Chapter Text
Leon tinha sempre o mesmo sonho.
Já não era exatamente um sonho, era uma memória. Ele não precisava dormir para vê-la, nem precisava pensar nela. A memória vinha tão naturalmente quanto as palavras, se infiltrava nas ações de Leon. Quando arrumava a cama, quando escovava os dentes, quando abria as portas, vinham as labaredas fortes, como se fossem reais.
Não era bem uma memória também, visto que não tinha acontecido ainda. Se havia uma coisa tão certa para o Leon, era que seu sonho – memória; visão; profecia; o que quer que seja seu nome – pode não ter acontecido, mas ele vai acontecer, tão certo quanto a sua morte – pois seu sonho era sua morte, na verdade. Leon estava fadado a morrer. Seu sonho estava fadado a acontecer.
Assim como estava fadado a sonhar, Leon também estava fadado a acordar. As cobertas pesavam contra seu corpo, como mais uma camada de pele. Seus olhos – grogues – abriam com dificuldade, como se houvesse algo segurando-os. Ele alongou seu pescoço para o lado, antes de ser bruscamente acordado com um forte pico de dor. Assustado, tentou colocar suas mãos sobre os ferimentos, mas suas mãos pesavam demais: não de sono, mas de fraqueza.
Leon estava à mercê dos dedos que o tocavam, meio consciente e jogado em uma maca, costurando cortes, enfaixando ossos quebrados. Mas, assim como Leon estava fadado à sonhar, estava fadado à acordar, assim como estava fadado à morrer.
O agente desperta e se levanta bruscamente de sua maca. O movimento deixa sua cabeça tonta, mas, mais que isso, as luzes brancas que piscam ao redor causam sua visão à escurecer. As mãos misteriosas, que antes tocavam-no com precisão repetitiva, parecem ter voltado de onde tinham vindo, tomando o exato mesmo caminho por onde chegaram.
Era um quarto de hospital. Junto dele, duas outras pessoas se levantam da maca, também confusas. Mais próxima, havia uma mulher bem cuidada de cabelos loiros e olhos pretos. Sua maquiagem, antes pristina, agora estava levemente manchada em seu rosto machucado. O outro era um homem alto, completamente oposto à ela, era bagunçado como se tivesse sobrevoado um furacão, suas mechas engrenadas parecidas à um sorvete repartido de morango e vanilla.
O bagunçado desconhecido coloca a mão na testa, e todos entendem uma dor de cabeça compartilhada. “Meu… Óculos… Não…”. E aí acaba, sem nunca terminar a frase sobre os supostos óculos.
Leon tira a robe hospitalar e vasculha seus bolsos no macacão abaixo. A garota pula da maca e começa a ajeitar suas roupas no espelho. “Que dia é hoje? Eu tinha algo marcado para às Quinze, quem são vocês?”.
“Alguém viu meus óculos? Ou meu colar?”.
“Do que você tá falando?”.
“Só procura”.
“Nem te conheço, se erra viu?”.
O homem esguio passa pela sala olhando para a direção oposta dos outros dois, escondendo algo. A outra segue-o com determinação de um cobrador de dívidas.
“E seu nome, qual é?”.
“Meu amuleto primeiro”.
“Bastante esquisito esse nome”.
“Escuta aqui garota”. O homem alto vira seu rosto, já estressado. O grande erro é rapidamente concertado, mas não antes de Leon e a outra verem seus olhos: coloridos e brilhantes, como LED, como algo sobrenatural, como uma…
Leon revira seu último bolso, também vazio. Todos entendem algo que não foi falado. Estavam sozinhos, machucados, sem seu equipamento e, mais preocupantemente, sem nenhuma memória de como chegaram lá, presos em um hospital com desconhecidos paranormais. Cada um se move lentamente para um canto da sala, cautelosos.
“Sophia… Em primeiro lugar. Em segundo-”.
“É o seu nome?”.
“Isso. Me reconhece?”.
“Nem ideia”.
“Em segundo lugar, isso doeu tá? Eu tenho muitos fãs”.
“E eu tinha que te reconhecer?”.
“Em terceiro… Seu nome, pisca-pisca?”.
“Ekko. Sem nomes, loirinha”.
“Bonitinho, tá? Ekko? Em terceiro lugar: é Sophia Del Pulgar”. Ela fala seu nome com seu charme, mas ninguém na sala o reconhece. Leon se esgueira pelos dois em direção à porta da sala. Dessa mesma porta, ecoa um barulho de batida, alertando o garoto e outros dois que se beliscavam.
“Tá ocupado, ok? Licencinha”.
“Se preparem, é uma criatura”.
“Uma… Que? Quem você é, pisca-pisca?”. Sophia é interrompida pela porta, que é jogada para cima de Leon. Sai dela uma criatura bizarra – nem sólida, nem líquida e nem gasosa – composta por uma matéria espectral, boca escancarada em um eterno grito de desespero. Nenhum dos três corre, grita ou chora, todos se preparam instintivamente para o combate. É lá que a maioria da desconfiança se desfaz. Eram todos agentes da Ordem e tinham um alvo em vista.
Leon se desvencilha da porta e da criatura e os outros dois se colocam na frente do adolescente. Sophia pega a perna de uma das macas quebradas e Ekko prontamente soca o monstro, suas mão mais parecidas com manoplas de metal. As pernas do espectro são dissipadas, mas ele ignora o ataque e flutua até Sophia. Suas mãos agarram o rosto dela e, ao invés de pararem ao toque, continuam e entram no cérebro da mulher.
“Sophia, o que te falamos sobre lidar com as evidências elementais?”.
“Mãe, NÃO DEIXE ELES MORREREM”.
“Você têm que entender que você é uma figura de admiração para as suas primas, sabe? Imagine um dia desse, a aMair tenta te seguir por esse caminho?”
“ESSA MEMÓRIA NÃO É MINHA”.
Nun”ca foi”.
Sophia acorda mais uma vez, ainda em pé, olhando para onde estava a criatura a agarrando. A conversa que passou pela sua cabeça não era exatamente uma memória, mas uma mistura delas, junto de algo mais. Sophia navega pelas suas lembranças, tentando criar uma linha, mas os nomes e palavras se misturavam um com os outros.
“A criatura?”.
“Matei”. Ekko também parecia confuso, seus olhos quase formavam memórias misturadas, como as de Sophia. “Vocês são da Ordem?”.
“Depende de quem pergunta”. Era a primeira vez que Leon falava com a dupla.
“Eu posso, talvez, fazer parte de uma certa ordem”.
“Pode falar loirinha”.
“Olha… Não têm porque esconder, tá? Quem é o tampinha?”.
“Leon”. O garoto sabia as perguntas, sempre na mesma sequência.
“E você, têm idade para entrar na Ordem?”
“Você têm idade para cuidar da sua vida?”.
“Ei, ei, ei. Vou defender a Sophia nessa. Quantos anos você têm?”.
“Dezesseis”.
“O que você faz?”.
“Eu sou especialista”.
“Não sei o que isso significa menino”. Os dois adultos se juntaram, ignoraram suas diferenças, para questionar Leon. “Especialista em quê?”.
“Bombas”. Leon sorri. Ele sabe que é melhor no seu trabalho que muitos adultos. “Eu explodo os monstros”. Os outros dois olham ele assustados.. Seu rosto jovem, cheio de sardas, não passava dos dezoito anos e seus olhos eram de cores diferentes, marrom e azul. Outras criaturas gritam pelos corredores.
“Dois adultos e uma criança”. Leon fica calado.
“E uma loira…”.
“Qual eu tenho que ouvir: seu olho vermelho piscando ‘PARE’ ou seu olho verde gritando ‘VÁ’?”. A piada faz o Leon rir.
Todos param e pensam. Isso com certeza não daria certo.
