Actions

Work Header

Nós, outra vez

Summary:

O mundo do cultivo estava em paz. Os mortos descansavam, as grandes seitas haviam assinado tratados, e os vivos finalmente aprendiam a arte de simplesmente existir. Mas nas Montanhas Dafan, um selo milenar começava a trincar e com ele, as fronteiras entre vidas passadas e presente.

Jin Ling, agora líder do clã Jin, é atormentado por sonhos que não lhe pertencem: um amor impossível e a culpa de não ter segurado a mão de alguém que amava.

Lan Sizhui se vê preso atrás de uma porta que nunca consegue abrir e a sensação de ter perdido algo precioso em outra vida.

Jiang Cheng e Lan Xichen, forçados a cooperar, descobrem que o ódio que sentem um pelo outro pode ser apenas o eco de um amor anterior e de um filho que, em outra era, chamava os dois de pai.

O que acontece quando você reencarna ao lado das mesmas pessoas, vida após vida, fracasso após fracasso? E se, desta vez, puder consertar o que quebrou?

[XiCheng | Zhuiling | ZhenYi | Mpreg]

Notes:

bom, eu não posto muito em português aqui e é a primeira vez escrevendo sobre mdsz, também tenho pouca experiência escrevendo fantasia
pode haver erros e alguma confusão de informação, então relevem, faz tempo que li o manhua e estou me baseando no donghua
para contexto e desenvolvimento da história: aqui Lan Xichen tem Jingyi como filho
algumas idades podem mudar e os juniors estarão na faixa de 18-20 anos

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Das coisas que atormentam os sonhos

Chapter Text

O mundo do cultivo vivia seus dias mais calmos desde que o Sol se curvara pela última vez diante das lanças de Píer de Lótus. As grandes seitas haviam assinado tratados de não-agressão. Os mortos descansavam em seus túmulos. Os vivos, cansados de tantas décadas de sangue e vingança, haviam finalmente aprendido a arte delicada de simplesmente existir. 

Mas há lugares onde a paz é uma mentira contada pelas árvores. Lugares onde o solo respira memórias que não pertencem a ninguém vivo. As Montanhas Dafan eram um desses lugares e nas profundezas de suas cavernas esquecidas, um selo milenar começava a trincar como gelo na primavera. 

Os primeiros sinais foram sutis, como sempre são nos começos de todos os fins. Um pastor que sonhou com olhos que não eram seus. Uma criança que apontou para o vazio e disse "avô". E, nas casas dos cultivadores, espadas que cantaram sozinhas na calada da noite. 

Ninguém deu ouvidos. Ninguém, exceto os que já haviam aprendido que o destino nunca bate à porta. Ele sussurra primeiro, e quando você finalmente escuta, já é tarde demais. 

 

A terceira noite de pesadelos encontrou Jin Ling ainda acordado. 

Não que ele admitisse tal fraqueza em voz alta. Se alguém perguntasse diria que estava revisando relatórios, ou inspecionando as defesas da Torre Koi, ou qualquer outra atividade digna de um líder de seita. A verdade, porém, pendia sobre sua cama como uma lâmina invisível: Jin Ling tinha medo de dormir. 

O medo não era dos monstros sob a cama. Nem dos fantasmas que assombravam os corredores do palácio dourado, desses ele já estava farto desde a infância. O medo era pior: era o medo de si mesmo. 

Porque nos sonhos, Jin Ling não era Jin Ling. 

Era outra pessoa. Alguém que ria mais fácil, que amava mais forte, que quebrava promessas como porcelana contra o chão. Alguém que tinha um nome que ele esquecia ao abrir os olhos, mas cuja ausência doía como uma ferida ainda aberta. 

Naquela noite, ele nem tentou fingir que trabalhava. Sentou-se à janela do seu quarto, a lua cheia refletida nos azulejos dourados do piso, e observou o jardim lá embaixo. Torre Koi à noite era um mar de lanternas de papel; os servos mais jovens tinham o hábito de deixá-las acesas até o amanhecer, num gesto de esperança que Jin Ling achava ao mesmo tempo infantil e profundamente comovente. 

— Você está com uma cara horrível. Parece que enterraram alguém. 

A voz veio das sombras do corredor, rouca e cortante como navalha. 

Jin Rulan nem se virou. 

— Jiujiu. — Sua própria voz saiu mais cansada do que gostaria. — Já sabia que você tava aí. Seu cheiro de chuva irritada entrega tudo. 

Jiang Cheng emergiu da escuridão como um fantasma vingativo. Trajava as vestes roxas habituais, porém mais simples das que Jin Ling costumava ver o tio usar em reuniões e não trazia Sandu consigo — sinal de que não estava ali a negócios da seita. Sinal mais raro ainda: ele estava ali por vontade própria, e não por obrigação. 

— Seu jiujiu atravessou metade do país no meio da madrugada para ouvir gracinha? — Jiang Cheng parou a poucos passos de distância, os braços cruzados. Zidian brilhava fracamente em seu dedo, como um animal inquieto. — Faz três noites que você não dorme direito. Os servos perceberam. Os anciãos perceberam. Daqui a pouco até as carpas do lago vão abrir reunião para discutir sua cara de cadáver. 

— Então manda elas cuidarem da própria vida. 

— Olha o tom. 

— Você fala pior comigo desde que eu tinha cinco anos. 

— E funcionou muito bem, porque você continua vivo. 

Jin Ling bufou, virando o rosto. Claro que o tio não ia se ofender. Os dois brigavam daquele jeito desde sempre. Wei Wuxian dizia que Jin Ling tinha herdado a habilidade rara de juntar o pior de Jiang Cheng com o pior de Jin Zixuan e transformar tudo numa personalidade só. 

— Me deixa em paz, jiujiu. 

— Deixar você em paz? — Jiang Cheng repetiu, venenoso. — Você é o líder do clã Jin. Se parar de dormir e enlouquecer, isso vira problema de todo mundo. Pode ser maldição, ataque espiritual, ressentimento acumulado... 

— É só um pesadelo. — Jin Ling finalmente se virou, encarando o tio. Sob a luz da lua, os dois se pareciam mais do que qualquer um gostaria de admitir: a mesma mandíbula teimosa, o mesmo olhar que desconfiava da felicidade como se ela fosse uma armadilha.  

— Todo mundo sonha coisas ruins às vezes. 

Jiang Cheng ficou o encarando por um momento. 

— Você não sonhava mais. 

Jin Ling quis argumentar. Quando mais novo, sempre teve muitos pesadelos: o rosto de sua mãe morta, o grito de seu pai, o som molhado da espada atravessando o peito de um tio que ele nem sabia que sentiria tanta falta. Mas esses eram pesadelos de verdade, não aquela coisa viscosa e doce que o visitava agora, aquela saudade de algo que ele nunca viveu. 

— São sonhos estranhos. — Admitiu, baixo. — Eu acordo… e parece que perdi alguém. Como se tivesse esquecido uma pessoa importante. Só que essa pessoa nunca esteve lá. 

Jiang Cheng ficou muito quieto. 

E pela primeira vez em muitos anos, Jin Ling viu algo trêmulo nos olhos do tio. Não medo. Não raiva. Era reconhecimento. 

— Você também? — Jin Ling se levantou tão rápido que quase derrubou a cadeira. — Jiujiu… você também está sonhando com isso? 

Jiang Cheng demorou a responder. 

Desviou os olhos para a varanda aberta, para as lanternas douradas tremendo lá embaixo no escuro. A mandíbula estava tão tensa que parecia prestes a rachar. 

— Não é problema seu. 

— Ah, claro que é! — Jin Ling avançou um passo, indignado. — Você aparece aqui no meio da noite, age como se eu estivesse escondendo uma calamidade nacional, e agora quer bancar o misterioso? Que hipocrisia é essa? 

— É a hipocrisia que vem com ser seu tio. Tenho direito. 

— Que conveniente. 

— Muito. 

— Escute, A-Ling. Eu não sei o que são esses sonhos. Não sei por que estão acontecendo. Mas começaram a pouco mais de um mês, e sei que tem algo a ver com o que está errado na Montanha Dafan. 

Jin Ling franziu a testa. Ah, aquele assunto estava o intrigando na última semana e até se perguntava se não era isso que andava tirando seu sono, já que como líder de seita, quando problemas como os que estavam sendo relatados ultrapassava o nível de controle local e chegava até ele, todos esperavam que ele resolvesse a situação e naquela situação Jin Ling não tinha nem ideia do que tinha que fazer. 

— Os relatórios chegaram até mim também. — Jin Ling disse, mais sério agora. — Os clãs menores perto de Dafan estão praticamente implorando ajuda. Falam de uma névoa que não some nunca, espíritos chamando gente morta há séculos pelo nome… teve cultivador que subiu a montanha e voltou estranho. 

Jiang Cheng lançou um olhar rápido para ele. 

— Estranho como? 

— Alguns ficaram catatônicos. Outros voltaram chorando sem parar. E teve um sujeito do clã Luo que começou a falar num idioma que ninguém reconheceu. Nem os anciãos Lan entenderam. 

Um arrepio percorreu a nuca de Jin Ling só de repetir aquilo. 

— O clã Tangxi Yang foi um dos primeiros a pedir ajuda oficialmente. O líder deles parece que envelheceu dez anos em duas semanas. 

— Com razão. 

Jiang Cheng começou a andar de um lado para o outro, as botas batendo na pedra num ritmo seco. Jin Ling conhecia aquele hábito desde criança. O tio fazia exatamente a mesma coisa quando estava pensando demais, fosse sobre uma ameaça sobrenatural ou sobre qual doce comprar para o sobrinho sem admitir que queria mimá-lo. 

No fim, sempre comprava dois. 

— Existe um selo antigo em Dafan. — Jiang Cheng continuou. — Numa caverna perto do pico norte. Foi colocado lá há mais de oitocentos anos pelos fundadores de três seitas que nem existem mais. 

— E ninguém sabe o que tem lá dentro? 

— Não exatamente. Só sabem que não devia sair. 

A resposta veio seca demais para ser tranquilizadora. 

Jin Ling cruzou os braços. 

— Lan-zongzhu já deve ter mandado gente para investigar. — Tentou soar casual e falhou miseravelmente. — Lan Sizhui e Lan Jingyi provavelmente já estão lá. 

O efeito foi imediato. 

Jiang Cheng parou no meio do passo e estreitou os olhos devagar. 

— Ah, claro. — O veneno voltou para a voz dele, mais suave agora, quase confortável. — O impecável Lan-zongzhu. Sempre tão prestativo. Tão equilibrado. Tão determinado a salvar o mundo do cultivo de si mesmo. 

Jin Ling reprimiu um suspiro. Lá vinha. 

— Zewu-jun não fez nada para você, jiujiu. 

— Ele nasceu Lan. Já é ofensa suficiente. 

— Dramático. 

— Realista. — Jiang Cheng bufou. — Aquela seita inteira vive como se estivesse participando de um funeral elegante há milhares de anos. Falam baixo, andam baixo, respiram baixo. E aquelas regras ridículas— 

— Lá vem você de novo com as regras. 

— Quatro mil regras, A-Ling. Quatro mil! — Jiang Cheng ergueu quatro dedos, indignado de verdade agora. — Quem precisa de quatro mil regras pra viver? Se você precisa escrever “não grite em locais fechados” num pergaminho, talvez o problema seja a pessoa, não a ausência da regra! 

Jin Ling mordeu o canto da boca para não rir. 

— Os Lan valorizam disciplina. 

— Os Lan valorizam sofrimento voluntário. É diferente. 

Ele cruzou os braços outra vez, mas Jin Ling reconheceu imediatamente aquela postura. Jiang Cheng só começava a reclamar sem parar quando estava preocupado demais pra ficar quieto. 

Era uma válvula de escape. 

Sempre tinha sido. 

— Até hoje eu não entendo como Wei Wuxian aguenta viver naquele lugar. — Jiang Cheng resmungou. — Eu passaria três dias lá e começaria a cometer crimes só para ouvir alguém levantar a voz. 

É, conhecendo seu jiujiu e a personalidade euforica e falante de Wuxian, o rapaz também não entendia como ele tinha acabado com uma família em Gusu. 

Também pensou nos amigos Lan que tinha. Jingyi era contrário a tudo que se imaginava de um Lan, enquanto Sizhui era o exemplo perfeito. Com a calma daquele rapaz, na maneira como ele ouvia Jin Ling gritar sem nunca revidar, como se a paciência fosse uma armadura impenetrável, como aguentava todas as brigas de Jingyi e Jin Rulan, como sempre era prestativo o herdeiro Jin e qualquer um a sua volta. 

— Eu sei exatamente do que você está falando, jiujiu. — disse, baixo. 

Os dois se olharam por um momento. Tio e sobrinho. Trovão e faísca. Reconhecendo um no outro a mesma ferida. 

Jiang Cheng foi o primeiro a desviar o olhar. 

— Gusu Lan pediu uma reunião com Yunmeng Jiang e Lanling Jin. — Anunciou, a voz voltando ao tom prático de líder de seita. — Amanhã à tarde, em Recesso das Nuvens. Querem os líderes presentes. Ou pelo menos representantes que não sejam completamente inúteis. 

— Jiujiu... — Jin Ling hesitou. — Você vai? 

— Sou líder de seita. Não fico empurrando problema para os outros resolverem no meu lugar. — Jiang Cheng resmungou. — E não vou deixar você ir sozinho e transformar uma reunião diplomática num incidente nacional. 

— Eu nunca fiz isso e certeza de que você só quer ter uma desculpa para reclamar de Zewu-jun pessoalmente em vez de pelas costas. 

— Cale a boca. 

— Admitiu sem negar. Interessante. 

— Jin Rulan. 

Jin Ling sorriu. Era um sorriso pequeno, cansado, mas genuíno. Esses momentos raros como flores de inverno, em que seu jiujiu deixava transparecer o que escondia embaixo da armadura eram o que mantinha Jin Ling são em meio às politicagens da Torre Koi. 

— Tudo bem. — disse. — Mas, jiujiu... 

— O quê? 

— Na reunião... tente não quebrar nenhum móvel. Os Lan são sensíveis com móveis. 

Jiang Cheng resmungou algo incompreensível e virou-se para sair. Mas na porta, hesitou. 

— A-Ling. 

— Sim? 

— Esses sonhos... mais alguém que convive com você está tendo? Ouyang Zizhen, por exemplo. Ele também está tendo sonhos? 

A pergunta pegou Jin Ling desprevenido. 

— Eu... não perguntei. Por quê? 

— Pois então pergunte. — Jiang Cheng finalmente saiu, mas sua voz ecoou de volta pelo corredor. — E avise aquele moleque que ele vai com a gente também porque o pai dele... 

O resto se perdeu na distância. 

Jin Ling ficou sozinho com a lua e as lanternas e a súbita percepção de que as coisas estavam mais complicadas do que pareciam. 


A viagem da Torre Koi até o Recesso das Nuvens levou apenas algumas horas, mas Jin Ling considerou aquilo uma bênção rara. Quanto menos tempo tivesse para ficar sozinho com a própria cabeça, melhor. Com o vento frio batendo no rosto, a montanha surgindo aos poucos entre as nuvens e um problema concreto esperando por eles no fim da estrada, era mais fácil manter os pensamentos organizados. 

Porque problemas concretos, Jin Ling sabia resolver. 

Uma criatura ressentida atacando vilarejos? Simples. 

Disputas políticas entre seitas? Irritantes, mas administráveis. 

Anciãos tentando interferir nas decisões do clã Jin? Rotina diária. 

Agora sonhos estranhos, memórias que não eram memórias e aquela sensação sufocante de perda sem rosto… aquilo era diferente. Aquilo não podia ser cortado ao meio com uma espada nem resolvido com autoridade de líder de seita. Era nebuloso demais. Escorregadio demais. E Jin Ling odiava coisas que não podia controlar. 

Ao lado dele, Ouyang Zizhen caminhava em silêncio havia tempo demais. E isso, sozinho, já era suspeito. 

Jin Ling lançou um olhar lateral discreto, observando o amigo enquanto subiam os degraus de pedra que serpenteavam pela montanha. Zizhen estava reto demais. Sério demais. Prestando atenção demais no caminho à frente. As vestes do clã Ouyang estavam impecáveis, sem uma dobra fora do lugar, o cabelo preso com perfeição quase ofensiva. Honestamente, aquilo era mais alarmante do que qualquer história sobre espíritos ancestrais. Ouyang Zizhen normalmente parecia alguém que tinha acabado de sair correndo atrás de uma inspiração poética e esquecido que existiam espelhos no mundo. 

— Você está estranho. — Jin Ling comentou finalmente. 

Zizhen imediatamente virou a cabeça. 

— Estranho? Eu? Claro que não. Por que eu estaria estranho? Estou perfeitamente normal. Extremamente normal, até. 

Jin Ling estreitou os olhos. 

— Você está nervoso. 

— Não estou! — a resposta veio rápida demais, aguda demais. Zizhen tossiu logo depois, tentando recuperar a dignidade. — Quer dizer… por que eu estaria nervoso? Vamos apenas nos encontrar com os Lan. Nada demais. Só os Lan. Pessoas normais. Muito normais. Com suas regras normais e sua montanha normal e seus olhares julgadores normais… 

— Você está suando. 

— É calor. 

Jin Ling parou de andar por um segundo apenas para olhar lentamente ao redor. O céu estava completamente coberto de nuvens cinzentas. O vento frio cortava as mangas das vestes e fazia as árvores estremecerem. Eles literalmente estavam subindo uma montanha envolta em névoa. 

Então voltou a olhar para Zizhen. 

— Você quer tentar de novo? 

— É calor interno. Da cultivação. Energia espiritual excessiva. Muito poderosa. Muito intensa. 

— Você quase tropeçou numa pedra há cinco minutos. 

— Foi estratégico. 

— Você chamou uma árvore de “jovem mestre Lan” quando chegamos. 

Zizhen ficou em silêncio por tempo suficiente para se condenar sozinho. 

— A postura dela era refinada. — Murmurou, por fim. 

Jin Ling precisou morder o interior da bochecha para não rir. 

Porque, sinceramente, aquilo era ridículo. Todo mundo sabia qual era o problema. Todo mundo. Talvez literalmente o mundo inteiro já tivesse percebido — exceto Lan Xichen. O que, honestamente, era impressionante. Ou talvez ele soubesse e apenas escolhesse ignorar pela própria sanidade mental. 

Jin Ling ainda lembrava perfeitamente de uma reunião alguns meses antes, em Lanling. Um líder de seita menor, provavelmente tentando parecer estratégico e politicamente esperto, comentou durante o jantar sobre futuras alianças matrimoniais entre os discípulos mais jovens das grandes seitas. Foi uma sugestão vaga, diplomática, o tipo de comentário que normalmente desaparecia no meio de conversas formais sem chamar atenção. 

Então o homem mencionou Lan Jingyi. 

Zewu-jun, sentado do outro lado da mesa, sorriu. 

Não mudou de postura. Não elevou a voz. Não demonstrou irritação alguma. Apenas sorriu daquele jeito calmo e impecável que fazia parecer que ele jamais tivera um pensamento cruel na vida. 

— Lan Jingyi ainda é jovem demais para pensar em cortejo. — Disse suavemente. — Lan Yuan igualmente. 

Silêncio absoluto. 

O salão inteiro congelou. 

O jovem Jin lembrava até hoje da sensação exata daquele momento: como se todos tivessem percebido, ao mesmo tempo, que estavam perigosamente próximos de um precipício sem saber. Porque havia algo profundamente ameaçador em Lan Xichen quando ele falava daquele jeito específico, gentil demais, educado demais, sereno demais. Era o tom de alguém que ainda estava sendo cordial apenas porque não precisava deixar de ser. 

Achava profundamente irônico que o mesmo Lan Huan que havia amado Jin Guangyao — com todo o escândalo, tragédia e sangue que isso envolvia —, fosse tão protetor em relação a um simples namoro adolescente ou a possibilidade de um compromisso mais sério que envolvesse o garoto que tinha tomado para si como filho.  

Talvez seja exatamente por isso, pensou Jin Ling, talvez ele saiba o que o amor não correspondido ou mal correspondido pode causar. 

Ninguém voltou ao assunto. 

Até porque qualquer cultivador com instinto de sobrevivência entendia perfeitamente o problema de irritar Lan Xichen. Não era só enfrentar o líder da seita Lan. Era enfrentar Lan Wangji também. E, pior ainda, sobreviver à reação de Wei Wuxian, que provavelmente transformaria a vida da pessoa numa humilhação pública interminável por puro entretenimento. 

Ao lado deles, Jiang Cheng soltou um ruído seco de desprezo. 

— Patético. 

Zizhen quase tropeçou de novo. 

— O quê?! 

— Você. — Jiang Cheng respondeu imediatamente, sem sequer olhar para ele. — Está andando igual um pavão indo encontrar a prometida. Endireita essa postura ridícula. 

— Líder Jiang! 

— E pare de suar. Daqui a pouco os Lan vão achar que você está possuído. 

— Os Lan não pensam isso das pessoas! 

— Claro que pensam. Eles ficam olhando para todo mundo com aquela cara de quem está silenciosamente desapontado com sua existência. 

— Jiujiu, você tem uma percepção muito preocupante sobre os Lan. — Jin Ling comentou, cansado. 

— Cala a boca, Jin Rulan. Eu conheço aqueles cultivadores de fita na testa há mais tempo do que você está vivo. Tenho experiência suficiente para reconhecer comportamento assustador. 

— O senhor acha qualquer pessoa emocionalmente estável assustadora. 

Jiang Cheng soltou um resmungo ameaçador envolvendo afogamento em Píer de Lótus, incompetência juvenil e falta de respeito pelos mais velhos enquanto retomava a caminhada montanha acima. Jin Ling ouviu Zizhen suspirar de alívio ao lado dele. 

— Relaxa. — Jin Ling murmurou, diminuindo o tom para que Jiang Cheng, alguns passos à frente, não ouvisse. — Você nem vai ver Jingyi até depois da reunião. Discípulos não participam das negociações formais. 

O efeito foi imediato e, de certa forma, previsível. Zizhen ajeitou a postura de maneira quase agressiva, erguendo o queixo com uma dignidade que parecia ensaiada, como se estivesse representando o papel de "jovem cultivador sério" em alguma peça de teatro de baixo orçamento. 

— Eu sei disso. — Respondeu ele, e a ofensa em sua voz era tão exagerada que Jin Ling precisou conter um suspiro. — E eu não estou preocupado em ver o Jingyi. Não estou preocupado com nada, na verdade. Estou apenas… apreciando a paisagem. 

Jin Ling olhou em volta devagar, deixando o silêncio se estender por tempo suficiente para que Zizhen começasse a ficar desconfortável. 

Montanhas cobertas de névoa se estendiam até onde a vista alcançava, camadas sucessivas de azul-claro e cinza se dissolvendo no horizonte como uma pintura a tinta que nunca terminava de secar. Pinheiros antigos surgiam entre as rochas cobertas de musgo, suas copas escuras recortando o céu pálido como pinceladas firmes e decididas. Escadarias infinitas subiam e desciam sem nenhum propósito aparente além de fazer os visitantes repensarem todas as suas escolhas de vida. Telhados brancos surgiam entre as nuvens em intervalos regulares, tão perfeitamente integrados à paisagem que pareciam ter crescido ali como cogumelos depois da chuva. 

Então Jin Ling voltou a olhar para o amigo. 

— A paisagem do Recesso das Nuvens? — repetiu, elevando uma sobrancelha com um ceticismo que ele havia aperfeiçoado após anos assistindo Jiang Cheng destilar veneno sobre absolutamente tudo que se movia. 

Zizhen não titubeou. 

— É uma paisagem muito bonita. — Declarou com a convicção de quem estava disposto a morrer por aquela mentira. — Muito… montanhosa. E cheia de nuvens. Como o nome sugere. 

— Impressionante observação. — Jin Ling inclinou levemente a cabeça, como se estivesse avaliando a profundidade filosófica daquela afirmação. — Quase poética, até. Você deveria escrever um poema sobre montanhas e nuvens. 

— Eu sou poeta. 

— Você escreve poemas sobre amor impossível desde os treze anos. — Jin Ling rebateu sem piedade. — Isso não conta como ser poeta. Isso conta como ter uma obsessão pouco saudável com romances de fantasia e muito tempo livre. 

Zizhen fez uma expressão profundamente ofendida, como se Jin Ling tivesse cuspido no chão diante de um altar ancestral. Os olhos dele se arregalaram de maneira tão dramática que parecia haver luzes de palco imaginárias iluminando seu rosto. 

— Arte nunca deve ser diminuída assim. — Declarou em tom grave. — Cada poema é um pedaço da alma do artista exposto ao mundo. Cada verso é uma gota de sangue derramada no altar da beleza. Cada— 

— Você rimou "lua" com "sua" sete vezes no mesmo poema. — Jin Ling interrompeu, implacável. — Eu contei. Sete vezes, Zizhen. No mesmo poema. Que tinha doze versos no total. 

— Era um recurso estilístico. — A voz de Zizhen subiu uma oitava, indignado. — Chama-se anáfora. É uma técnica literária avançada. Nem todos têm capacidade intelectual para apreciar essas sutilezas. 

— Chama-se preguiça. 

— Chama-se genialidade incompreendida! 

Jin Ling precisou conter uma risada, os ombros tremendo levemente enquanto o som ameaçava escapar por entre os lábios comprimidos. Honestamente, implicar com Zizhen era terapêutico — uma das poucas alegrias verdadeiras em sua vida, ao lado de ver Lan Jingyi levar broncas de Lan Sizhui e observar Jiang Cheng tentando esconder que gostava do cachorro que ele mesmo havia adotado "sob protesto". Principalmente porque o amigo reagia a tudo como um personagem dramático de ópera ruim, complete com gestos largos e suspiros dignos de uma heroína trágica prestes a encontrar um fim melancólico. 

Mas o humor desapareceu rápido, tão rápido quanto a névoa que o vento soprava entre as árvores, quando Jin Ling lembrou da conversa que tivera na noite anterior com Jiang Cheng. 

Os detalhes voltaram com clareza desconfortável: a expressão do tio ao admitir, após longos minutos de silêncio tenso, que também vinha tendo sonhos estranhos. A forma como os dedos de Jiang Cheng havia se apertado até os nós ficarem brancos. A maneira quase hesitante com que ele descrevera as imagens que visitavam seu sono noite após noite — água escura, vozes abafadas, a sensação horrível de estar afogando em algo que não era bem água, mas sim uma ausência. Uma falta. Algo que deveria estar ali e não estava. 

E o rosto pálido de Jiang Cheng ao admitir que não conseguia lembrar dos rostos nos sonhos, apenas das sensações, principalmente da sensação de perda. 

Jin Ling lançou outro olhar para Zizhen, dessa vez mais atento e bem menos brincalhão. Observou as olheiras escuras abaixo dos olhos do amigo, disfarçadas de maneira imperfeita com algum pó ou truque que Zizhen claramente não dominava. Notou o jeito inquieto das mãos — dedos que se mexiam sem parar, ora ajustando a manga da veste, ora tocando a ponta da espada, ora simplesmente se fechando e abrindo como se buscassem algo para segurar. E viu o sorriso exagerado demais, a alegria forçada que se parecia com aquelas máscaras de papel que se usava em festivais: bonitas à distância, frias demais para enganar quem olhasse de perto. 

Algo apertou dentro do peito de Jin Ling. Uma sensação familiar, não o medo exato, mas a antecipação dele. Aquele formigamento na base da espinha que sempre vinha antes de algo dar terrivelmente errado. 

— Você também está sonhando, não está? — Perguntou, direto, sem rodeios. A voz saiu mais baixa do que ele pretendia, quase um sussurro perdido no vento que soprava entre as montanhas. 

O efeito foi imediato e devastador. 

Toda aquela expressão teatral de Zizhen desapareceu como água derramada em tinta fresca, borrando a imagem colorida e deixando apenas o papel pálido e vulnerável por baixo. Ele ficou imóvel por um segundo longo demais, tão imóvel que pareceu esquecer como se respirava. Seus olhos se arregalaram num susto cru e mal disfarçado antes que ele desviasse rapidamente o olhar para o caminho de pedra à frente, onde pequenas manchas de musgo cresciam entre as fendas. 

— Por que perguntou isso? — A voz de Zizhen soou diferente. 

Jin Ling sentiu um arrepio percorrer a nuca, descendo pela espinha como dedos gelados. Não era a primeira vez que sentia aquilo nos últimos dias: aquela sensação incômoda de estar sendo observado por algo que não podia ver, de que alguma verdade incômoda se escondia logo ali, nos cantos da visão periférica, recusando-se a se revelar completamente. 

— Porque meu jiujiu comentou. — Respondeu, pesando cada palavra. — Porque metade dos pequenos clãs está relatando a mesma coisa nas últimas semanas. Porque você está com uma cara horrível faz dias e seu normal já é parecer um fantasma elegante. 

A risada fraca que escapou de Zizhen foi apenas uma exalação pelo nariz, curta e sem humor, morrendo antes mesmo de nascer de verdade. Ele não respondeu de imediato. Ficou ali, caminhando em silêncio ao lado de Jin Ling enquanto o vento frio da montanha cortava o ar entre eles. 

O vento se intensificou naquele momento, como se a própria montanha quisesse marcar a gravidade do momento. Ele atravessou o caminho de pedra com um uivo baixo e prolongado, levantando as mangas largas das vestes dos dois jovens e espalhando folhas secas pelos degraus em pequenos redemoinhos que subiam e desciam como almas inquietas. Os pinheiros ao redor balançavam ao sabor daquela corrente invisível, e o som de seus galhos rangendo lembrava conversas em idioma antigo, segredos que as árvores guardavam há séculos sem jamais revelar a ninguém. 

Por alguns segundos longos e densos, o único som no mundo foi aquele, árvores balançando, folhas dançando, o eco distante de água corrente em algum lugar abaixo da névoa. 

Quando Zizhen finalmente falou de novo, a voz saiu baixa. Sem exagero. Sem humor. Sem nenhum daqueles floreios dramáticos que Jin Ling aprendera a reconhecer e, secretamente, achar graça. Era apenas uma voz — cansada, um pouco trêmula, carregada de um peso que parecido grande demais para ombros tão jovens. 

— Eu sonho com água. — Confessou. 

Jin Ling não interrompeu. Continuou caminhando ao lado do amigo, mantendo o olhar fixo na estrada à frente, porque sabia que qualquer movimento brusco, qualquer gesto que sugerisse piedade ou constrangimento, faria Zizhen fechar a guarda imediatamente. 

— Muita água. — Zizhen continuou, e suas mãos agora estavam completamente imóveis, algo que talvez fosse ainda mais alarmante do que a inquietação anterior. — Escura. Fria. Daquele tipo de frio que não vem da temperatura, mas de alguma outra coisa. Sabe? Como se a água fosse feita de ausência. De vazio. — Ele fez uma pausa, engolindo em seco. O pomo de adão subiu e desceu lentamente em sua garganta. — E tem alguém se afogando ali. No fundo. Ou talvez não esteja se afogando, talvez já esteja morto e apenas flutuando, eu não consigo distinguir. Mas é como se eu conhecesse essa pessoa. Como se eu devesse conhecê-la. 

A voz dele vacilou pela primeira vez, trincando como gelo fino sob o peso de uma pisada descuidada. 

— Eu nunca consigo ver o rosto dessa pessoa. Nunca. Não importa quanto tempo eu fique olhando, não importa quanta força espiritual eu concentre nos olhos dentro do sonho. O rosto permanece borrado, como se alguém tivesse passado água sobre uma pintura ainda fresca. Mas eu sei… eu sei que deveria salvá-la. Tenho certeza disso. Como se salvar aquela pessoa fosse a única coisa que realmente importasse no mundo. Como se a minha vida inteira tivesse sido uma preparação para aquele momento. 

As palavras saíram mais rápidas agora, pressionadas por uma necessidade de serem ditas antes que a coragem desaparecesse. 

— E eu tento chegar perto. Juro que tento. Eu corro pela água escura, que parece mais espessa do que água deveria ser, como se eu estivesse correndo dentro de mel ou de sangue. Tento puxar a pessoa para fora daquele fundo sem fim. Só que não consigo alcançar. Nunca consigo. É como se alguma coisa estivesse segurando meus braços, puxando meus pulsos para trás com uma força que não tem origem visível. Como se eu estivesse condenado a apenas observar. Apenas assistir. — A respiração de Zizhen ficou irregular por um momento. — Como se eu estivesse atrasado. Sempre atrasado. Para sempre atrasado. 

Jin Ling sentiu os pelos dos braços arrepiarem debaixo das mangas largas da veste. Porque aquilo parecia familiar demais. Não o sonho em si, mas a sensação. Aquela dor estranha, absurda, irracional de perder alguém que talvez nunca tivesse existido. Aquela certeza incômoda de que algo estava terrivelmente errado com o mundo, que alguma peça fundamental havia se soltado do mecanismo da realidade sem que ninguém notasse. 

Ele se lembrou dos próprios sonhos. Do gosto de sal na boca. Da voz que o chamava pelo nome em um tom que ele nunca tinha ouvido antes, mas que reconheceria em qualquer lugar. Das mãos que se estendiam na escuridão, sempre além do alcance. 

— Não conta isso para ninguém ainda. — disse imediatamente, a voz firme apesar do coração acelerado. — Espera até a gente falar de novo com meu jiujiu. Se mais gente está sonhando com coisas parecidas… se metade dos clãs menores relatou fenômenos similares… então isso não pode ser coincidência. E coincidência, no mundo da cultivação, geralmente significa que alguém está orquestrando alguma coisa. 

Zizhen assentiu devagar, um movimento pequeno e cansado que parecia consumir toda a energia que lhe restava. 

O resto da subida aconteceu em silêncio. 

O Recesso das Nuvens surgiu entre as montanhas pouco depois, silencioso e imponente como uma pintura antiga ganhando forma dentro da névoa que se dissolvia lentamente com a aproximação do meio-dia. 

Primeiro foram os telhados, aqueles telhados cinzentos e curvos que pareciam flutuar sobre o mar de nuvens como barcos fantasma ancorados em algum porto invisível. Depois as paredes de madeira clara, tão perfeitamente preservadas que pareciam ter sido construídas naquela mesma manhã, sem uma lasca sequer fora do lugar. 

E então os portões, altos e solenes, ladeados por lanternas de pedra cobertas de musgo que testemunhavam o passar dos séculos com a paciência paciente de quem já viu de tudo e não se impressiona mais com nada. 

Jin Ling já tinha estado ali dezenas de vezes ao longo dos anos: reuniões diplomáticas que duravam horas e resolviam pouco, treinamentos conjuntos onde os discípulos Lan o superavam em disciplina enquanto os discípulos Jin reclamavam do horário das refeições, festivais de primavera com música ecoando pelos vales como lamento de fantasmas educados, visitas familiares arrastadas por Wei Wuxian que insistia em transformar cada encontro casual numa "reunião calorosa entre pessoas que se amam" independentemente de quantos objetos Jiang Cheng quebrasse no processo. 

Mesmo assim, o lugar ainda causava impacto. Sempre causava. Como se cada visita fosse a primeira e a centésima ao mesmo tempo. 

Tudo respirava ordem, disciplina, calma. Tudo respirava Lan. 

Exceto, claro, Wei Wuxian. 

Ele estava esperando no portão principal como uma mancha de tinta vermelha e preta derramada no centro de uma pintura cuidadosamente equilibrada em tons pastéis — o erro proposital que o artista insere de propósito para provar que a perfeição é uma mentira tediosa. 

Vestes negras e vermelhas esvoaçavam ao vento, mal presas ao corpo como se estivessem ali apenas por obrigação social. O sorriso largo demais parecia capaz de iluminar toda a fachada austera do Recesso das Nuvens por si só, desafiando séculos de disciplina com a pura força de sua insolência. E a postura relaxada demais. Ombros curvos, peso apoiado em uma perna só, dedos tamborilando preguiçosamente no cabo da flauta presa à cintura — era uma declaração de guerra silenciosa contra tudo que os Lan representavam. 

Ao lado dele, Lan Wangji permanecia imóvel em branco impecável, bonito de um jeito quase ofensivo, como se o universo tivesse decidido compensar sua falta de expressão facial com uma beleza tão absurda que doía de olhar. As vestes caíam em linhas perfeitas, sem uma ruga fora do lugar. O cabelo negro estava preso com a precisão cirúrgica de alguém que considerava fios soltos uma falha moral grave. E a expressão, ou a falta dela, era tão impenetrável quanto a superfície de um lago congelado em pleno inverno. 

Wei Wuxian abriu os braços imediatamente ao vê-los, num gesto tão amplo e teatral que Jin Ling quase ouviu uma orquestra imaginária anunciando sua entrada triunfal. 

— A-Ling! 

Jin Ling teve exatos meio segundo para considerar suas opções. Fugir, fingir desmaio, ou simplesmente aceitar seu destino com a dignidade de quem já passou por essa situação centenas de vezes. Como sempre, a indecisão custou caro. Ele foi puxado para um abraço esmagador antes que pudesse dar um único passo para trás, o rosto esmagado de maneira desajeitada contra o ombro de Wei Wuxian com a força de quem realmente sentia falta das pessoas. 

— Você está mais bonito! — Wei Wuxian anunciou dramaticamente, recuando apenas o suficiente para olhar Jin Ling nos olhos, mas sem soltá-lo completamente. As mãos ainda agarravam seus ombros com força possessiva. — Torre Koi finalmente começou a alimentar você direito? Sua pele está ótima, macia, hidratada, com aquele brilho saudável de quem dorme pelo menos seis horas por noite. Tem usado cremes? Posso sentir cheiro de algo floral. É lavanda? Camomila? 

— Jiujiu. — Jin Ling reclamou, a voz saindo abafada e indignada contra o ombro alheio. — Você me viu três semanas atrás. 

— Três semanas é tempo suficiente para um jovem viver aventuras incríveis, amadurecer emocionalmente e descobrir o sentido da vida. — Wei Wuxian contestou, finalmente soltando os ombros do sobrinho, mas apenas para lhe dar um tapinha afetuoso na cabeça que bagunçou todo seu cabelo cuidadosamente arrumado. — Três semanas é uma eternidade na escala temporal de um coração jovem e apaixonado. 

— Ele veio aqui para trabalhar, não para ouvir besteira. 

Jiang Cheng se aproximou com o habitual ar de quem considerava todos os presentes pessoalmente ofensivos e a própria existência de Wei Wuxian uma afronta cósmica à ordem natural das coisas. As vestes roxas ondulavam atrás dele enquanto subia os últimos degraus, elegante sem esforço, como se o simples ato de caminhar fosse uma coreografia que ele dominava desde o berço. Zidian brilhava em seu dedo, uma promessa silenciosa de violência contra quem ousasse aborrecê-lo além do limite tolerável. 

Mas quando os olhos dele encontraram Wei Wuxian, algo suavizou. Um leve relaxamento nos cantos dos lábios. Um brilho diferente no olhar. Uma diminuição quase imperceptível na tensão dos ombros. Afeto. Ainda estranho em Jiang Cheng. Ainda raro. Como encontrar uma flor desabrochando no meio de um campo arrasado pelo fogo. 

— Wei Ying. 

Wei Wuxian sorriu de volta imediatamente, e havia naquele sorriso o peso de anos demais. Mágoas velhas que haviam cicatrizado, mas cujas cicatrizes ainda doíam em dias de umidade. Reconciliações difíceis, conquistadas centímetros por centímetro, como escalar uma montanha com as unhas. Amor reconstruído aos pedaços, colado com paciência e teimosia e a recusa obstinada de ambos em desistir um do outro. 

— Jiang Wanyin. Ainda usa esse anel horroroso? Impressionante. Achei que o bom gosto pudesse surgir com a idade. 

Zidian faiscou perigosamente no dedo de Jiang Cheng, pequenas faíscas roxas saltando entre os nós dos dedos como cobras irritadas. 

— Quer descobrir se ele continua funcionando? 

— Não. — A resposta veio imediata e grave. 

Lan Wangji pronunciou a única palavra como se estivesse encerrando um debate cansativo antes mesmo que ele começasse. Era um "não" que significava "já estou velho demais para separar vocês dois outra vez e tenho coisas mais importantes para fazer, como observar grama crescer ou contar os grãos de arroz no depósito". 

Jin Ling conteve um suspiro. Hanguang-Jun era, honestamente, a pessoa mais silenciosa que ele conhecia, e Jin Ling conhecia pessoas silenciosas. 

Mas o pai de Sizhui? Era silencioso quando estava feliz, triste, irritado, entediado, animado ou qualquer outro estado emocional que exigisse mais do que três palavras para ser expresso. E era a pessoa mais impossível de ignorar que Jin Ling já tinha conhecido. Quando Lan Wangji falava, todos ouviam — não porque ele gritasse, mas porque suas palavras eram tão raras que cada uma parecia pesar mais do que deveria. Quando ficava quieto, todos ouviam do mesmo jeito, porque seu silêncio era tão eloquente quanto qualquer discurso. 

Era irritante, pensou Jin Ling. Muito Lan. Muito típico de um clã que conseguia fazer até o ato de respirar parecer uma declaração filosófica sobre a natureza do universo. 

Tentando ignorar o fato de que Wei Wuxian ainda estava apertando suas bochechas como se ele tivesse doze anos e não dezoito anos bem vividos e com uma cicatriz no peito para provar que já enfrentara coisas muito mais assustadoras que tios afetuosos, Jin Ling perguntou com o tom mais casual que conseguiu reunir: 

— Onde está o Lan Yuan? 

Wei Wuxian arqueou uma sobrancelha com uma lentidão proposital, como um predador que acabara de sentir o cheiro de sangue na água. O sorriso em seus lábios se alargou de maneira perigosa, assumindo aquele aspecto que Jin Ling aprendera a temer — o sorriso de "vou fazer perguntas constrangedoras e não vou parar até ver você corar". 

— Onde está Lan Yuan? — Repetiu Wei Wuxian com uma precisão cruel, imitando o tom formal e ligeiramente forçado que Jin Ling usara. A entonação era tão exagerada que até Lan Wangji pareceu mover levemente a cabeça na direção do marido, como se estivesse avaliando o nível de constrangimento alheio. — Olha só que respeitoso. Tratamento completo. Nome e sobrenome. Quem diria. E aquele menino que seguia meu filho pela roupa chamando ele de A-Yuan? Aquele que vivia grudado no Sizhui como um carrapato emocionalmente dependente? Morreu? Foi substituído por um clone educado? 

— Eu tenho dezoito anos agora. — Jin Ling protestou, sentindo o calor subir pelas bochechas. 

— E daí? — Wei Wuxian deu de ombros com desprezo aristocrático. — Volta a ter quinze e seja mais fofo. Eu permito. Eu oficialmente permito que Jin Ling retorne à idade de quinze anos por tempo indeterminado. Alguém tem objeções? — Ele olhou ao redor, como se esperasse que uma assembleia virtual se manifestasse. — Não? Ótimo. Resolvido. — Voltou a atenção para Jin Ling com a mesma intensidade esmagadora de antes. — Sizhui está na biblioteca com Jingyi revisando documentos para a reunião. Huan-ge deixou os dois participarem dessa vez. Disse que era bom para o amadurecimento deles ou algo assim. Pessoalmente, acho que ele só queria ter menos trabalho, mas ninguém perguntou minha opinião. 

Wei Wuxian fez uma pausa suspeitamente longa, os olhos brilhando com uma malícia que Jin Ling conhecia bem demais. O silêncio se alongou por tempo suficiente para que todos os presentes percebessem que algo estava por vir. 

— Ele está muito bonito hoje, inclusive. — Acrescentou Wei Wuxian como quem comenta o tempo. — Sizhui, quero dizer. Muito bonito. Radiante, até. Acho que é a luz da montanha. Ou talvez seja a expectativa de ver certas pessoas. — Fez outra pausa dramática. — Não que eu esteja sugerindo nada. Sou apenas um pai observador. Pais observam. É nosso trabalho. Observar e ocasionalmente comentar em voz alta diante de testemunhas. 

Jin Ling sentiu o rosto esquentar imediatamente, o calor subindo do pescoço à raiz do cabelo em segundos. Ele podia sentir suas próprias orelhas queimando, o que era particularmente humilhante porque Wei Wuxian certamente notaria e certamente comentaria. 

— Jiujiu! 

— O quê? — A inocência fingida na voz de Wei Wuxian era tão convincente quanto um porco voando. — Eu não falei nada! Eu apenas observei um fato objetivo sobre a aparência do meu filho. Lan Zhan, eu falei alguma coisa além de fatos objetivos? 

— Falou. — respondeu Lan Wangji, imperturbável. 

— Traição. Crueldade. Falta de apoio emocional no casamento. Vou pedir o divórcio. 

— Não vai. 

— Não mesmo. Mas o drama é importante para a saúde mental. 

— Vamos logo. — Jiang Cheng interrompeu secamente, a voz cortando a brincadeira como uma lâmina bem afiada. Ele já estava se movendo em direção aos portões internos, as vestes roxas flutuando atrás de si como uma nuvem de tempestade prestes a desabar. — Quanto mais cedo começarmos essa reunião, mais cedo eu volto para Píer de Lótus e paro de olhar para essas paredes brancas irritantes. Luz demais. Claridade demais. Parece que estou dentro de uma nuvem. Odeio nuvens. 

— Você acha a luz irritante porque sua alma é naturalmente sombria, A-Cheng. — Wei Wuxian respondeu, apressando o passo para acompanhar o irmão. — Sua essência espiritual provavelmente é feita de tempestades e rancores mal resolvidos. Luz solar direta deve doer fisicamente. 

— Melhor isso do que sua alma preguiçosa, que nunca aprendeu a acordar antes do meio-dia. 

— Eu mudei! Agora acordo às oito! Oito da manhã, Jiang Wanyin. Você ouviu direito. Oito. Isso é quase respeitável. 

— Parabéns. Evolução impressionante. — Jiang Cheng disparou sem olhar para trás. — Já alcançou o nível de disciplina de uma criança de dez anos. Daqui a algumas décadas, talvez aprenda a arrumar a própria cama. 

— Eu arrumo minha cama! 

— Wei Ying. — A voz de Lan Wangji veio de trás, calma e neutra. — Não arruma. 

— Lan Zhan! Você está me atrapalhando! 

Os dois seguiram discutindo corredor adentro, suas vozes se alternando entre insultos mordazes e comentários que, ouvidos por estranhos, poderiam ser confundidos com brigas de verdade. Mas Jin Ling já conhecia aquela dinâmica bem demais para se enganar. Havia ali o ritmo de quem tinha passado anos separados, anos em silêncio, anos se odiando ou se fingindo de morto. Cada provocação era uma pequena ponte reconstruída. Cada insulto, uma declaração de que ainda estavam ali, ainda se importavam, ainda respiravam no mesmo mundo. 

Como se nunca tivessem passado anos separados, afinal. Como se nunca tivessem se machucado tanto ao ponto de quase não sobrarem pedaços inteiros para recolher. 

Algo se aliviou no peito de Jin Ling, apesar de tudo. 


A sala de reuniões era ampla e silenciosa, iluminada pela luz suave que atravessava as janelas de papel em feixes pálidos e quase líquidos, como se a própria luz fosse feita de água filtrada por séculos de calma. O tatame no chão era macio sob os pés, tecido com uma precisão que beirava a obsessão — cada fibra no lugar certo, cada ângulo perfeitamente alinhado. Do lado de fora, além das paredes finas que mal continham o silêncio, bambus balançavam devagar ao vento, produzindo aquele som seco e ritmado que os poetas amavam comparar com música de água ou com o bater de asas de pássaros distantes. 

Tudo parecia calmo demais. Organizado demais. 

E talvez fosse exatamente isso que tornava o ambiente intimidador. 

Os assentos baixos forçavam os visitantes a manterem uma postura perfeita sob risco de parecerem desleixados ou, pior, desrespeitosos. As almofadas eram acolchoadas o bastante para serem confortáveis, mas não o bastante para que alguém se esquecesse de que estava sentado na presença de uma das seitas mais antigas e reverenciadas do mundo da cultivação. 

As paredes altas faziam o espaço parecer ainda maior do que realmente era, um truque arquitetônico que Jin Ling suspeitava ter sido pensado especificamente para intimidar visitantes de clãs menores. O incenso queimando lentamente no canto não servia apenas para perfumar o ambiente; seu cheiro suave de sândalo e ervas secas era também um medidor de tempo, cada bastão demarcando os limites da paciência Lan enquanto as discussões se arrastavam. 

Os Lan já estavam posicionados quando o grupo entrou. 

Hanguang-jun sentou-se à direita do assento principal sem cerimônia, o movimento tão natural quanto respirar. Suas vestes brancas se acomodaram ao redor dele em ondas perfeitas, e por um momento ele pareceu menos um homem e mais uma estátua, daquelas que se via em templos antigos, imóveis e eternas, assistindo ao mundo girar sem jamais se mover. Era um lugar de honra, aquele assento, mas não de liderança. A distinção era sutil, mas importante para quem entendia as hierarquias internas de Gusu Lan. 

O assento central permanecia vazio. 

Onde está Zewu-jun? Jin Ling se perguntou. 

Mais abaixo, próximo a uma das janelas onde a luz entrava com mais generosidade, Lan Sizhui levantou os olhos ao notar a entrada do grupo. Os documentos que ele revisava foram deixados de lado com um cuidado que beirava o carinho, como se cada folha de papel merecesse respeito individual. E então veio o sorriso — imediato, involuntário, tão natural que parecia ter brotado sozinho no rosto de Sizhui sem nenhuma intervenção consciente. 

Aquele sorriso. 

Gentil. Luminoso. Absurdamente fácil. 

Como se Jin Ling fosse a última xícara de chá quente em um dia frio, ou o primeiro raio de sol após semanas de chuva. Como se ver Jin Ling fosse, por si só, um motivo suficiente para alegria. 

Jin Ling odiava o fato de que aquele sorriso sempre, sempre o deixava desorientado por pelo menos meio segundo. 

Meio segundo em que seu cérebro simplesmente esquecia como formar frases coerentes, meio segundo em que suas pernas ameaçavam esquecer o que era andar, meio segundo em que o mundo inteiro se resumia àquela curva de lábios e aquele brilho nos olhos que parecia dizer "ainda bem que você está aqui". 

Meio segundo era tempo suficiente para Lan Jingyi notar. 

Ao lado de Sizhui, Lan Jingyi fez uma careta provocadora imediatamente, o tipo de expressão que ele aperfeiçoara desde a infância. Metade deboche, metade "eu sei de algo que você não sabe e isso me diverte imensamente". As sobrancelhas dele se arquearam de maneira tão exagerada que pareciam prestes a saltar da testa. 

Jin Ling respondeu com outra careta no mesmo nível, a expressão claramente dizendo "cala a boca, Jingyi". Era uma comunicação altamente sofisticada que ambos haviam desenvolvido após anos de convivência forçada. Então Jingyi virou para Zizhen e sorriu de verdade. 

Incrível, pensou Jin Ling revirando os olhos, simplesmente incrível. Zizhen não sabe nem disfarçar. 

Antes que pudesse continuar julgando o sofrimento romântico alheio, e talvez preparar algum comentário sarcástico para ajudar o amigo a recuperar o mínimo de compostura, a porta lateral se abriu e Lan Xichen entrou. 

Seu sorriso era o mesmo de sempre: sereno, acolhedor, perfeito. Suas vestes estavam impecáveis. Seu cabelo, preso e adornado com o guan de líder o deixavam com uma graça que Jin Ling ouviu seu tio reclamar durante quase todo o tempo que subiam a escadaria do Recesso das Nuvens. 

— Desculpem o atraso. — disse, sua voz suave como seda. — Havia um pequeno problema com a colheita de chá. Nada grave. Apenas necessitava de minha... supervisão. 

Wei Wuxian resmungou algo que Lan Wangji silenciou com um olhar. 

E para a surpresa do lider Jin, Jiang Cheng não resmungou. Jin Ling observou seu jiujiu com atenção. A mandíbula de Jiang Cheng estava trincada. Seus ombros, tensos. Suas mãos apoiadas nos joelhos não se moviam, mas Zidian tremia, quase imperceptível. 

Ele está nervoso, percebeu Jin Ling. Seu jiujiu, que enfrentou Wen Chao, que reconstruiu Píer de Lótus sozinho, que gritou na cara de deuses e demônios... estava, por alguma razão, nervoso. E não era o nervoso de sempre. 

A reunião começou com os protocolos de praxe. Wei Wuxian apresentou um resumo dos relatos dos pequenos clãs: névoa persistente, sonhos perturbadores, possibilidade de o selo antigo ter sido rompido. Lan Wangji acrescentou dados sobre a composição espiritual da região, falando em frases tão curtas que pareciam códigos. 

E então chegou a hora de discutir a estratégia. 

— Proponho enviar uma equipe conjunta. — disse Jiang Cheng, sua voz cortando o ar como uma lâmina. — Os Lan entendem de destruir selos. Os Jiang entendem de combate corpo a corpo. Os Jin têm os recursos. Juntamos os três, resolvemos o problema em uma semana. 

— Uma proposta interessante. — Lan Huan inclinou a cabeça, o sorriso ainda no lugar. — Mas você considerou a possibilidade de que o selo não deva ser simplesmente destruído, Jiang-zongzhu? 

— O quê? 

— Selos foram colocados por uma razão. Se está trincando, talvez seja porque algo dentro dele quer sair. Ou talvez porque algo do lado de fora quer entrar. Resolver, como você diz, pode significar destruir. E destruir, como sabemos, nem sempre resolve. 

Jin Ling viu as pontas dos dedos de Jiang Cheng branquearem de tão pressionados contra os joelhos. 

— Você está sugerindo que devemos deixar a coisa continuar como está, Lan-zongzhu? — Jiang Cheng cuspiu o título como se fosse veneno. 

— Estou sugerindo que devemos entender antes de agir. — Lan Huan não alterou o tom. — Como acreditava um velho amigo meu: soluções rápidas criam problemas lentos. 

O nome não foi dito, mas pairou no ar como um fantasma. Jin Guangyao. Jiang Cheng se levantou. 

— Se você vai ficar sentado aí sorrindo enquanto as pessoas têm pesadelos e os pequenos clãs imploram por ajuda. — Jiang Cheng falou devagar, cada palavra pronunciada com uma precisão cirúrgica que cortava mais fundo do que qualquer grito. — Então talvez eu tenha superestimado sua capacidade de liderança, Lan-zongzhu. Talvez os rumores sobre seu retiro voluntário tenham fundamento mais sólido do que eu supunha. Talvez você esteja mais interessado em manter a paz interna do Recesso das Nuvens do que em proteger os limites do mundo que jurou defender. 

O golpe foi baixo, e todos na sala sabiam disso. 

Lan Xichen não se moveu. Não piscou. Não deixou que qualquer sombra de emoção atravessasse a máscara perfeita de seu rosto. Quando respondeu, sua voz era tão doce quanto mel, e tão venenosa quanto também. 

— Talvez você tenha, Jiang-zongzhu. Permita-me lamentar sua decepção. Sei como é difícil ajustar expectativas quando se está acostumado a soluções que envolvem mais força bruta do que discernimento. Mas a última vez que alguém agiu por impulso em uma situação como esta, nós dois perdemos pessoas que amávamos. Não estou disposto a repetir esse erro. 

Foi quando Jin Ling viu algo que jamais imaginaria. 

Lan Huan ainda sorria. Seus olhos ainda eram calmos. Sua postura, aberta. Mas havia uma curva em seus lábios que não era serenidade. Era ironia. Pura, cristalina, mortal. 

Ele está provocando meu jiujiu, percebeu Jin Ling, de propósito, como se soubesse exatamente quais botões apertar. 

— O senhor... — Jin Ling ouviu sua própria voz sair antes de pensar. — Lan-zongzhu... o que o senhor sugere, então? 

Todos se viraram para ele. Até Lan Wangji ergueu uma sobrancelha — um milímetro, mas suficiente para ser notado. 

Lan Huan o olhou por um longo momento. Depois, seu sorriso mudou. Tornou-se... mais real, mais cansado. 

— Sugiro que investiguemos, Jin-zongzhu. Que conversemos com os moradores locais, que subamos a montanha, que vejamos o selo com nossos próprios olhos, que consultemos os espíritos antigos antes de decidir se devemos martelar ou costurar. Demorará mais tempo, dará mais trabalho, mas talvez. — Seus olhos dourados voltaram para Jiang Cheng. — Evite que transformemos um pequeno trinco em uma cratera. 

Jiang Cheng bufou, mas sentou-se. 

— Três dias. — disse, entre dentes, cada sílaba pronunciada como se doesse. — Três dias para sua investigação, seus espíritos antigos e suas consultas. Depois disso, faço do meu jeito, com ou sem sua bênção, com ou sem seu sorriso educado, com ou sem sua aprovação. Três dias, Lan-zongzhu. Nem um minuto a mais. 

— Três dias. — Concordou Lan Xichen com um pequeno aceno de cabeça, e havia algo naquele gesto que lembrava um mestre reconhecendo a vitória de um aluno talentoso, mesmo em derrota. — Suficiente para beber todo o chá que Recesso das Nuvens tem a oferecer, se você estiver disposto a ficar mais tempo na companhia de paredes brancas e luz irritante. 

O olhar de Jiang Cheng poderia ter incendiado florestas inteiras. 

— Eu não vim aqui para beber chá. 

— Que pena. — Lan Xichen respondeu, e agora havia quase um tom de tristeza genuína em sua voz. — O chá deste ano está excepcional. Colhido sob a lua cheia, processado por mãos de mestres que estudaram a arte por décadas. Mas compreendo que alguns paladares preferem soluções mais... amargas. 

Jiang Cheng não respondeu. Apenas apertou Zidian com tanta força que o anel pareceu chiar de protesto. 

Encerrada a reunião, os participantes se dispersaram em pequenos grupos. Wei Wuxian puxou Jiang Cheng para o lado, falando baixo e rápido, tentando apaziguar algo; Lan Wangji desapareceu em alguma direção com a mesma quietude de um fantasma. Lan Jingyi, por sua vez, agarrou Zizhen pelo braço e praticamente o arrastou para fora da sala, tagarelando sobre "a pior reunião da história" e "a-die precisa de férias". 

Jin Ling ficou para trás, observando. 

Observou Wei Wuxian colocando uma mão no ombro do irmão com uma paciência que parecia ter sido conquistada a duras penas, talvez no fundo de poços escurios e noites de solidão que nenhum dos dois mencionava em voz alta. A mão apertou suavemente, uma vez, duas vezes, e Jin Ling viu algo mudar na postura de Jiang Cheng — uma ligeira deflação, um abatimento quase invisível. 

Era um gesto que, anos atrás, teria sido recebido com violência ou com um afastamento gelado. Mas agora Jiang Cheng apenas... tolerava. Aceitava. Talvez até agradecesse, em silêncio, do jeito dele. 

Observou Lan Xichen, ainda sentado em seu lugar no centro da sala agora vazia, a luz da tarde atravessando as janelas de papel e pintando seu perfil em tons dourados e cinzentos. O sorriso que exibira durante a reunião havia se apagado completamente, como uma vela que se consome até o fim. Seus olhos estavam perdidos em algum ponto distante — não na sala, não nos jardins além das paredes, mas em algum lugar muito mais longe, talvez no passado, talvez em alguma memória que doía tanto quanto uma ferida aberta. 

Ele parecia um homem que havia ganhado uma batalha e perdido uma guerra inteira. 

Ele está tão cansado quanto meu jiujiu. Só que um mostra a raiva, e o outro mostra o sorriso.

— Você está encarando.

Jin Ling se virou, e o movimento o colocou frente a frente com Lan Sizhui. 

Ele estava ali, tão calmo como sempre, com suas vestes brancas impecáveis que pareciam absorver a luz em vez de refleti-la, com seu cabelo preso naquele coque perfeito que nenhum fio ousava abandonar, com seus olhos escuros que pareciam ver através de máscaras e armaduras e sorrisos falsos com a mesma facilidade com que outros cultivadores viam através de névoa fina. 

— Não estou encarando — mentiu Jin Ling, e a mentira saiu tão natural que ele quase acreditou nela por meio segundo. — Estou... analisando. Sim. Analisando a situação. É uma habilidade importante para um líder de seita. Observar e analisar. Meu jiujiu sempre diz que um bom líder— 

— Analisando meu bofu? — Sizhui interrompeu, mas não havia acusação em sua voz. Apenas uma curiosidade suave, como a de alguém que faz uma pergunta cuja resposta já conhece, mas quer ver como o outro vai se enrolar para responder. 

— Seu bofu é uma pessoa muito interessante — Jin Ling respondeu, decidindo que a melhor defesa era o ataque. — Muito... complexo. Cheio de camadas. Como uma cebola. 

— Você está comparando meu bofu a uma cebola? 

— Não, não — Jin Ling apressou-se em corrigir, sentindo o calor subir pelas bochechas. — Quer dizer, sim, mas não no sentido de que ele faz as pessoas chorarem. No sentido de que tem muitas camadas. Camadas de personalidade. Camadas de... motivação. Camadas de... coisas. 

Sizhui o observou por um momento, os cantos dos lábios curvados em um sorriso tão pequeno que quase não existia. 

— Como pode os Lan terem criado você e o Jingyi, e vocês dois terem saído tão diferentes? Você é todo calmo e regrado. Jingyi parece que foi criado por um circo. Mas curiosamente o enxerido é você, A-Yuan. 

O Lan sorriu, um sorriso pequeno, privado, que Jin Ling havia aprendido a reconhecer como raro e precioso. 

— Ele sempre foi mais comunicativo e expressivo e Jingyi passa muito tempo com o baba. Acho que absorveu algumas... peculiaridades. 

— Algumas? — Jin Ling arqueou uma sobrancelha. — Jingyi é a peculiaridade personificada. Se eu não soubesse que você é filho de Lan Wangji também, juraria que Jingyi é que era filho do jiujiu Wei e você o filho de Zewu-jun. Ele fala pelos cotovelos, não respeita regras, e o jiujiu adora ele. 

— É verdade. — Sizhui concordou, sem qualquer ciúme. — O bofu sempre disse que Jingyi tem "a energia certa para atazanar os anciãos". É um dom. 

— Um dom inútil. 

— Meu cabelo é perfeitamente normal! — Jin Ling protestou, a mão subindo instintivamente para tocar os fios que escapavam do coque — resultado da caminhada matinal e dos ventos de montanha que não respeitavam penteados. — É um cabelo normal, de uma cor normal, com um volume normal, e ele disse que parecia um ouriço que tomou choque. 

— Bem, ele estava sendo carinhoso. 

— Onde que chamar alguém de ouriço eletrocutado é carinho? 

— No dialeto Jingyi, significa que ele se importa. — Sizhui deu de ombros, um gesto tão casual e despreocupado que parecia ensaiado. Depois, sem nenhuma transição aparente, perguntou: — Quer passear? O jardim de inverno está florido. As cerejeiras de montanha começaram a desabrochar mais cedo este ano, dizem que é por causa da energia espiritual instável, mas eu acho que é apenas o tempo que está confuso. De qualquer forma, está bonito. E faz tempo que não conversamos só nós dois. 

Jin Ling queria dizer "não". Queria dizer que tinham que descansar porque partiriam no dia seguinte bem cedo. Mas Sizhui já estava caminhando em direção ao jardim, e Jin Ling sentiu seus pés seguirem por conta própria. Malditos Lan com sua calma exagerada, murmurou, enquanto o silêncio do Recesso das Nuvens engolia seus passos. 


Naquela noite, Jin Ling até conseguiu dormir. 

Foi um sono turbulento, cheio de reviravoltas e despertares falsos, mas ele dormiu. — o que já era mais do que acontecera nas noites anteriores. Não houve o momento habitual de ficar olhando para o teto de madeira enquanto os pensamentos giravam em círculos sem saída. Não houve a tentação de se levantar e treinar formas básicas até o amanhecer só para evitar fechar os olhos. Não houve o medo que vinha se tornando familiar, aquele aperto no peito ao perceber que o sono estava chegando e que os sonhos viriam com ele. 

Ele apenas dormiu. 

E sonhou. 

Era sempre a mesma coisa. Ou quase sempre. Os detalhes variavam: às vezes a voz que o chamava parecia mais distante, às vezes as mãos que se estendiam na escuridão eram mais ou menos do que lembrava. Mas o essencial permanecia. A falta. A perda. Aquela certeza horrível e irracional de que havia algo que ele deveria estar fazendo, alguém que deveria estar salvando, um momento que havia perdido para sempre e que agora se repetia em cada noite como uma punição. 

Dessa vez, porém, houve algo diferente. Dessa vez, Jin Ling conseguiu se aproximar. 

A água escura se partiu diante de seus braços como se reconhecesse sua determinação, como se algo ali no fundo, no coração daquele pesadelo líquido, quisesse que ele chegasse mais perto. As correntes que antes o empurravam para trás agora pareciam guiá-lo, e as mãos que antes o seguravam agora apontavam direções. O rosto submerso, ainda borrado, ainda indistinto, parecia menos distante agora. 

Quase. 

Quase. 

Ele estendeu a mão. 

E acordou. 

Jin Ling sentou-se na cama com um grito preso na garganta, o coração batendo tão rápido que parecia tentar escapar do peito. O suor frio escorria pela sua testa e descia pela nuca, molhando a gola da camisa noturna. Suas mãos tremiam, não de medo, mas de alguma outra coisa que ele não conseguia nomear. Frustração, talvez. Ou saudade de algo que nunca tivera. 

O quarto ao seu redor emergiu lentamente do borrão do despertar abrupto. As paredes de madeira clara do Recesso das Nuvens. O móvel baixo com a bacia de água que já devia estar fria. A espada apoiada junto à cama, ao alcance da mão. A luz pálida da lua entrando pelas frestas da janela. 

Ele respirou fundo. Uma vez. Duas vezes. Três. 

Depois, lentamente, virou a cabeça para o lado. 

Na cama ao lado, Jiang Cheng dormia com a expressão relaxada que só vinha quando ele estava verdadeiramente exausto — o rosto mais jovem, menos tenso, quase como nas pinturas que Jin Ling vira da juventude do tio. Sua respiração era profunda e regular, o peito subindo e descendo em um ritmo calmo que contrastava com a agitação do sobrinho. Zidian brilhava fracamente em seu dedo, um pulsar suave que parecia acompanhar os batimentos cardíacos. 

Mais adiante seu amigo também repousava. Os ombros de Zizhen subiam e desciam em um ritmo calmo, indicando um sono profundo e sem pesadelos — pelo menos por enquanto. 

Nenhum dos dois parecia ter sido perturbado naquela noite. 

Jin Ling passou a mão pelo rosto, os dedos encontrando a pele úmida e quente da febre que os sonhos sempre deixavam em seu rastro. Com a outra mão, afastou os fios de cabelo que haviam escapado do coque frouxo que usara para dormir, prendendo-os atrás da orelha com um gesto que era mais hábito do que necessidade. 

Ele precisava urgentemente descobrir a razão e os significados desses sonhos antes que ficasse louco — ou antes que eles o consumissem por completo, transformando cada noite em uma tortura da qual não houvesse despertar. 

Fora da janela, a lua se escondia atrás de uma nuvem fina, e a névoa da montanha começava a subir, silenciosa e branca, como uma promessa de que os sonhos ainda não haviam terminado. 

Apenas começado.