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Fotografia

Summary:

Uzumaki Naruto cresceu acreditando que algumas coisas simplesmente não eram para ele: uma família, um lar, alguém que escolhesse ficar. Até o dia de sua graduação.

Bastou uma fotografia para mudar suas crenças.

Notes:

Lutei muito com essa história, pois era a minha favorita e nunca ficava como eu queria.
Ainda não está transmitindo todo o sentimento que eu quero, eu simplesmente tenho muita dificuldade me expressar através da escrita.

Chapter 1: Capítulo Um

Chapter Text

 

 

Iruka notou antes mesmo de Naruto perceber que está olhando.

Não é difícil de perceber quando o loiro quer algo. Naruto até tentou disfarçar, mas ele nunca fora bom em esconder suas emoções e desejos. O garoto era expressivo de mais para o próprio bem.

Seus olhos azuis seguem as famílias como quem conta algo que não tem: mães ajeitando protetores de testa tortos, pais rindo alto demais, afagando os cabelos dos filhos, orgulhosos, irmãos mais novos pendurados nas pernas dos recém-formados, os irmãos mais velhos com aquele ar de orgulho mas tentando manter o desinteresse. Há flashes, poses exageradas, risadas alegres. Afinal, é um dia importante para os novos formandos da academia Ninja.

Naruto permanece afastado de todos, sentado em seu balanço já tão familiar. Ele deveria ter chegado mais tarde, talvez quando todos já estivessem dentro de suas salas de aula, aguardando para descobrir em quais equipes serão atribuídos. Mas ele, em sua euforia, chegara cedo, e agora observava as famílias tirando as tradicionais fotografias de graduação, sentindo-se mais sozinho do que nunca. Ele já estava acostumado com esse sentimento, mas ter essa solidão esfregada tão descaradamente em sua cara sempre aprofunda a dor.

Ele segura a bandana gasta que ganhara dias atrás com força, os nós dos dedos pequenos brancos pelo aperto, como se alguém pudesse tirá-la dele a qualquer momento. O sorriso aparece e some rápido, um reflexo mal treinado.

Ele venceu. Reprovou três vezes, caiu, chorou, se levantou, foi alvo de risadas, chacotas. Foi desacreditado pelos outros, mas ele insistiu, perseverou e finalmente chegou até ali.

Mas vitória nenhuma apaga o detalhe cruel: não há ninguém para dizer “vá mais para a esquerda” ou “dê um sorriso”. Não há ninguém para guardar aquela conquista.

Graças ao Mizuki, Naruto entende algo que sempre esteve ali, mas nunca tão nítido. Não é só desprezo. É medo. Medo do que ele carrega, do que representa. E, de repente, faz sentido demais que ninguém tenha tirado uma foto dele no primeiro dia de aula. Ninguém teria feito isso. Ninguém queria aquele registro.

Ele engole em seco, apesar da dor, ele continua olhando, desejando algo que não tem permissão de ter.

 

Iruka vê.

Vê o modo como Naruto finge que não doi, finge que ficar para trás apenas observando não o machuca, a vã tentativa de parecer indiferente. Iruka conhece aquele gesto, o sentimento, já fora aquela criança, com outro tipo de exclusão, com outra ausência. Mas a mesma solidão.

Quando se move para trocar o peso nas pernas, ele sente uma fisgada aguda nas costas, a ferida quase cicatrizada deixada pela Fuma Shuriken, lançada por alguém que outrora fora um amigo. Ele quase morreu naquela noite, salvo pelos esforços rápidos dos médicos, e pela agilidade e força de Naruto.

Iruka sabe, aquela ferida não é apenas dor, é uma escolha. É o corpo lembrando o que o coração decidiu há muito tempo.

O moreno fecha os olhos e respira fundo, com os punhos cerrados, ele se move para cruzar uma linha.

“Naruto.” diz o sensei quando se aproxima do balanço onde Naruto está sentado, ainda olhando para as famílias espalhadas pelo pátio.

Naruto se vira rápido demais, como se tivesse sido pego fazendo algo errado. “Iruka-sensei?”

“Você já tirou sua foto?”

Naruto piscou uma, duas vezes. Antes de responder, o loiro desvia o olhar rapidamente e pigarreia.

“Hã… não.” dá de ombros, fingindo indiferença. “Não preciso. É só uma foto.” sua voz soa muito fraca.

Iruka o conhece o suficiente para saber que a criança está mentindo. O moreno olha em volta. As famílias estão ocupadas demais sendo famílias para notar um professor agachando diante de um aluno.

“Venha cá.” pediu gentilmente, com olhos castanhos irradiando calor e um sorriso doce destinado apenas aos seus alunos.

Naruto hesita. Ele sempre hesita quando algo parece bom demais. Mas ele desce do balanço e se aproxima.

Agachado, Iruka está mais próximo da altura do loiro. Ainda sorrindo, ele estende a mão em um pedido silencioso para que Naruto lhe entregue a bandana. Naruto permanece olhando por um longo minuto, até que finalmente entrega ao adulto sua bandana surrada.

O moreno justa a bandana na testa do loiro com um gesto que não é técnico, é íntimo demais para ser apenas profissional. Endireita o tecido com cuidado, como se aquele detalhe fosse importante. E é.

“Você trabalhou duro para chegar aqui.” diz ele em voz baixa, com um olhar de pura ternura, que faz as pernas de Naruto fraquejarem. “Você merece lembrar desse dia.”

Ele chama um colega professor, pede para que o homem tire uma foto deles. O homem não diz nada, mas seu olhar duro para a criança diz tudo, Iruka fica de costas para Naruto e lança um olhar perigoso ao colega, um olhar que promete o inferno em forma de tintas pegajosas, bombas de glitter e muitos gritos. O outro Sensei traga em seco e se posiciona para tirar a foto, as mãos tremendo levemente.

Apenas então Iruka se vira para Naruto, sorrindo. O loiro está um pouco mais tímido agora.

“Sensei… você não precisa.” sua voz é baixa.

“Eu sei.” Iruka interrompe, suave. “Mas eu quero.”

O loiro inspira fundo, os olhos um pouco marejados.

Naruto segura a bandana outra vez, mas agora não como quem teme perdê-la. Segura como quem acredita, mesmo que só um pouco, que aquilo é real. Ele sorri, dessa vez não é fingido. É largo, orgulhoso, quase incrédulo.

Iruka se posiciona ao lado dela, um sorriso orgulhoso nos lábios.

O clique soa simples demais para algo tão grande.

Depois de agradecer ao colega pelo seu tempo, Iruka entrega ao loiro a foto impressa com cuidado, como se fosse algo frágil.

“Guarde-a bem. Essa conquista é sua.”

Naruto olha para a imagem como se tivesse recebido um objeto mágico. Ele. De bandana. Alguém ao lado. Alguém que escolheu estar ali, alguém que é muito importante para ele.

“Iruka-sensei…” sua voz trêmula é quase um sussurro. “Obrigado.”

Iruka sorri, é gentil e acolhedor, ele toca o topo da cabeça do garoto, seu garoto. “Parabéns, Naruto.”

E naquele dia, mesmo sem sangue, mesmo sem sobrenome compartilhado, uma família se forma, não porque foi declarada, mas porque foi escolhida.