagar a própria memória, hein? Foi uma jogada e tanto. Me diz, como você sabia que o ritual ia acabar logo quando a gente voltasse?

Labirinto o olha de cima a baixo novamente, antes de dar de ombros.

– Um chute.

– Chute? Acha que eu vou acreditar nisso?

– Não estou tentando te convencer a acreditar. – O ocultista começa a caminhar pela cela, o ritmo tão devagar quanto suas palavras. – Com um ego tão grande como o seu, eu dúvido que o faria mesmo, Remi.

Ele arregala os olhos, caminhando rapidamente na direção do outro.

– Como você sa—

– Tenho alguns lapsos de memória. Não é muito, no entanto. – Labirinto toca em seu próprio pulso, deslizando os dedos pelas marcas novamente. – Seu nome e esse sentimento de... Orgulho são as poucas coisas de que me recordo.

Quando levanta o olhar novamente, os lábios dele estão curvados em um sorriso, um sorriso que por algum motivo fez o sangue dele gelar.

– Não sabia que a ordem podia ter agentes tão... Controversos.

Remi estreita os olhos com as palavras, descruzando os braços enquanto aponta o dedo para o homem.

– Não fala como se me conhecesse. Você não sabe nada sobre mim.

Ele odeia como a risada que ouve em seguida faz seu peito se apertar de uma maneira esquisita. Talvez ele finalmente estivesse mostrando a verdadeira face? Ou estava apenas brincando com ele, ganhando tempo para alguma coisa? Não, ele não podia se deixar ser enganando.

– Você se acha bem esperto, né? – Remi firma as duas mãos ao redor das grades, sentindo os músculos tensos quanto mais ouvia aquela risada. – Acha que tá por cima, com metade da sua equipe morta?

– Remi, não! – A voz de Arthur grita de trás dele.

Mas já era tarde demais.

As risadas, que antes ecoavam pelo corredor, cessam imediatamente. O ocultista o olha, e ele não consegue entender sua expressão.

– O que?

– Remi, por favor... – Agatha tenta o chamar, enquanto ela e Arthur se aproximavam rapidamente.

Ele ignora.

– Mortos. – Ele repete, as palavras afiadas saindo de sua boca como veneno enquanto balança as grades em suas mãos. – Meus amigos morreram naquela merda de lugar! E tudo— tudo isso começou por você, porra!

Seus olhos começaram a lacrimejar, e ele odeia isso. Odeia as mãos que seguravam seus ombros como tentativa de acalma-lo. Odeia que tivesse que culpar outra pessoa para cobrir sua própria incompetência. Mas o pior de tudo, é que nada disso parecia afetar o homem em sua frente. Na verdade, nada do que ele gritava parece estar sendo ouvido.

Por que ele não olhava para ele?

– O Aguiar... Morreu? – É o que o outro diz, depois do que pareceu uma eternidade.

Sua voz é baixa, monótona, como se estivesse testando uma possibilidade. Seus olhos adquiriram uma aparência vazia, encarando um ponto específico. Esperando uma resposta.

Remi não entende essa mudança.

Ele se importava? Como um assassino maníaco poderia sentir outra coisa por alguém? Tinha que ser uma armadilha.

Mas, se fosse verdade, talvez ele pudesse usar isso. O homem não sabia que as mentes dos assassinos estavam nos outros corpos. Podia engana-lo. Faze-lo se sentir vulnerável agora que não tinha mais ninguém. Ele se arrependeria de ter começado tudo isso. Sofreria por uma perda.

Ele iria sentir o que ele sentiu.

– Sim. O Aguiar está mor—

Remi mal consegue terminar sua frase. Labirinto o alcança através das grades, agarrando a barra de sua gola e o puxando contra as barras de metal.

– Eu sei que é mentira! – O homem o segura, batendo o rosto dele contra as barras. – Cadê o Aguiar!? O que vocês fizeram com ele!? Me responde, porra!

Com seus rostos próximos, Remi consegue ver cada linha de expressão franzida em raiva. Aquele rosto, antes calmo, agora centrado em uma fúria desesperada, dentes cerrados como se fosse quebrar a própria mandíbula e pupilas tremendo igual a um animal feroz prestes a atacar.

Apesar de que ele já estava atacando, pressionando-o contra as grades e puxando a gola de sua camisa de uma forma que se apertava em volta de sua garganta, aos poucos dificultando sua respiração enquanto ele começava a engasgar.

Seria um jeito idiota de morrer, tudo porque ele quis que outra pessoa, novamente, compartilhasse da mesma dor.

Sua visão já estava embaçada pela falta de ar, podia sentir uma lágrima escorrer pela bochecha e um zumbido começar a ecoar em seus ouvidos. Mesmo assim, conseguia escutar vagamente as vozes de Agatha e Arthur, tentando desesperadamente convencer o homem a solta-lo.

– Calma, calma, por favor, solta ele! O Aguiar tá vivo, o corpo se foi, mas a mente dele não!

– Traz ele, agora! – As mãos dele se apertaram ainda mais ao redor da garganta de Remi.

– Agatha, vai buscar o Aguiar, rápido!

A garota balança a cabeça, correndo para busca-lo.

Remi quase desmaiou nesse meio tempo, mas felizmente, Arthur conseguiu convencer o ocultista a pelo menos afrouxar o aperto o suficiente para que pudesse respirar de novo. Porém, ele continuou prendendo o homem contra as barras, ameaçando que poderia voltar a enforca-lo a qualquer momento.

Entre tossidas e respirações ofegantes enquanto recuperava o fôlego, Remi só podia se xingar mentalmente. Que ideia ridícula. O que ele pensou que iria conseguir com isso?

Depois de alguns minutos tortuosos, ele consegue ouvir passos de duas pessoas se aproximando. Uma silhueta com cabelos loiros entra em sua visão periférica, e ele fecha os olhos com força, se recusando a olhar.

– Que porra é essa? – Os dedos de Labirinto ameaçam se fechar novamente em seu pescoço. – Eu falei pra—

– Esse é ele, é o Aguiar! – Agatha especula nervosamente, levantando uma das mãos em um sinal apaziguador, enquanto a outra segurava os pulsos amarrados do homem que trouxe.

O corpo de Jasper.

– Ta brincando comigo!?

– Lembra o que eu falei? O corpo dele se foi, a mente não. – Arthur se move para frente dele, falando de maneira calma enquanto gesticulava para trás. – Esse é o agente que trocou de corpo com o Aguiar. Eu te juro, é verdade. Agora, solta o Remi, por favor.

Remi não conseguia ver a expressão daquele que o segurava do ângulo que estava, mas levando em conta o silêncio, ele provavelmente devia estar considerando se o que foi dito era verdade ou não.

Ele se força a finalmente olhar para a pessoa que uma vez conheceu, onde agora, possuía a mente de um assassino.

Jasper— Não. Aguiar estava com os pulsos amarrados atrás das costas, aqueles lindos olhos azuis semi cerrados de uma maneira confusa, como se tentasse compreender a situação.

Ele não o olhou em nenhum momento. Estava encarando especificamente o homem que o segurava.

Então, um riso escapa de seus lábios, e o coração de Remi quase erra uma batida.

Mas aquela risada não era dele.

– Que merda... Você realmente tá ameaçando alguém de morte por minha causa? Eu tô lisonjeado.

O aperto ao redor do pescoço de Remi diminui um pouco mais.

– ... Aguiar?

– É o que parece, né? – O homem tenta dar um passo, mas Agatha o segura, provocando um rosnado irritado do mesmo. – Da pra me soltar, caralho? Não é como se eu fosse fazer alguma coisa com as mãos amarradas.

A garota olha para Arthur, questionando com o olhar. O homem mais velho assente com a cabeça, gesticulando para que o soltasse, o que ela o faz, mas mantém as amarras.

Remi não tirou os olhos do rosto de Jasper em nenhum momento, sentindo vontade de gritar para que aqueles olhos, um dia tão brilhantes, voltassem a se dirigir a ele com amor.

Mas isso nunca acontece.

Em um segundo, ele é empurrado para o lado, sendo segurado por um Arthur muito preocupado que o pergunta se ele está bem. Remi não consegue responder.

Sua cabeça se vira, olhando por cima dos ombros enquanto os dois se encontravam.

O comportamento de Labirinto mudou completamente, estendendo uma mão por entre as grades de maneira hesitante, como se estivesse tentando reconhecer algo familiar.

– É mesmo você, Aguiar?

– Sou eu, eu tô aqui. – Mesmo no corpo de Jasper, era possível discernir a diferença no tom de voz, mais áspero e rude, diferente da maneira suave com qual o homem costumava conversar. – Infelizmente, no corpo de um moleque, pra variar.

Seus punhos se fecham furiosamente. Como ele ousa se referir a Jasper dessa forma?

Ele sente a mão de Arthur pousando em seu ombro gentilmente, uma maneira silenciosa para pedir que não fizesse nada.

A mão do ocultista se esticou para alcançar o rosto de Aguiar, olhando-o de cima a baixo como se analisasse sua nova aparência. Remi precisa conter a repulsa em seu peito ao ver o rosto de Jasper sendo tocado por alguém que não era ele. Pior, se inclinando para isso.

– Você continua mais baixo que eu. – O ocultista murmura com um sorriso.

– Ah, vai se fuder. – Aguiar bufa, sem nenhuma raiva verdadeira por trás de sua voz. Pelo contrário, era quase... Afetuoso. – E você continua um lunático. Não acredito que quase estrangulou alguém por mim. Ficou preocupado, é?

– Claro que fiquei. Apesar das circunstâncias, você estar aqui é tudo que importa pra mim.

– Tsk... Também senti sua falta, seu maluco.

Remi não sabia dizer o que estava sentindo agora.

Ele se sentia humilhado, desolado, como se uma estacada tivesse perfurado seu coração.

Ali estava a figura do homem que amou, com uma expressão tão familiar, suave e contente. Mas tudo isso era para outra pessoa, porque aquele não era Jasper. Era um assassino usando seu corpo.

Um assassino que, apesar de tudo que fez, de todas as mortes e sofrimento que causou, apesar de ter sido capturado e preso, ainda assim conseguiu ganhar. Ele conseguiu voltar para a pessoa que, aparentemente, amava. Saber que ele estava bem, assim como o ocultista também.

Por que? Por que eles?

Por que duas pessoas horríveis que nem sequer se arrependiam de seus atos tinham a chance de se reencontrarem?

O que ele fez para não merecer o mesmo?

Remi sabia que era um ser ruim, mas será que era tão pior quanto esses dois ao ponto de nem mesmo ter a oportunidade de ser feliz ao lado de quem ama? De perder suas duas pessoas queridas no mesmo dia?

Sinceramente, era quase inacreditável que a primeira vez que sentiu inveja de alguém, fora de dois assassinos.

– Remi. – Como um ato de misericórdia, Arthur o puxa para longe, o virando para chamar sua atenção. – É melhor você voltar, isso não está te fazendo bem. Por favor, descansa. Eu e a Agatha cuidamos do resto.

Remi o encara em silêncio, voltando o rosto para os outros dois, olhando uma última vez para o rosto de Jasper em mais uma súplica fracassada de ter aqueles olhos em si, antes de se virar e ir embora.

 

[ . . . ]

 

Seus membros tremiam, sua respiração estava descompassada e seus olhos ameaçavam lacrimejar novamente. Como ele podia ser tão fraco? Por que não podia simplesmente aceitar que Jasper se foi, que não era mais ele ali? Maria se foi também. Ele estava sozinho. Até mesmo a porra de dois monstros sanguinários conseguiam um final feliz.

Isso era um inferno. O verdadeiro inferno dele.

– Remi? Remi! – Em um piscar de olhos, Lena está em sua frente, segurando seus ombros com um olhar preocupado em seu rosto. – E ai? Como foi? Eu estava indo até você agora mesmo porque tinha ficado preocupada e— Remi, você tá chorando?

Ele estava?

Ele passa um polegar sobre a bochecha e consegue sentir a umidade. Lágrimas escorriam de seu rosto, e só agora ele percebe o som de seus próprios soluços.

– Lena, e-eu... Eu não devia ter feito isso. – Ele admite com uma voz trêmula. – Eu só me machuquei ainda mais.

– Ah, querido... – Braços gentis o envolvem em um abraço, deixando-o chorar e esconder o rosto como uma criança sob o carinho da mãe. – Vem aqui, shh... Tudo bem. Tudo bem.

Remi não sabe dizer o tempo que passou abraçado a Lena, chorando como no dia em que os perdeu.

E depois de tudo, se desculpou e se trancafiou no próprio quarto, encolhido na cama e abraçado a um casaco vermelho, encarando com olhos inchados um machado escorado na gaveta.

Qualquer pensamento que tivesse era o quão idiota tinha sido, porque no final, tudo que conseguiu foi uma marca vermelha ao redor do pescoço, e uma confirmação que não queria aceitar.

A confirmação de que, talvez realmente fosse tão repugnante, que não merecia estar na companhia de mais ninguém, além de sua própria.

Notes:

Que neurose

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