Chapter Text
Seus olhos se entre abriram lentamente, um suspiro escapando ao sentir o ar quente, o sol entrava no seu quarto, lançando luzes fracas. Se sentou lentamente, passando a mão sardenta e cicatrizada pelo rosto, ainda se acostumando um pouco, o edredom caiu e se amontoou em seu colo.
A casa estava estranhamente silenciosa. Estranho. Pensou antes de se levantar, vestindo uma calça qualquer antes de sair do quarto e andar pelo corredor, seus passos eram pesados enquanto seu corpo estava levemente curvado para frente. Entrou no banheiro, se virando para o espelho, encarou o próprio reflexo, fungando, sua mão tateou a pia em busca de sua escova de dentes, desviando o olhar apenas quando não encontrou.
O suporte de escovas estava com apenas quatro escovas. Uma verde, uma roxa, uma rosa e uma branca. A laranja - a sua -, havia sumido. Franziu as sobrancelhas antes de olhar para o chão e o pequeno balde de lixo, nada.
— oxe… - a voz de Franco ecoou pelo banheiro, rouca pelo sono.
Se abaixou e abriu o gabinete, procurando por um kit de escovas, pensando que Cindy havia recolocado, como de costume. Soltou um suspiro quando não encontrou nada, e quando se levantou, encontrando seu reflexo, pôde ouvir vozes misturadas vindo da sala - que era basicamente o hall de entrada.
— Aquela atendente não teve um pingo de educação! Meo, eu juro que na próxima vez faço um barraco lá!
— Para de reclamar, Cindy, ela até te deu bom dia.
— Idai! Vocês viram a cara de cu que ela tava me encarando?!
Franco saiu do banheiro, descendo rapidamente as escadas e dando de cara com seus amigos - também a banda que participava. Eles carregavam algumas sacolas, provavelmente haviam passado no mercado para comprar café e talvez almoço.
— Alê concorda que ela tava me encarando com cara de cu! - Alê revirou os olhos antes de olhar para Franco.
— Bom dia. - Alê disse antes de se dirigir para a cozinha.
— Vai vestir uma camiseta, meo, que nojo!
— Bom dia pra você também, Cindy. - Franco foi para a cozinha, vendo Alê retirar algumas coisas das sacolas - bom dia, lelê!
Caio, Eloy e Cindy também entraram na cozinha, no momento, Alê dava dois tapinhas no ombro de Franco.
— Vocês viram a minha escova?
— Porque a gente saberia da tua escova, mano?
— Sem falar que ninguém ia pegar a sua escova, frango. - Eloy comentou, começando a guardar as coisas no armário.
— ela sumiu? - Cindy perguntou, torcendo o nariz.
— é… não achei ela, procurei até no lixo e ela não tá lá.
O quarteto olhou para Franco, Alê retirou dez reais do bolso e deu para Franco, que pegou meio sem jeito.
— Não faz mal, a gente tá precisando mesmo repor as escovas. Vai no mercadinho e compra aqueles kitzinhos’.
— Beleza. Tá frio?
Ele recebeu um grunhido antes de sair da cozinha, voltando para o quarto, vestiu uma regata preta, calçou chinelos e pegou o maço de cigarros na escrivaninha, tirando um isqueiro do bolso da calça - que não fazia idéia de quanto tempo estava lá - e acendeu, saindo do quarto e descendo novamente, logo saindo para a rua.
Ele andou devagar, antes para não correr o risco de entrar no mercado fumando - apesar de ter acendido mais um no meio do caminho. A rua estava vazia, o sol era fraco, apenas lançava luzes fracas em seu rosto. Constantemente, Franco sentia que estava sendo… seguido, observado, e o silêncio estranho não ajudava, parecia que estava meio desligado, não prestando muita atenção nas coisas, apenas naquela sensação incômoda e esquisita.
Finalmente chegando ao mercado, o ar frio lhe atingiu, um arrepio percorrendo o corpo antes de começar a andar pelos corredores, o movimento era fraco, no meio do caminho, parou em um corredor de shampoos, se lembrando que o seu estava acabando. Sua mão estendeu, pegando um dos e abrindo a tampa, fungando fundo, fez isso algumas vezes antes daquela sensação lhe invadir de novo.
Era estranho, e desconfortável. Parecia que tudo e o nada lhe encaravam, as prateleiras pareciam ter olhos e olhares superficiais daquelas moças esquisitas das embalagens pareciam direcionados para si. Ergueu o olhar, procurando por um olhar no corredor, mas estava sozinho.
Ou pelo menos era isso o que Franco queria acreditar.
Aquilo estava se tornando estranhamente comum, coisas suas sumindo - cuecas, camisetas, acessórios, até mesmo seu perfume -, a escopatesia.
Engoliu em seco antes de finalmente se virar, saindo apressado do corredor. O frio pareceu sumir, e o calor do desconforto se instalaram dentro de si, naqueles momentos o calor não era bem recebido para si. Pegou o primeiro kit de escovas, pagou e saiu a passos largos, mas aquilo continuava, era como se um pássaro lhe observasse lá do céu, voando na sua mesma direção.
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