Work Text:
Você sempre teve dificuldade em parar.
Sua memória volta para um momento da sua infância. Suas mãos estão sujas de terra e de sangue, seu vestido novo está completamente sujo. Você passa os dedos pelo olho esquerdo inchado da sua prima, limpando o sangue do machucado que você mesma fez. Você lembra que essa cicatriz ficaria marcada para sempre…
Ficaria?
A cronologia é um conceito confuso, visto que você está em um lugar fora do próprio Espaço e fora do próprio Tempo. Você lembra: sim, o machucado no rosto dela só apareceria depois, ou antes? A ordem dos fatos não importa e nem altera o produto. A culpada é sempre você.
“Não chora, eu vou cuidar disso”. Suas mãos sempre apodrecem aquilo que tocam. “Não conta para ninguém, tá? Foi sem querer, a gente tava só brincando”. Você jura, mas suas palavras se perdem com o tempo. O Tempo leva todas as coisas.
Quando seus pais encontram as duas crianças sujas e feridas, já desconfiam. Você mantém seu ato convincente: estavam brincando de pique-pega e as duas caíram no chão; tinha tudo sido um grande acidente; doloroso, mas normal. Até mesmo quando criança, você já era uma atriz e tanto.
É justamente por isso que ninguém acha estranho quando você entra nesse ramo. Todo ator mesquinho sabe exagerar a emoção, até mesmo derramar uma lágrima ou outra, mas você? Você controla cada micro-expressão com cuidado, eficiência e convencimento. Você esteve mentindo desde que se conhece por gente.
Mas por que mentir tanto?
O que aquela criança tanto tinha para esconder? Por que as suas falas pareciam tão erradas, independente da veracidade? Mesmo contanto a verdade você mente. Foi tudo uma fachada. A verdadeira você sempre se escondeu nas sombras da sua mente. É justamente outra memória de sua infância que explica tudo.
Você se lembra que ela começa em um armazém escuro, todos os seus seguidores te encarando com admiração e repulsa. Sentado à sua frente, está um doutor Herman Arantes, sorrindo, apesar de preso e machucado.
“Se você quer me matar, eu tenho uma notícia muito ruim”. Ele começa. Todos eles contam essa mesma história, e você já sabe até onde ela vai. “Têm tantos outros eus que nem eu sei contar todos. Pode matar cada um que você encontrar, não importa. Consegue garantir que vai achar todos?”.
Repugnante. Nojento. Esse homem é uma criatura imunda e covarde, uma barata que se recusa a morrer, não importa o quanto você pise e amasse. Você tira o seu capuz e faz ele olhar cuidadosamente o seu rosto. Ele precisa olhar com cuidado, já que os olhos rapidamente começarão a apodrecer.
“Suas vidas. Seus corpos miseráveis. Pouco importam. Seus defuntos importam muito mais que as suas bocas imundas”. Antes de morrer, o Doutor Arantes mal pôde falar as últimas palavras. Ao se levantar, já não sobra nada mais que um esqueleto perfeitamente limpo.
“Verme”. Suas palavras já não deveriam mais perfurar os ouvidos ossudos, mas a figura se move como se respondesse ao chamado. “Me mostre. Me leve à ampulheta”.
“Sophia?”. Alguém te chama, e você não é mais criança. Nunca foi. Suas primeiras memórias são as mesmas que as últimas. Ao piscar algumas vezes, você finalmente se situa onde você realmente está, mas esse não é o Presente. Não existe Presente. “Sophia? Você esqueceu a sua fala?”.
“Perdão?”. Você pergunta de forma automática, e ao olhar em volta, identifica onde está. Aqui é o antigo – ou novo? – estúdio de gravação. Quem está falando? É o diretor, está tudo bem. “Ah, lembrei”. Mentiras. “Vamos tentar a cena de novo?”.
Mais algumas horas de gravação se passam, todos terminam o turno satisfeitos com o progresso da novela. Atuar é como mentir, e, para você, mentir é como viver. As linhas sempre estiveram inscritas, e você esperou demais para chegar na sua fala. Agora o papel é seu, e você é a protagonista.
As reviravoltas se escondem mesmo já tendo acontecido. Os holofotes nunca iluminam a verdade. As gravações só mostram o que já aconteceu. Quando todos saem na sala e só sobra você com o escuro é quando você verdadeiramente se revela. Com cuidado e prática, sem deixar rastros, você coleta a câmera e discretamente troca a lente.
A lente que gravou as suas cenas entra no seu bolso e você se esgueira para fora do estúdio. O motorista dos Del Pulgar te espera na garagem, e, ao entrar, vocês seguem em direção à sua casa. É estranho que a sua família se disponha prontamente a te renegar, mas faz questão de pagar seu carro e suas despesas. Você tira a lente do bolso e o seu símbolo ritualístico reluz no vidro.
Ah, sim. É justamente por isso que você saiu daquela mansão claustrofóbica. Nenhum deles aprovava suas habilidades. Eles tinham medo do seu poder. Eles tinham medo de Quem você estava abrindo contato. Você foi a escolhida, é isso que te diferencia daquele mundo de falsidades. Guardado no seu peito, há algo muito maior que você mesma. Muito maior que eles.
Ou foi por causa “dela”? A memória volta mais uma vez para a sua cabeça, daquele dia calorento de infância. Você e ela. Sua prima. Sua alma mais querida. Maria. Ela te seguia por onde você andava e repetia o que você fazia. Seus momentos de paz e rebeldia sempre tinham companheira. Se a ideia geral de família te trouxesse algum calor, você certamente poderia chamá-la de quase-irmã.
Mas eles te abandonaram. Você era só criança, era para ser só uma brincadeira. Quem diria que a pequena Maria se machucaria tão fácil! Mas não, não foi esse dia. Você sabe muito bem o que criou o grande abismo que preenche um lugar antes tão afetuoso. A grande distância que hoje te separa da sua quase-irmã.
Criança ou adulta, não deveria importar, mas importa. A vergonha que os outros sentem por você é, no fundo, compartilhada. Sua mente está confusa demais: não há ordem correta dos fatos. Para o Presente. Se concentre no Presente.
A fita da novela volta e continua. Os fatos entram em linha, onde, finalmente, você consegue se achar. Você consegue definir o seu ponto no Tempo. Esse ponto não é um sonho, não é uma memória e nem uma visão.
É uma promessa.
O Doutor Arantes entra em cena mais uma vez, mas aqui não há mais falas corretas. É aqui que você pode realmente parar de mentir. “Sobreviva mais um pouco, receptáculo”. A voz do homem é robótica, quase digital, arrogante. “Suas entidades não serão as minhas”.
Ekko e Leon estão em perigo. Você foi capturada. Os doutores acabaram de te matar e o Ciborgue está saindo de sua jaula. “Foi o Composto-X, não? A morfina que aplicamos tinha o Composto-X”.
“Só a morfina?”. Arantes ri. “Tudo nesse hospital têm o Composto-X. Todos os remédios, toda a água, todo o ar. Vocês foram injetados com doses concentradas assim que entraram e assim que foram tratados”.
“E o que isso significa?”.
“No começo? Fraqueza e tontura, um sangue frio… Logo após, seus machucados misteriosamente se curam”. Era muito mais que óbvio, os sintomas sempre estiveram lá. Muito antes do hospital. “Se o paciente for fraco demais, aí vêm a fase letal…”.
“Seus ossos e órgãos derretem. Uma grande sopa de plasma abre de dentro de sua pele. Agora, se o composto identificar um receptáculo digno…”.
“Ele se torna o novo Doutor Adeus”. Você completa, mas isso não aconteceu, aconteceu? Vocês fugiram do hospital. Vocês derrotaram o Ciborgue. Foi meio confuso, foi meio fora de ordem, mas deu tudo certo. “Por isso as memórias compartilhadas”.
“Você é bastante esperta para a sua idade. Quantos anos esse corpo têm?”.
Não é preciso olhar ao redor, e nem sentir árvore qualquer. Você sabe por que isso já aconteceu, mas agora você entende. Você está transcendendo, e, nesse espaço fora do Tempo e fora do Espaço, você consegue misturar o Passado, Presente e Futuro. A sua história.
Coloque as coisas em ordem. Não há mais tempo te segurando, você faz a sua própria cronologia. O Composto-X passa frio no seu corpo e no de seus amigos. Você achava que a substância nunca faria efeito, porque nunca fez, e o que acontecerá já aconteceu.
Entretanto, aquele pensamento está errado. O Tempo não é um rio que te arrasta pelos acontecimentos. Na verdade, o rio é você, sempre foi você. Você sempre foi a árvore e você sempre cresceu infinitamente rumo ao futuro. Seus amigos não serão possuídos por Arantes por um simples motivo: você não deixou, deixa ou deixará.
“Como o composto pode ser revertido?”. Você pergunta ao doutor.
“Pode começar rezando. Depois, pode pedir perdão pelos seus pecados. Não há cura”.
“Onde e quando estamos?”.
“Você sabe ambas as respostas. Se quiser, pode até mesmo decidir em que ponto do tempo isso está acontecendo”.
Você não podia ter mais certeza do que está prestes a fazer, especialmente porque sabe que já o fez. “Não estamos nem na Realidade e nem No Outro Lado. Aqui, é possível contatar as Entidades diretamente”.
Arantes parece desconfiado da afirmação. “Teoricamente, sim”.
Sophia, organize o seu tempo. Escreva a sua história. Defina a ordem de acontecimentos. Você é árvore e você é infinita.
Quando você era criança, você brincava com a Maria. Os pais nem observavam vocês duas, e a vida era mais despreocupada. Entretanto, você não podia deixar de mentir. Você machucou Maria: foram as suas ações; nem você e nem ela puderam admitir, mas foi você. Seus pais nunca mais as deixarão sem supervisão.
Você define que ação leva à consequência. Já que foi isso que mandou, é isso que é.
“Sophia, o que te falamos sobre lidar com as evidências elementais?”.
“Mãe, se pudermos usar o poder Do Outro Lado contra…”.
Ela te encara com um relance de decepção, você enxerga um pequeno brilho por trás das suas íris. É nojo. “Você têm que entender que você é uma figura de admiração para as suas primas, sabe? Imagine se, um dia desses, a Maria tentasse te seguir por esse caminho?”.
Você era a mais nova agente Del Pulgar. Você era fisicamente fraca, mas se excedia na luta genealógica contra o Paranormal. Você era a garota prodígio, pelo menos até descobrirem o motivo dos seus sucessos.
Você não precisava usar rituais para atuar, já era talentosa demais para necessitar disso. Mas usou. Ficou mais famosa. Continuou aprendendo rituais. Continuou desenhando símbolos. Os relances de nojo aumentavam, mas ninguém teve a coragem de te expulsar formalmente. Foi nessa disputa, nessa briga, que Maria foi realmente machucada. Um golpe que colocaria para sempre uma cicatriz permanente em seu olho esquerdo. Eles queriam que você mudasse, que você deixasse esse caminho. Isso é impossível.
É porque você já foi escolhida.
Um espelho encara seu rosto e o reflexo não é nem aquela criança assustada, nem aquela adolescente perdida, nem aquela adulta impulsiva e nem Aquela versão, mais assustadora que todas, que vai estar no fim inevitável da sua história. O reflexo não é nenhuma das suas máscaras, nenhum dos personagens que você atuava.
Ele era verdadeiramente você.
Aquele cabelo loiro que seus pais nunca a deixaram pintar, agora dividido em várias cores. Colorido. Pessoal. Intimo. A tinta invisível passa nas suas mãos e entre suas mechas, e agora você não é mais a que era antes. Agora, você sempre foi assim.
Cada mecha é repartida perfeitamente, separando seu cabelo entre tons belos de amarelo, marrom e rosa. Uma combinação perfeita que é você, só pode ser você e nunca vai deixar de ser você. Reescrevendo a história, e o que antes era predefinido.
Você ouve uma memória, uma voz de alguém tão importante. “Ekko. Sem nomes, loirinha”.
“Loirinha?”. Você não é mais. Na verdade, nunca foi.
“Loirinha não tá certo mesmo”. Nem Ekko lembra o porque chamou você assim. “Err… Sorvete? Napolitano? Tricolor. Vamos usar tricolor”. Ele sempre usou tricolor. É um apelido bonito, esquenta um fogo no seu coração.
“Bonitinho, tá? Ekko? Em terceiro lugar: é Sophia Del Pulgar”. É você.
Reescreva. Mude. Defina. O Outro Lado está dentro de você, mas você também está Nele. Você vê aquela mesma Sophia em prantos que invocou seu primeiro ritual na sua primeira missão. Aquela mesma que negociou com as entidades. Aquela mesma que foi…
“Não chora, eu vou cuidar disso”. Você coloca a mão no seu próprio rosto, e nota que as suas bochechas certamente ficaram menos macias com o tempo. “Não se julgue. Não se esconda. Você pode parar de mentir”. A jovem assustada continua a chorar. “Eu vou te ajudar. Eu vou te dar forças. Você é especial. Não é necessário que nenhuma Entidade faça nada”. Sua voz fica mais leve, já que é você mesma quem está sendo consolada. “Você escolheu você. Eu escolhi você”.
Nós escolhemos você.
“Isso! Você mesmo!”. Você ergue os braços, rezando desesperadamente por ajuda. Sem você, seus amigos virarão mais versões daquele doutor maldito. Você poderia aceitar ser levada, você poderia aceitar ser morta, mas você não vai aceitar que seus amigos sejam nenhuma dessas coisas. Você não pode parar, sempre teve dificuldade em fazer isso. “Liberte a mim. Liberte meus amigos”.
Mas você é fraca demais para todo esse poder. Você está muito abaixo desse patamar. O Nosso patamar.
“Por favor!” Você continua a sua reza, mas é impossível definir se suas súplicas são realmente ouvidas. É uma verdadeira prova de devoção.
O Doutor Arantes agora está mais que assustado, e sua voz está tremendo. “O que acha que está fazendo? Você é idiota? Existem coisas muito piores do que eu”. Mas você faria tudo para cumprir esse desejo?
“Faria! O que quer que seja”. Você chora e esperneia, como aquela mesma criança que acabou de machucar sua pessoa mais querida. “A qualquer custo!”. Dedos sombrios crescem nas suas costas e você sente um arrepio, como se o calor fosse sugado de seu corpo. Nada disso importa.
Doutor Adeus continua. “Eu não posso ser morto de verdade!”. Ele é nada mais que um rato encurralado. “Sempre vai haver mais de mim”. Não vai. Não depois disso. “Que? Quem é… NÃO-”. Não há mais Doutor Arantes.
Você cai de joelhos, chorando, esgotada. Você havia literalmente sacrificado a sua felicidade, a sua identidade, tudo pelos seus amigos. “O quanto disso… Eu vou me lembrar?”.
O Outro Lado não pode responder. Ele é incapaz de se comunicar. Tudo que você vêm ouvindo, tudo que vêm te respondendo. Isso é só algo que sua cabeça inventou. Você lembrará tudo… Tudo que o seu cérebro suportar.
Tudo.
Promessas. Prometida. Profecia. Infinito Cairá. Infinito Retornará. O tempo curva e retorce para dentro de si mesmo. Em espiral. Porque promessas foram feitas para serem quebradas. Você grita em agonia. Informação demais. A executora das regras. Não importa o quanto você vai esquecer, já que, de uma forma ou outra, vai tudo se realizar. Invertido. Coral. Maria. ENPAP. Os mundos giram ao seu redor e você é lançada em órbita em e contra todas as direções. Sua mente é apagada e reescrita infinitas vezes em um cabo de guerra entre a Realidade e O Outro Lado. Cafuné. Anomalia. Conhecimento. Agente do Caos.
Sophia… É o seu nome… As palavras se perdem na atmosfera e, ao pousar no solo de seu cérebro físico, pouco resta.
“O Outro Lado me… Rejeitou”. Sophia recobra seus sentidos aos poucos, chorando em luto por todas as memórias que perdeu.

